Uma das perguntas mais importantes da pesquisa eleitoral contemporânea talvez não seja quem está na frente ou quem vai vencer uma eleição.
A pergunta pode ser mais simples e, ao mesmo tempo, mais desconfortável:
O que exatamente uma pesquisa eleitoral está medindo quando divulga seus resultados?
Durante muito tempo, a resposta pareceu relativamente consensual. Uma pesquisa amostral, construída a partir de critérios estatísticos adequados, seria capaz de representar uma população maior por meio da observação de uma parcela dela. Se a amostra fosse corretamente selecionada e ponderada, os resultados obtidos poderiam ser extrapolados para o conjunto da população estudada dentro de determinados limites de confiança.
Esse princípio continua sendo verdadeiro.
Entretanto, a experiência prática dos últimos anos nos levou a questionar se essa explicação continua sendo suficiente para compreender a complexidade do comportamento eleitoral contemporâneo.
Uma inquietação que começou em 2022
A origem dessa reflexão remonta às eleições de 2022.
Naquele momento, acompanhávamos uma candidatura ao Senado e percebíamos que nossos levantamentos apresentavam diferenças relevantes em relação a pesquisas divulgadas por outras empresas de pesquisas e amplamente reproduzidas pela imprensa.
A princípio, a explicação parecia simples. Empresas de pesquisa diferentes utilizam metodologias diferentes, equipes diferentes e processos operacionais diferentes.
Mas a resposta não era satisfatória.
A pergunta que nos intrigava era outra: por que pesquisas realizadas sobre o mesmo eleitorado, no mesmo período e com objetivos semelhantes produziam resultados tão distintos?
A partir dessa inquietação iniciamos um processo de observação sistemática, formulação de hipóteses e realização de experimentos metodológicos para compreender melhor a influência dos diferentes métodos de coleta sobre os resultados eleitorais.
O experimento de 2024
Em 2024 realizamos um dos testes mais interessantes dessa trajetória.
Cerca de trinta dias antes de uma eleição municipal, conduzimos simultaneamente um conjunto de pesquisas utilizando exatamente o mesmo questionário.
As perguntas eram as mesmas.
O público-alvo era o mesmo.
O período de coleta era o mesmo.
A única diferença estava na forma de contato com os entrevistados.
O estudo foi realizado por meio de quatro modalidades distintas:
- pesquisa presencial (F2F);
- pesquisa telefônica automatizada (URA);
- envio do questionário para uma base validada de e-mails;
- pesquisa WEB por recrutamento digital através das plataformas Meta.
Os resultados chamaram atenção.
Embora diversas perguntas apresentassem padrões semelhantes, surgiram divergências consideráveis em variáveis centrais, especialmente na intenção de voto para prefeito.
Mais importante do que isso: quando comparamos posteriormente os resultados observados com o comportamento efetivamente registrado nas urnas, percebemos que nenhum dos métodos isoladamente conseguiu reproduzir com precisão suficiente a dinâmica eleitoral que acabou prevalecendo.
Não se tratava de um problema de questionário.
Não se tratava de um problema de período de coleta.
A principal variável que permanecia em jogo era o próprio método utilizado para alcançar os entrevistados.
Métodos diferentes acessam pessoas diferentes
A conclusão preliminar a que chegamos parece simples, mas possui implicações profundas.
Métodos diferentes não apenas fazem perguntas de formas diferentes.
Eles alcançam pessoas diferentes.
Essa afirmação pode parecer óbvia à primeira vista, mas suas consequências são relevantes.
Quando falamos sobre qualidade amostral, normalmente pensamos em variáveis como sexo, idade, escolaridade, renda, religião e região geográfica. Essas características continuam fundamentais e permanecerão sendo a espinha dorsal dos modelos de amostragem.
O problema é que pessoas com perfis demográficos semelhantes podem apresentar comportamentos radicalmente distintos.
Duas pessoas da mesma idade, pertencentes à mesma faixa de renda e moradoras do mesmo bairro podem ter níveis completamente diferentes de interesse por política, consumo de informação, engajamento eleitoral, confiança em instituições e disposição para participar de uma pesquisa.
E essas diferenças comportamentais parecem influenciar diretamente quem é alcançado por cada método de coleta.
Pesquisas online tendem a atrair indivíduos mais conectados digitalmente e mais dispostos a dedicar tempo para responder questionários.
Pesquisas presenciais costumam alcançar um público mais amplo e heterogêneo, incluindo pessoas com diferentes níveis de interesse político.
Pesquisas telefônicas dependem da disposição das pessoas para atender chamadas e permanecer na entrevista, comportamento que também não se distribui uniformemente pela população.
Em outras palavras, métodos distintos parecem acessar segmentos comportamentais distintos de uma mesma sociedade.
Um novo desafio para as pesquisas eleitorais
As evidências observadas em nossos experimentos nos levaram a uma reflexão mais ampla sobre os limites contemporâneos das pesquisas eleitorais.
Tradicionalmente, uma pesquisa amostral tem como objetivo representar uma população a partir da observação de uma parcela dela. Esse princípio continua válido e constitui a base da inferência estatística moderna.
Entretanto, a crescente divergência observada entre resultados produzidos por diferentes métodos de coleta sugere que talvez estejamos diante de um desafio adicional.
A questão não parece estar necessariamente na validade estatística dos levantamentos.
Pesquisas realizadas com rigor metodológico, amostras adequadamente construídas e procedimentos corretos podem continuar sendo tecnicamente consistentes.
O problema é que populações cada vez mais heterogêneas do ponto de vista comportamental podem responder de formas diferentes aos diversos mecanismos de recrutamento e entrevista.
Nesse cenário, diferentes métodos de coleta não estariam necessariamente observando populações diferentes, mas acessando com intensidades distintas segmentos comportamentais que coexistem dentro da mesma população.
Essa constatação produz uma consequência importante para a interpretação dos resultados.
A pergunta deixa de ser apenas se a pesquisa é estatisticamente correta.
Passa a ser também quais dimensões da realidade social ela consegue capturar com maior precisão e quais dimensões podem estar sendo sub-representadas.
A pergunta errada
Essa mudança de perspectiva altera inclusive a forma como o debate público costuma ser conduzido.
Quando duas pesquisas apresentam resultados divergentes, a reação mais comum é perguntar:
“Qual delas está certa?”
Talvez essa seja a pergunta errada.
À medida que avançamos em nossos estudos, passamos a considerar que pesquisas realizadas com rigor metodológico podem ser simultaneamente corretas do ponto de vista técnico e, ainda assim, produzir resultados diferentes.
Não porque uma delas esteja necessariamente errada.
Mas porque cada uma pode estar observando a realidade a partir de uma janela diferente.
A metáfora talvez seja útil.
Não estamos discutindo apenas a nitidez da fotografia.
Estamos discutindo de qual janela a fotografia foi tirada.
O desafio da comunicação pública
Essa reflexão possui implicações que ultrapassam a metodologia e alcançam a esfera da comunicação política.
Existe uma expectativa generalizada entre eleitores, jornalistas, analistas e agentes políticos de que uma pesquisa eleitoral registrada e divulgada de acordo com as normas do Tribunal Superior Eleitoral represente integralmente a opinião da população estudada.
Essa expectativa é compreensível.
Afinal, a própria divulgação de margens de erro, tamanho da amostra e critérios metodológicos transmite a ideia de que estamos diante de uma representação completa e objetiva da realidade.
Mas e se os limites contemporâneos das pesquisas não estiverem mais concentrados apenas na margem de erro ou no tamanho da amostra?
E se parte do desafio estiver na crescente dificuldade de representar, por meio de um único método de coleta, toda a complexidade comportamental presente em uma sociedade cada vez mais fragmentada?
Nesse caso, talvez a pergunta mais relevante não seja qual pesquisa está certa.
Talvez a pergunta seja o que exatamente cada pesquisa está conseguindo medir.
Um debate que talvez ainda não tenha começado
Essa reflexão conduz inevitavelmente a uma discussão regulatória.
A legislação eleitoral brasileira foi construída para garantir transparência metodológica, rastreabilidade e auditabilidade dos levantamentos divulgados ao público.
Esses objetivos continuam fundamentais.
Mas surge uma questão adicional.
O atual arcabouço regulatório consegue comunicar adequadamente ao público as limitações associadas aos diferentes métodos de coleta?
A simples divulgação de informações metodológicas é suficiente para que eleitores, jornalistas e agentes políticos compreendam os potenciais vieses, alcances e limitações de cada modalidade de pesquisa?
Talvez o futuro do debate sobre pesquisas eleitorais não esteja apenas na busca por amostras melhores.
Talvez esteja também no desenvolvimento de formas mais sofisticadas de explicar o que cada pesquisa efetivamente mede, quais segmentos tende a captar com maior intensidade e quais cautelas devem ser consideradas na interpretação de seus resultados.
Reconhecer essas limitações não enfraquece a pesquisa de opinião.
Ao contrário.
É justamente o reconhecimento dos limites de cada instrumento que permite sua utilização de forma mais consciente, mais transparente e potencialmente mais próxima da realidade que se pretende compreender.
Se existe uma lição que nossos experimentos metodológicos vêm produzindo nos últimos anos, ela é relativamente simples: O desafio das pesquisas eleitorais do século XXI talvez não seja apenas entrevistar pessoas suficientes, o desafio pode ser compreender que diferentes formas de contato revelam diferentes camadas da sociedade.
E entender essas camadas talvez seja tão importante quanto medir a opinião em si.
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