Na série The Mentalist, uma agente morre e o protagonista, Patrick Jane, diz à colega Teresa Lisbon que não pode mais fazer o trabalho que fazia: ajudar o FBI a pegar assassinos. Porque não poderia arriscar a perdê-la. “Podia ser você naquele caixão”, pondera, com tristeza nos olhos.
Lisbon reage lembrando que ele próprio acabara de arriscar a própria vida para que justiça fosse feita. Momentos antes, Patrick colocara-se como alvo de bandidos, no meio de um tiroteio. Com coragem, salvou reféns. Poderia ter morrido.
Ele reagiu com energia ao argumento. Disse com calma e como se fosse óbvio que tinha feito aquilo para que ela não corresse perigo. “Você podia ter morrido. Como isso é diferente?”, ela ponderou, convicta de que também isso era óbvio e brutal. Ele então fala, avassalador: “Eu morrer não me machuca.”
Eu morrer não me machuca.
A trama atingia ali uma complexidade imensa. Em um ambiente singular e singelo, ao mesmo tempo, debaixo de uma árvore dentro de um cemitério, a cena explodia o coração. Camadas e mais camadas jogadas sobre uma dor profunda. A deles – e a minha. Confesso.
The Mentalist é tecida com muitas histórias bonitas, melancólicas, engraçadas, inteligentes, inspiradoras, tudo misturado em um turbilhão de imensa humanidade. Há leveza na pele e há veias abertas com suas cores escorrendo pelos olhos.
Importa dizer que Lisbon, um tanto apreensiva, diz em seguida a Patrick: “Você não pode ficar me tirando do caminho do perigo.” No que ele retorna: “É? E por que não?”. “Porque tem perigos novos todos os dias”, ela diz, por fim. Meus perigos, e os perigos que ameaçam os que amo, imediatamente passaram pela minha mente como um outro filme pungente.
Na voz de Lisbon não havia raiva, desespero ou reclamação. Apenas ternura apaixonada. Na de Patrick, ecoa o grito do peito apertado, como um eco de dilaceramento pelo impensável. Um segurar a vida pulsando na mão, tentando escapar entre os dedos. Um mundo abalado pela vida, por vezes ferida exposta.
Nesses momentos é que se morre um pouco diante das coisas inevitáveis, imprevisíveis, indefiníveis do espírito. Patrick não é vidente, ele repete, repete. É um homem diante do amor e do que isso tem em contrário, desfiando, alimentando o corpo. O que fazer? Viver ou morrer diante do espelho. Viver e morrer: o que refletimos?
Eu morrer não me machuca. Sem vírgula. Sem ponto. Sem o último ponto e suas definições.
Posso escrever um tratado sobre esta frase. Um hino. Uma odisseia. E não darei conta de traduzir o que há em tão longevas palavras. Egoísmo e nada mais? Virtude suprema? Palavra por palavra, até o amanhecer, desconstruo o que sou, e o sentido de ser, para me devolver o sentido.
Eu morrer não me machuca. Mas machuca. Patrick. Lisbon. Você?
Eu escrever não me machuca; viver, sempre.
E quem disse que eu tenho salvação? E quem disse que é isso que eu quero? Nunca foi este o meu fim.
Séries como The Mentalist terminam. E, feito eu, recomeçam. Nunca acabo. Estou apenas começando.
