A Área de Proteção Ambiental (APA) de Pouso Alto, território que abrange mais de 800 mil hectares espalhados por seis municípios da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, vive um período de discussões em torno de seu equilíbrio ecológico. A perspectiva do avanço da atividade minerária na região tem gerado debates sobre os potenciais impactos no cotidiano, na identidade e na economia da população local.
Mobilização digital
Esse cenário motivou uma série de manifestações em comentários nas redes sociais. Adriana Monteiro, moradora de Senador Canedo que acompanha o caso, expressou em redes sociais a preocupação que tem pautado os debates em plataformas como o Instagram. Para ela, a distância geográfica não diminui a relevância do tema.
“Eu prezo pelo cuidado com o meio ambiente e entendo que qualquer intervenção em uma área de natureza preservada pode gerar grandes impactos ambientais, como a morte de animais presentes na região, a degradação do solo e o comprometimento do equilíbrio ambiental”, afirma.
As manifestações de internautas refletem o receio de que a introdução da mineração em larga escala altere dinâmicas culturais e econômicas tradicionais do estado. “Goiás é um estado muito rico em cultura, culinária, tradições e modos de vida próprios”, lembra a cidadã, que manifesta preocupação com o respeito aos costumes locais diante da chegada de grandes empreendimentos.

Esse argumento converge com posicionamentos de entidades do setor. Durante audiência pública na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), Luiz Guilherme Pena, representante do Observatório do Clima, alertou para a relação entre o bioma e as comunidades locais: “Quando se destrói o Cerrado, não se destrói apenas vegetação: destrói-se uma civilização construída em relação profunda com a natureza”.
Sustentabilidade e segurança hídrica
O conceito de “mineração sustentável” é alvo de contestação por parte de setores da sociedade civil e de organizações ambientais. “Na minha visão, não existe mineração sustentável quando a atividade, por si só, causa degradação ao meio ambiente”, afirma Adriana Monteiro, alinhada às críticas de que o termo muitas vezes é utilizado de forma genérica.
De acordo com o monitoramento das discussões públicas, os principais pontos de atenção dividem-se em três eixos:
- Risco às nascentes: Preocupação com a possível degradação do solo e reflexos diretos na qualidade e disponibilidade da água dos rios que abastecem a região.
- Reflexos no ecoturismo: Potencial isolamento ou restrição de acesso a áreas naturais, o que afetaria o fluxo de turistas e a economia local consolidada em torno do turismo ecológico.
- Alternativas de desenvolvimento: Defesa de investimentos em tecnologias e infraestrutura voltadas prioritariamente para práticas de baixo impacto ambiental.
Semad
A repercussão nas plataformas digitais levou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) a utilizar a tribuna da Alego para esclarecer os parâmetros técnicos do ordenamento territorial da região. A superintendente Zilma Alves Maia destacou o desafio de contextualizar dados técnicos no ecossistema das redes sociais: “A gente lidou nas últimas semanas com muita fake news e é muito difícil fazer esse debate dentro da rede social, trazer a verdade dentro da rede social”.
A Semad informou que não há previsão de liberação irrestrita da mineração na APA de Pouso Alto e apresentou propostas para endurecer as regras atuais, baseadas no plano de manejo vigente desde 2016:
- Esclarecimento sobre Oficinas: A pasta explicou que o início das discussões virtuais ocorreu após uma oficina técnica realizada em Colinas do Sul voltada aos conselheiros da unidade (Conapa), que foi confundida por internautas com uma audiência pública de liberação de lavras.
- Veto a Fertilizantes Minerais: A proposta atual visa proibir explicitamente a exploração de fertilizantes minerais (além de minerais metálicos como ouro e manganês), mantendo apenas a extração restrita de areia e cascalho para manutenção de estradas vicinais locais.
- Proteção de Áreas Úmidas: Nova medida propõe equiparar juridicamente os campos nativos e as áreas úmidas do Cerrado (campos úmidos) ao patamar restritivo de Área de Preservação Permanente (APP).
Fiscalização urbana

Além da pauta minerária, a Semad indicou que o ordenamento urbano é uma prioridade imediata para a preservação da Chapada dos Veadeiros. O subsecretário Robson Disarz apontou que os principais problemas atuais da região envolvem o parcelamento irregular do solo e empreendimentos turísticos clandestinos, mencionando também o programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) focado no apoio a brigadistas voluntários.
Contudo, parte da sociedade civil defende que a atenção dada aos problemas urbanos não deve secundarizar o debate sobre a atividade mineradora. “São problemas diferentes, que precisam ser enfrentados com seriedade pelo poder público, sem que um sirva de justificativa para relativizar o outro”, observa Monteiro.
A demanda por transparência e participação popular segue ativa. O acompanhamento rigoroso das propostas apresentadas pelo governo estadual sinaliza que a gestão ambiental da Chapada dos Veadeiros permanece como um tema central na agenda pública goiana, ainda que a comoção não costume sair muito das redes.
*Revisão: Laila Melo
