Após o recente relançamento de “Nova China” na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), o esforço para recuperar a memória política e intelectual do ex-senador Domingos Vellasco ganha novos desdobramentos. O projeto, que integra a Coleção Equidade e Liberdade, não se limita ao registro histórico sobre a revolução asiática. O plano agora contempla a reedição de outros textos raros do político goiano com o objetivo de preencher lacunas na historiografia nacional e estadual.
O próximo passo: Direito Eleitoral

Entre as novas iniciativas editoriais, a Fundação João Mangabeira (FJM) planeja o relançamento do livro “Direito Eleitoral”, escrito por Vellasco em 1935. A obra possui relevância singular por ter sido a primeira doutrina crítica dedicada a essa legislação no Brasil, logo após a criação do Código Eleitoral de 1932.
De acordo com o presidente da seção goiana da fundação, Einstein Paniago, a escolha dos títulos baseia-se na atualidade dessas reflexões, que superam o desgaste do tempo:
“A decisão de revisitar esses textos nasceu da percepção de que alguns livros envelhecem apenas cronologicamente, mas permanecem atuais pelo olhar que oferecem sobre a história”, afirma Paniago.
Para o gestor, o principal aspecto do legado de Vellasco que permanece desconhecido do grande público é justamente a sua estatura como pensador. “Muitos lembram de Domingos Vellasco pela atuação política prática e pela participação na fundação do Partido Socialista Brasileiro (PSB), mas sua produção escrita revela um intelectual atento às grandes transformações do século XX, preocupado em compreender os fenômenos internacionais sem perder de vista os impactos para o Brasil”, avalia.
Observação direta contra a polarização
O resgate de “Nova China”, escrito sob a ótica de quem visitou o país em meados do século passado, serve como ponto de partida para esse trabalho de revisão histórica. Paniago destaca que o mérito do autor foi adotar uma postura de isenção, sem o objetivo de rotular a realidade asiática como um “paraíso” ou um “inferno”.
“Vivemos um tempo em que muitos debates acabam reduzidos a posições extremadas. O exercício de Vellasco foi o de procurar compreender antes de julgar. Ele observou, conversou, registrou impressões e apresentou elementos para que o leitor formasse a própria interpretação. Esse método continua extremamente necessário nas relações internacionais contemporâneas”, pondera o presidente da FJM em Goiás.
A evolução do modelo chinês e o mercado atual
Essa sobriedade na análise ganha importância prática em 2026, período em que a China consolida a posição de principal parceiro comercial de Goiás e do Brasil. O diretor da ApexBrasil, Floriano Pesaro, responsável pelo prefácio da nova edição, aponta que a trajetória do país asiático traz lições valiosas sobre a flexibilidade de modelos econômicos e sociais.
- Década de 1950 (Registro de Vellasco): Sociedade predominantemente rural, foco em cooperativas e comunas, forte mobilização social contra a fome.
- Pós-1970 (Reformas Estruturais): Abertura para o mercado, atração de investimentos externos e integração progressiva à economia global.
- Cenário Atual (Desafio para Goiás): Necessidade de sofisticação do comércio bilateral, com foco em tecnologia, transição energética e economia verde.
Pesaro observa que a experiência das comunas rurais na década de 1950, embora tenha gerado resultados complexos e problemas graves, demonstrou uma enorme capacidade de reorganização do Estado.
“O mais interessante, quando se analisa a trajetória posterior da China, é perceber a aptidão do país para modificar suas políticas. Especialmente com as reformas iniciadas no final da década de 1970, o governo adotou novos instrumentos econômicos e abriu espaço para a iniciativa privada”, explica o diretor da ApexBrasil.
Outro ponto destacado por Pesaro é a permanência de um forte espírito coletivo, elemento que sobreviveu ao processo de modernização. “A China passou por transformações extraordinárias desde a viagem de Vellasco, com urbanização acelerada e aumento do consumo. No entanto, a ideia de um projeto nacional e de pertencimento a uma trajetória coletiva de desenvolvimento continua viva. Entender como eles conciliam essa tradição com a modernidade é o grande desafio para os gestores públicos e empresários atuais”, adiciona.
Simbolismo cultural em Goiás
Para Einstein Paniago, o ato de coordenar esse resgate editorial a partir de Goiás carrega um significado profundo para a identidade cultural do estado. O objetivo da coleção é dar continuidade à identificação de obras negligenciadas pelo mercado tradicional.
“Existe um patrimônio intelectual de grande valor produzido por pensadores brasileiros que deixou de circular por diferentes razões. Realizar esse movimento no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás representa uma homenagem à trajetória de Vellasco e, ao mesmo tempo, o reconhecimento da contribuição que os intelectuais goianos ofereceram ao pensamento político do país”, conclui Paniago.
