As voltas que o mundo da política dá.
Caiado muda o rumo de sua pré-campanha a presidente e passa a bater de frente com Flávio Bolsonaro.
Pré-candidato a governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB) aproveita a deixa e, esperto, anuncia possível apoio a Flávio no Estado, em um hipotético 2º turno.
(Sim, o presidente do PSDB, Gustavo Sebba, avisou. Por linhas tortas, razões outras, mas deu a dica.)
A expectativa é 2º turno para Marconi em Goiás, ou para Flávio presidente?
Para ambos? Para Flávio nacional e para o candidato do PL ao governo, Wilder Morais – quem sabe?
Vale o aceno. Bem na hora. Calculado no tempo e no espaço.
Um aceno no momento em que Caiado, o candidato que divide a direita com Flávio in Goiás e apoia a reeleição de Daniel Vilela (MDB), vai para o confronto com Flávio na disputa presidencial.
E no instante em que Wilder indica que agora, sim… agora, vai para o confronto com Daniel – embora não com Caiado.
Vamos por partes.
PARTE 1
A Carta aos Brasileiros de Flávio Bolsonaro era para ser uma bala de prata para Flávio retomar o controle da narrativa de campanha.
A Carta aos Brasileiros de Flávio é uma fake news que emula a original: a Carta aos Brasileiros do PT, de 2002.
Não há coincidência antes ou depois do Meia Ponte. Há uma ponte, e estratégia pensada.
Naquele tempo, Lula era o mal. A/o coisa ruim que poderia acontecer ao Brasil caso fosse eleito. Essa era a visão e a mística criadas pelos adversários.
A Carta lustrou sua imagem e acalmou o mercado. Contra o medo Lula, floresceu o sem medo de ser feliz lulista.
A Carta do Flávio é um atestado de reconhecimento, por ele próprio, de que os brasileiros estão (mais uma vez) com medo, mas não é de Lula.
Com medo dele, do irmão Eduardo Bolsonaro, das taxas de Trump, do fim do Pix, do fantasma do terror extremo de direita nominado Paulo Figueiredo. Entre outros.
PARTE 2
A Carta do Pai do Flávio foi a melhor notícia para Ronaldo Caiado. Coloca-o no jogo inaugurando nova estratégia de campanha e novo posicionamento eleitoral.
Sai o Caiado com medo de ferir os sentimentos de Flávio e do bolsonarismo. Entra em campo o Caiado com suas armas velhas de guerra em punho: a ironia e o sarcasmo.
No mesmo dia da leitura solene da Carta de Jair Bolsonaro por Flávio, ele postou nas redes sociais:
“Flávio Bolsonaro, de 45 anos, leu ao vivo uma carta de seu pai dizendo que está pronto para ser presidente. É isso…”
É isso. Tiro no fígado.
Um avanço, para quem até outro dia passava a mão na cabeça de Flávio, mesmo Flávio sob suspeita de corrupção no caso Vorcaro.
O argumento de Caiado:
“…Porque um candidato à presidência precisa provar que consegue decidir sozinho nos momentos mais difíceis. O eleitor não quer um presidente que precise da aprovação constante de outro líder; ele quer alguém capaz de conduzir o país por conta própria. Pense em uma crise envolvendo a Venezuela, a Bolívia ou a Argentina. Nesse momento, ninguém pode ter dúvidas sobre quem está no comando, muito menos imaginar que o presidente precise consultar alguém antes de agir. Esse contraste entre autonomia e dependência pode se tornar um eixo central do debate. Porque, em uma eleição presidencial, a liderança não é herdada, ela é demonstrada.”
Dá tempo desse novo candidato a presidente Ronaldo Caiado entrar na disputa nacional pra valer e tomar de Flávio a polarização com Lula?
Antes tarde do que nunca, o goiano sai das cordas. É o primeiro passo.
PARTE 3
Em Goiás, no final de semana, Caiado foi para o ataque também. Contra Wilder Morais (PL) e Marconi Perillo (PSDB).
Caiado foi um pai para Daniel Vilela. Do alto de seus 84% de aprovação (Quaest), bateu nos adversários do filho político para que o filho não precise sujar as mãos e bater de frente com Wilder e Marconi.
Estratégia de preservação. Caiado pode apanhar. Não é o candidato. Enquanto isso, o seu filho candidato faz campanha no modo positivo, evitando confronto direto e desgaste desnecessário.
Caiado disse no encontro de campanha de sua base aliada, sem citar nomes (outra clássica tergiversação estratégica), que um “anda de camburão” e o outro prefere “taças de champanhe granfinas”.
O “um” é Marconi – alvo de ação da PF na tentativa frustrada de se eleger para o Senado – e o “outro” é Wilder – com fama de milionário bom vivant.
“Nós precisamos eleger o Daniel no 1º turno, por favor. Vocês me elegeram no 1º turno na primeira eleição e na segunda eleição. Nunca em Goiás teve isso. Nós não podemos quebrar essa regra. Vamos eleger no 1º turno para ele me ajudar a andar o Brasil inteiro ao meu lado.”
Disse ele também. E atenção à última frase.
Eleger logo Daniel para Daniel ajudá-lo depois a derrotar Lula no 2º turno presidencial. A sutileza.
PARTE 4
O efeito do novo Caiado no ataque contra Flávio, para a candidatura à reeleição de Daniel Vilela, é que entra agora no radar, junto com o aceno de Marconi a Flávio.
Caiado vai para cima de Flávio no momento em que o governador Daniel anuncia um grande negócio de Estado que beneficia diretamente o empresário e ex-aliado (adversários, só de abril para cá) político Wilder.
O grande negócio no meio da confusão é a anunciada compra, pelo Estado, do prédio quase pronto que vai abrigar o novo Hugo. Coisa de R$ 500 milhões.
Bom para o Estado? Ótimo para Wilder, que não ficará no prejuízo caso a dona da obra decrete falência – ou algo do gênero – e sua empresa, a construtora Orca, padeça no prejuízo, a receber.
Coincidência curiosa, reforçada pela revelação dos aliados do PL de que Wilder vai para cima de Daniel, mas poupando Caiado.
Justo Caiado, que lá atrás estava no grupo que entronizou o empresário Wilder na política goiana, como suplente de Demóstenes Torres, então no PFL caiadista.
Desde então Wilder e Caiado são como sócios, ou associados políticos. No primeiro governo de Caiado, Wilder foi secretário. E nome incentivado para ser candidato a prefeito de Goiânia em 2024 com apoio do governo.
PARTE 5
Por anúncio e prenúncio, fica assim o ambiente tóxico de campanha em Goiás:
a) Daniel Vilela vai apanhar de Wilder Morais, mas Caiado será poupado.
b) Se for mesmo pra valer, esse novo Caiado vai bater mais e mais duro em Flávio Bolsonaro, que apoia e é apoiado no 1º turno in Goiás por Wilder. Pensando bem: se não for pra valer, como Caiado tomará de Flávio o provável 1º turno?
c) Marconi Perillo pode apoiar Flávio em um 2º turno que ninguém sabe se haverá – ou quem estará lá.
d) Nas entrelinhas de Wilder e Marconi, o pressuposto (explícito) é de que um ou o outro vai para o 2º turno em Goiás contra o governista Daniel Vilela. Vão se poupar no 1º turno, feito compadres, ou Marconi vai atacar Wilder e Wilder vai atacar Marconi?
e) Wilder vai poupar Caiado e bater em Daniel, enquanto Caiado e Daniel batem em Flávio e Marconi, se não bate, pode até arriscar defender Flávio, pra marcar pontos com o bolsonarismo já no 1º turno?
f) O PL aceitará o jogo de Wilder, bom pra Caiado em Goiás, ruim pra Flávio? (E esse jogo não seria bom também pra Daniel?)
PARTE 6
Goiás terá um clássico redivivo: Direita bolsonarista X direita caiadista no 1º turno.
Na disputa pela prefeitura de Goiânia dois anos atrás, deu caiadismo no 2º turno.
Como ficará o saldo dessa guerra em curso para as composições e arrumações do 2º turno deste ano?
Antes: qual o poder de destruição que um terá sobre o bunker do outro já no 1º turno?
E há um outro ponto, que merece mais ênfase:
g) No meio dessa desavença fratricida na direita, como se posicionará Marconi Perillo? Marconi quase nada ataca Daniel, e pouco atira em Caiado. Sua bala é comparação de governos – os quatro dele, de 1998 a 2018, com os dois últimos, de Caiado. Os dele, em que saiu “no camburão”, com o de Caiado, com 84% de aprovação.
PARTE 7
Como o PT ainda não tem candidato, por ora não entra na conversa.
PARTE 8
Uma última pergunta:
Flávio Bolsonaro e o bolsonarismo goiano vão levar a sério esse apoio de Marconi, ou tratá-lo como esperteza de campanha, anunciada sob medida para fustigar Daniel e escantear Wilder, em busca da polarização conveniente?
Enquanto Caiado, Daniel e Marconi jogam, e Flávio apanha, o empresário Wilder toma uísque na toca da Orca.
PARTE 9
Ânimo, gente.
É só o esquenta de campanha para a grande festa das convenções.
