A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas globais produziu um efeito imediato: transformou-se em combustível para a disputa política brasileira.
O senador Flávio Bolsonaro correu para comemorar. E, do ponto de vista político, faz sentido. Afinal, esteve recentemente nos Estados Unidos, reuniu-se com Donald Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, e defendeu publicamente a adoção da medida. Voltou ao Brasil com um fato concreto para apresentar ao seu eleitorado.
Mas é preciso separar a narrativa política dos fatos institucionais.
A classificação não foi assinada por Flávio Bolsonaro nem surgiu de uma conversa reservada na Casa Branca. Trata-se de uma decisão formal do Departamento de Estado americano, comandado por Marco Rubio, dentro de uma estratégia mais ampla de combate a organizações criminosas transnacionais.
Isso não exclui a possibilidade de que a visita do senador tenha contribuído para reforçar o tema junto às autoridades americanas. A política internacional é feita justamente de influência, articulação e construção de agendas. O que não se pode afirmar, ao menos por enquanto, é que a decisão tenha sido resultado exclusivo da atuação de um único parlamentar brasileiro.
Por outro lado, o governo Lula reagiu com preocupação. Brasília argumenta que enquadrar facções brasileiras como organizações terroristas internacionais pode abrir precedentes delicados em relação à soberania nacional e ao funcionamento do sistema financeiro.
A preocupação não é desprovida de lógica. Os Estados Unidos costumam utilizar esse tipo de classificação como instrumento de política externa, ampliando seu alcance sobre operações financeiras, movimentação de recursos e relações comerciais que possam ter ligação direta ou indireta com os grupos sancionados.
Ao mesmo tempo, também seria ingenuidade ignorar a dimensão alcançada por PCC e Comando Vermelho. Há muito tempo essas organizações deixaram de ser simples facções carcerárias. Hoje operam rotas internacionais de tráfico, lavagem de dinheiro, contrabando de armas e conexões criminosas em diversos países da América do Sul.
O que está em discussão, portanto, não é apenas uma questão ideológica. Trata-se de um debate sobre como enfrentar estruturas criminosas que se tornaram maiores, mais ricas e mais sofisticadas do que muitos governos locais.
A esquerda vê riscos de interferência externa. A direita enxerga uma oportunidade de ampliar a cooperação internacional contra o crime organizado. Ambas as posições possuem argumentos que merecem consideração.
No meio desse embate, uma verdade permanece inalterada: se o Brasil tivesse conseguido conter o avanço dessas facções nas últimas décadas, dificilmente outro país estaria agora assumindo a iniciativa de classificá-las como ameaça global.
Talvez a principal reflexão seja justamente essa. Mais importante do que decidir quem ganhou pontos políticos com o anúncio é compreender o que ele revela sobre a realidade brasileira. Quando organizações criminosas nacionais passam a ser tratadas como problema de segurança internacional, o alerta não é para Washington, para Brasília
ou para Flávio Bolsonaro.
O alerta é para todos nós. Afinal, enquanto os políticos disputam a autoria da notícia, PCC e Comando Vermelho continuam disputando territórios, bilhões de reais e parcelas cada vez maiores de poder dentro e fora do país.
