Avatar de Mario Rodrigues Neto

Colunista do PortalGO

Compartilhe

Quando pesquisas corretas produzem respostas diferentes

A pergunta não é “qual pesquisa está certa”, mas “o que cada pesquisa está medindo”. Limites e desafios da pesquisa eleitoral contemporânea.

87cde413 a886 4c93 af96 | PortalGO

Uma das perguntas mais importantes da pesquisa eleitoral contemporânea talvez não seja quem está na frente ou quem vai vencer uma eleição.

A pergunta pode ser mais simples e, ao mesmo tempo, mais desconfortável:

O que exatamente uma pesquisa eleitoral está medindo quando divulga seus resultados?

Durante muito tempo, a resposta pareceu relativamente consensual. Uma pesquisa amostral, construída a partir de critérios estatísticos adequados, seria capaz de representar uma população maior por meio da observação de uma parcela dela. Se a amostra fosse corretamente selecionada e ponderada, os resultados obtidos poderiam ser extrapolados para o conjunto da população estudada dentro de determinados limites de confiança.

Esse princípio continua sendo verdadeiro.

Entretanto, a experiência prática dos últimos anos nos levou a questionar se essa explicação continua sendo suficiente para compreender a complexidade do comportamento eleitoral contemporâneo.

Uma inquietação que começou em 2022

A origem dessa reflexão remonta às eleições de 2022.

Naquele momento, acompanhávamos uma candidatura ao Senado e percebíamos que nossos levantamentos apresentavam diferenças relevantes em relação a pesquisas divulgadas por outras empresas de pesquisas e amplamente reproduzidas pela imprensa.

A princípio, a explicação parecia simples. Empresas de pesquisa diferentes utilizam metodologias diferentes, equipes diferentes e processos operacionais diferentes.

Mas a resposta não era satisfatória.

A pergunta que nos intrigava era outra: por que pesquisas realizadas sobre o mesmo eleitorado, no mesmo período e com objetivos semelhantes produziam resultados tão distintos?

A partir dessa inquietação iniciamos um processo de observação sistemática, formulação de hipóteses e realização de experimentos metodológicos para compreender melhor a influência dos diferentes métodos de coleta sobre os resultados eleitorais.

O experimento de 2024

Em 2024 realizamos um dos testes mais interessantes dessa trajetória.

Cerca de trinta dias antes de uma eleição municipal, conduzimos simultaneamente um conjunto de pesquisas utilizando exatamente o mesmo questionário.

As perguntas eram as mesmas.

O público-alvo era o mesmo.

O período de coleta era o mesmo.

A única diferença estava na forma de contato com os entrevistados.

O estudo foi realizado por meio de quatro modalidades distintas:

  • pesquisa presencial (F2F);
  • pesquisa telefônica automatizada (URA);
  • envio do questionário para uma base validada de e-mails;
  • pesquisa WEB por recrutamento digital através das plataformas Meta.

Os resultados chamaram atenção.

Embora diversas perguntas apresentassem padrões semelhantes, surgiram divergências consideráveis em variáveis centrais, especialmente na intenção de voto para prefeito.

Mais importante do que isso: quando comparamos posteriormente os resultados observados com o comportamento efetivamente registrado nas urnas, percebemos que nenhum dos métodos isoladamente conseguiu reproduzir com precisão suficiente a dinâmica eleitoral que acabou prevalecendo.

Não se tratava de um problema de questionário.

Não se tratava de um problema de período de coleta.

A principal variável que permanecia em jogo era o próprio método utilizado para alcançar os entrevistados.

Métodos diferentes acessam pessoas diferentes

A conclusão preliminar a que chegamos parece simples, mas possui implicações profundas.

Métodos diferentes não apenas fazem perguntas de formas diferentes.

Eles alcançam pessoas diferentes.

Essa afirmação pode parecer óbvia à primeira vista, mas suas consequências são relevantes.

Quando falamos sobre qualidade amostral, normalmente pensamos em variáveis como sexo, idade, escolaridade, renda, religião e região geográfica. Essas características continuam fundamentais e permanecerão sendo a espinha dorsal dos modelos de amostragem.

O problema é que pessoas com perfis demográficos semelhantes podem apresentar comportamentos radicalmente distintos.

Duas pessoas da mesma idade, pertencentes à mesma faixa de renda e moradoras do mesmo bairro podem ter níveis completamente diferentes de interesse por política, consumo de informação, engajamento eleitoral, confiança em instituições e disposição para participar de uma pesquisa.

E essas diferenças comportamentais parecem influenciar diretamente quem é alcançado por cada método de coleta.

Pesquisas online tendem a atrair indivíduos mais conectados digitalmente e mais dispostos a dedicar tempo para responder questionários.

Pesquisas presenciais costumam alcançar um público mais amplo e heterogêneo, incluindo pessoas com diferentes níveis de interesse político.

Pesquisas telefônicas dependem da disposição das pessoas para atender chamadas e permanecer na entrevista, comportamento que também não se distribui uniformemente pela população.

Em outras palavras, métodos distintos parecem acessar segmentos comportamentais distintos de uma mesma sociedade.

Um novo desafio para as pesquisas eleitorais

As evidências observadas em nossos experimentos nos levaram a uma reflexão mais ampla sobre os limites contemporâneos das pesquisas eleitorais.

Tradicionalmente, uma pesquisa amostral tem como objetivo representar uma população a partir da observação de uma parcela dela. Esse princípio continua válido e constitui a base da inferência estatística moderna.

Entretanto, a crescente divergência observada entre resultados produzidos por diferentes métodos de coleta sugere que talvez estejamos diante de um desafio adicional.

A questão não parece estar necessariamente na validade estatística dos levantamentos.

Pesquisas realizadas com rigor metodológico, amostras adequadamente construídas e procedimentos corretos podem continuar sendo tecnicamente consistentes.

O problema é que populações cada vez mais heterogêneas do ponto de vista comportamental podem responder de formas diferentes aos diversos mecanismos de recrutamento e entrevista.

Nesse cenário, diferentes métodos de coleta não estariam necessariamente observando populações diferentes, mas acessando com intensidades distintas segmentos comportamentais que coexistem dentro da mesma população.

Essa constatação produz uma consequência importante para a interpretação dos resultados.

A pergunta deixa de ser apenas se a pesquisa é estatisticamente correta.

Passa a ser também quais dimensões da realidade social ela consegue capturar com maior precisão e quais dimensões podem estar sendo sub-representadas.

A pergunta errada

Essa mudança de perspectiva altera inclusive a forma como o debate público costuma ser conduzido.

Quando duas pesquisas apresentam resultados divergentes, a reação mais comum é perguntar:

“Qual delas está certa?”

Talvez essa seja a pergunta errada.

À medida que avançamos em nossos estudos, passamos a considerar que pesquisas realizadas com rigor metodológico podem ser simultaneamente corretas do ponto de vista técnico e, ainda assim, produzir resultados diferentes.

Não porque uma delas esteja necessariamente errada.

Mas porque cada uma pode estar observando a realidade a partir de uma janela diferente.

A metáfora talvez seja útil.

Não estamos discutindo apenas a nitidez da fotografia.

Estamos discutindo de qual janela a fotografia foi tirada.

O desafio da comunicação pública

Essa reflexão possui implicações que ultrapassam a metodologia e alcançam a esfera da comunicação política.

Existe uma expectativa generalizada entre eleitores, jornalistas, analistas e agentes políticos de que uma pesquisa eleitoral registrada e divulgada de acordo com as normas do Tribunal Superior Eleitoral represente integralmente a opinião da população estudada.

Essa expectativa é compreensível.

Afinal, a própria divulgação de margens de erro, tamanho da amostra e critérios metodológicos transmite a ideia de que estamos diante de uma representação completa e objetiva da realidade.

Mas e se os limites contemporâneos das pesquisas não estiverem mais concentrados apenas na margem de erro ou no tamanho da amostra?

E se parte do desafio estiver na crescente dificuldade de representar, por meio de um único método de coleta, toda a complexidade comportamental presente em uma sociedade cada vez mais fragmentada?

Nesse caso, talvez a pergunta mais relevante não seja qual pesquisa está certa.

Talvez a pergunta seja o que exatamente cada pesquisa está conseguindo medir.

Um debate que talvez ainda não tenha começado

Essa reflexão conduz inevitavelmente a uma discussão regulatória.

A legislação eleitoral brasileira foi construída para garantir transparência metodológica, rastreabilidade e auditabilidade dos levantamentos divulgados ao público.

Esses objetivos continuam fundamentais.

Mas surge uma questão adicional.

O atual arcabouço regulatório consegue comunicar adequadamente ao público as limitações associadas aos diferentes métodos de coleta?

A simples divulgação de informações metodológicas é suficiente para que eleitores, jornalistas e agentes políticos compreendam os potenciais vieses, alcances e limitações de cada modalidade de pesquisa?

Talvez o futuro do debate sobre pesquisas eleitorais não esteja apenas na busca por amostras melhores.

Talvez esteja também no desenvolvimento de formas mais sofisticadas de explicar o que cada pesquisa efetivamente mede, quais segmentos tende a captar com maior intensidade e quais cautelas devem ser consideradas na interpretação de seus resultados.

Reconhecer essas limitações não enfraquece a pesquisa de opinião.

Ao contrário.

É justamente o reconhecimento dos limites de cada instrumento que permite sua utilização de forma mais consciente, mais transparente e potencialmente mais próxima da realidade que se pretende compreender.

Se existe uma lição que nossos experimentos metodológicos vêm produzindo nos últimos anos, ela é relativamente simples: O desafio das pesquisas eleitorais do século XXI talvez não seja apenas entrevistar pessoas suficientes, o desafio pode ser compreender que diferentes formas de contato revelam diferentes camadas da sociedade.

E entender essas camadas talvez seja tão importante quanto medir a opinião em si.

Caso queira continuar esta conversa, deixe seu comentário. Eu ficarei muito feliz de compartilhar minhas ideias contigo e ouvir o que você tem a dizer.

Newsletter
Receba as principais notícias e atualizações do PortalGO direto no seu e-mail.
Avatar de Mario Rodrigues Neto
Recentes
Projeto Jogar + Aprender já alcançou 2 mil estudantes em Goiás
Projeto Jogar + Aprender já alcançou 2 mil estudantes em Goiás
Educação · 19h

Projeto Jogar + Aprender já alcançou 2 mil estudantes em Goiás

Aparecida terá Dia D de vacinação antirrábica para cães e gatos em 19 de setembro
Aparecida terá Dia D de vacinação antirrábica para cães e gatos em 19 de setembro
Saúde · 1d

Aparecida terá Dia D de vacinação antirrábica para cães e gatos em 19 de setembro

Fachin nega pedido de Moraes e mantém julgamentos separados no STF
Fachin nega pedido de Moraes e mantém julgamentos separados no STF
Justiça · 1d

Fachin nega pedido de Moraes e mantém julgamentos separados no STF

HGG transmite ao vivo 20 procedimentos endoscópicos durante congresso nacional em Goiânia
HGG transmite ao vivo 20 procedimentos endoscópicos durante congresso nacional em Goiânia
Saúde · 1d

HGG transmite ao vivo 20 procedimentos endoscópicos durante congresso nacional em Goiânia

Mais do PortalGO
gustavo mendanha entrevista senado goias 1024x770 1 | PortalGO
Gustavo Mendanha reúne apoio de 18 vereadores e lideranças políticas em Rio Verde
Candidato ao Senado participou de ato de campanha pelas ruas da cidade neste sábado (12); ex-prefeito Paulo do Vale e deputado Lucas do Vale acompanharam agenda 12 set 2026 · Blog Eleições 2026
WhatsApp Image 2026 09 08 at 12.25.18 1536x1023 10 | PortalGO
Goiânia recebe lançamento de livro sobre mulheres negras na literatura
Cidinha da Silva lança livro sobre escritoras negras neste sábado (12/9) no Ponto de Cultura Malunga, em Goiânia; entrada gratuita. 12 set 2026 · Goiás
c17b9d81 b4b9 4f55 b450 0592cdd921db | PortalGO
Goiás fica acima da média brasileira nas quatro áreas avaliadas pelo Pisa 2025
Estado aparece entre os dez primeiros colocados do país em Ciências, Leitura, Matemática e Resolução de Problemas com Ferramentas Computacionais 12 set 2026 · Educação
IMG 5633 | PortalGO
Fachin dá 24 horas para Mendonça levantar sigilo de todo o caso Master
Presidente do STF acolheu pedido da PGR após órgão apontar que parte dos procedimentos da Operação Compliance Zero ficou fora da decisão anterior 12 set 2026 · Brasil
ff5dff5e 31ed 4eae 95f7 81c62d5680cd | PortalGO
Goiânia conclui metronização dos corredores Norte-Sul e Leste-Oeste
Capital passa a contar com 31 quilômetros de BRT com prioridade semafórica inteligente, tecnologia que reduz paradas nos cruzamentos e diminui o tempo de viagem… 12 set 2026 · Cidades
predio tse mcamgo abr 22062023 4 768x512 1 | PortalGO
Campanha eleitoral: entenda o que é, como funciona e quais são os limites
Período permite que candidatos apresentem propostas e peçam votos, mas propaganda eleitoral deve seguir regras estabelecidas pela legislação e pela Justiça… 12 set 2026 · Blog Eleições 2026
gandr collage | PortalGO
Datafolha: Lula tem 46% e Flávio Bolsonaro, 44%, em empate técnico
Presidente aparece numericamente à frente nas cinco simulações de segundo turno; diferenças contra Flávio e Augusto Cury estão dentro da margem de erro 11 set 2026 · Blog Eleições 2026
SaveClip.App 806093166 18621028885013845 3609627074275440262 n | PortalGO
Ronaldo Caiado é diagnosticado com pneumonia após internação em São Paulo
Presidenciável foi hospitalizado inicialmente para tratar uma faringite aguda; boletim médico aponta quadro estável e boa evolução clínica 11 set 2026 · Blog Eleições 2026
lula4809 0 | PortalGO
Mendonça inclui Flávio Bolsonaro em inquérito sobre filme Dark Horse
Investigação apura suspeitas relacionadas ao financiamento de R$ 61 milhões para a cinebiografia de Jair Bolsonaro; Eduardo Bolsonaro também é alvo 11 set 2026 · Justiça
gandr collage 19 | PortalGO
Gracinha lidera disputa ao Senado; Gayer aparece em segundo, diz pesquisa
Candidata do União Brasil tem 42,7% das intenções de voto; levantamento aponta empate técnico entre Gustavo Gayer e Dr. Zacharias Calil 11 set 2026 · Blog Eleições 2026