A política raramente deixa espaços vazios. Quando alguém recua, outro avança. É por isso que a decisão da federação formada por PP e União Brasil de caminhar para a neutralidade na disputa presidencial merece uma leitura mais ampla do que simplesmente classificá-la como uma derrota de Flávio Bolsonaro.
Sem dúvida, o senador perde. Perde porque deixa de contar com o apoio institucional de uma das maiores forças partidárias do País. Perde porque a neutralidade nasce de desgastes políticos, de insatisfações internas e da
pressão de dirigentes estaduais que não desejam carregar, em seus estados, o peso da polarização nacional.
Mas talvez essa não seja a principal notícia. O fato politicamente mais relevante é que a neutralidade não fecha portas. Ao contrário, abre todas elas.
Ao liberar seus diretórios estaduais para construir alianças conforme a realidade local, a federação transforma seus votos, sua estrutura e seu tempo de televisão em um dos ativos mais cobiçados da sucessão presidencial. Em
outras palavras, cria um grande mercado político.
É nesse cenário que um personagem ganha importância: Gilberto Kassab. Presidente nacional do PSD, ele construiu sua trajetória como um dos mais habilidosos articuladores da política brasileira. Poucos conhecem tão bem a arte de aproximar adversários, construir consensos e formar maiorias. Se existe alguém capaz de transformar neutralidade em apoio, esse alguém atende pelo nome de Gilberto Kassab.
É justamente aí que Ronaldo Caiado pode entrar no jogo. O governador de Goiás procura apresentar-se como uma alternativa de centro-direita, sem o discurso radical que marca parte da disputa nacional. Sua estratégia sempre
foi ampliar pontes, dialogar com diferentes setores e nacionalizar uma imagem construída na administração de Goiás.
Sem o compromisso formal da federação com Flávio Bolsonaro, esse caminho torna-se mais acessível. Não significa que PP e União Brasil apoiarão Caiado. Significa apenas que passaram a poder conversar e, em política, conversar costuma ser o primeiro passo das grandes alianças.
Há, naturalmente, obstáculos. Em alguns estados, como São Paulo, dirigentes do PP já demonstram preferência por manter o apoio a Flávio Bolsonaro em função das disputas locais. Em outros, a proximidade com Lula continuará pesando. A federação dificilmente adotará um comportamento uniforme.
Mas o tabuleiro mudou. Até ontem, Kassab encontrava uma porta fechada. Hoje, a encontra entreaberta. Quem conhece sua história sabe que ele raramente desperdiça oportunidades de articulação.
A eleição presidencial de 2026 continua aberta. Talvez mais aberta do que parecia, porque, às vezes, a notícia mais importante não é quem perdeu um aliado. É quem ganhou a chance de conquistá-lo.
