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Iris, eu e as nossas histórias

“Minhas histórias são as mesmas, mas nunca as mesmíssimas.” Texto sobre Iris Rezende, memória afetiva e o ofício de escrever.

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Tenho repetido velhas histórias ao contar novas histórias. Isso tem se repetido tanto que virou esta história, que é uma repetição de como resolvo as histórias mal contadas da minha vida. Lembrei de Iris Rezende. Nenhuma novidade. Já tinha me lembrado disso antes.

Me recordo de Iris em momentos variados, pela força do aprendizado que tive e do respeito que tenho. Lei da atração referencial de vida: uma história de vida puxa a outra.

Há outros nomes e outras inspirações e outros fatos compartilhados que vão e vem e me levam adiante. Guardo e recorro a eles como energéticos e como orações.

Iris repetia as mesmas histórias. As mesmas, as que todos os mais próximos já sabiam de cor. Para algumas pessoas, um enfado. Desiderato cansativo ouvi-lo na mesma enxadada.

No final da vida, havia complacência dos que se incomodavam com a repetição mas que a aceitavam como uma licença histórica de sua personalidade. Ele era assim. Que bom, acho que pensavam, na subtração dos sentimentos.

Minha tese é outra. Já contei. Reconto. Iris tinha uma capanga de boas histórias. Umas socadas tão lá no fundo que pouco eram trazidas aos discursos e conversas.

Dependendo da plateia, da pessoa à frente, da ocasião, da necessidade política ou pessoal, ele sacava duas, três, cinco, emendava uma na outra e tecia sua mensagem.

Em nenhum momento vi Iris perder o fio da meada. Como muitos ouviam picado o que ele dizia, acham que ele se esquecia do que começou a dizer. Nunca. Ele tinha método, estilo e carisma.

Seus discursos, seus dizeres, seguiam o plano: início, meio e fim. Havia propósito na metáfora, na parábola, na recordação aparentemente espontânea. Nada ficava fora do lugar.

Cada palavra carregava um sentido, um sentimento, um significado, um eco e uma vida. A obra não era um fluxo de pensamento sem nexo. Era um épico de Riobaldo, um Veiga de Platiplanto.

Eu ouvia, prestava atenção pra ver aonde ele ia chegar, só pra ter outro prazer além de ouvi-lo: a surpresa do interlocutor, da plateia. A surpresa com o amarrio, ou com a velha novidade: a cena que ele sacava e trazia à tona.

Eu, mesmo com toda essas certezas sobre sua maestria, me surpreendia sempre. Me deliciava com a oportunidade de vê-lo, ouvi-lo, sentir o que acontecia em sua presença. Só respirava e suspirava.

Minhas histórias repetidas não vem do mesmo jeito, já percebi faz tempo. Ora elas vêm inteiras, ora aos pedacinhos miúdos, ora só com a soca do pilão, mastigadas pelos dias e dias que ensinam e macetam o coração, que chicoteiam sem dó na sapiência.

Eu não paro para me ouvir antes de escrever. É minha primeira providência me libertar de mim. A gente tem amarras. Tem conceitos, preconceitos, tem limitações de DNA e de berço.

Tantas cercas que é melhor abrir a porteira e correr. Eu corro a escrever antes de me deixar pegar por mim na ribanceira. O cerrado é meu deslimite e meu Deus-me-livre. E escrevo.

O que eu disse de verdade? O que há para ser compreendido por quem vai ler, e por mim, com a novidade da velha história que me saltou aos olhos e às mãos? O que há de ser o que já é, de alguma formatação?

Iris trazia sua vida interior à tona o tempo todo. O que faço. Natural que as diferenças sejam estratosféricas. A riqueza da vida que ele viveu é universalmente pública. A minha inversamente particular.

Carrego algo de universal, porém em uma dimensão muito pessoal. Não me vejo com a vocação dos palcos ou palanques. Não chego à prospeção. No máximo, alcanço a interpretação. E legal isso. Pra mim.

Quando escrevo, meu gesto é o do garimpeiro em busca da humildade. A resignação de quem fala: olha, não sei muito, mas vivi isso, de alguma forma – sirva-se, se entender que sim. Ou se se desentender com o não.

Estou desdobrado quando sou lido. Estou do avesso não por ser o contrário, mas por não ser mais invisível no interior. Declaradamente, me deixo ser visto em todos os sentidos. Muitos, até quero conhecer. Existem além de mim, eu sei.

Estou exposto nas histórias que conto. Em outra medida, Iris se expunha ao escrever e ao contar. Um ser como missão de vida pública. Um homem procurando em busca da humanidade das gentes.

Lembram como ele contava fatos que provavam como a política era, para ele, assim, divina, inescapável aos seus atos e pensamentos? Minha missão é humana. Apenasmente humana.

Meu filho mais novo – olha mais uma história repetida – antes se irritava quando a gente andava de carro por Goiânia e eu me metia a contar as histórias de lugares e ruas. Mania. Gosto meu essa doce intimidade com a minha Goiânia.

Hoje ele implica, juntos com meus outros filhos, por provocação. Tô sabendo. Trolagem treteira. E vejam como é isso: virou história nossa, entre a gente. História que nos une, nos envolve, nos diverte, só de triscar.

Virou uma dessas muitas historinhas que carregamos na alma com amor. Com o amor que sentimos e compactuamos. Esses amarrios de vida que ora nos puxam, ora nos salvam dos abismos, ora balançam sem método, só balançam no ar.

Umas dessas muitas fantasias familiares que adoramos contar pra gente de vez em quando, porque nos definem e nos divertem. E que contamos de novo para amigos, namoradas, novos conhecidos, porque nos nos representam.

Temos tantas histórias alegres, tristes, de solidão, de festas e de encontros inesquecíveis. Tantos contos que sabemos onde vão chegar – feito Iris, creio -, ou nem sempre imaginamos.

E como deixá-las de lado e nunca mais contá-las, nem que seja pra nós mesmos, só pra não corrermos o risco de nos fazer repetitivos – ou de nem sermos de verdade, mas de que assim sejamos interpretados?

Como assim, ser por ser a interpretação dos outros?

Somos muito Iris. Somos nossas histórias todas e em particular. Vivemos juntando, guardando, espalhando de novo essas histórias maravilhosas que nos preenchem e esvaziam quando queremos e precisamos.

Como brinquedos de crianças sentadas no chão da vida. E como adultos com pés no chão que, vez em quando, precisam voar, nem que venha a ser na imaginação. A própria. A que se mistura e expande com as alheias.

Não há realidade fora da imaginação que dê conta da gente. E não digo isso como formula para quem quer escapar da dureza das pedras ao pôr do sol. Digo para quem se arrisca a deitar no rio e correr para o mar. É só – em todos os sentidos.

Minhas histórias são as mesmas, mas nunca as mesmíssimas histórias. A vida conta diferente, me reconta outra toda vez. Quando eu conto, quando você lê ou ouve, quando vai ao encontro de outras histórias e se reproduzem feito gatos no telhado, quando isso acontece, vai acontecer de novo.

Iris e eu não temos fim. E é só o começo. Temos histórias pra contar. Histórias que nos contam. Cada um com seu fim em princípio. Cada qual com sua capa e com seus leitores em potencial. Estamos nos parágrafos e no cheiro das folhas abertas.

E quer saber: eu gostava de ouvir as mesmas histórias contadas por Iris uma, duas, dez vezes. Era bom escutar a sua voz, perceber a sua dramaticidade, ver seus trejeitos calculados, e atentar para as nuances de suas mímicas.

Sem me repetir nunca, eu me ecoava em seu labirinto. E me gritava, em silêncio absoluto para não perder um segundo de seu encantamento. Era bom. Ainda o vejo. E ouço. Me vejo. E me ouço o tempo todo. Fazer o quê?

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