Uma coisa que aprendi com minha desumilde pessoa, morando sozinho, é que sou caro. Tenho hábitos caros. Minha ex provavelmente sabia muito bem disso, e como a conheço bem, sei que tentou me avisar e eu, eu fiz como sempre faço, ouvi e fui em frente.
E não estou falando do meu velho vício de comprar livros. Porque eu compro livros, muitos. Onde quer que me estabeleça, construo muralhas de livros pra me proteger da realidade, das pessoas, de mim mesmo. Tenho pra mim que isso é virtude. E é. Como não seria?
Sou caro porque tenho hábitos caros pra mim. Não abro mão de tomar café. Tomo em casa, Sabor a Mais, e tomo na rua, em boa cafeteria, ao custo de um ou dois Sabor a Mais por xícara. Me condenem por isso.
Não bebo vinhos, parei de ver cervejas. Arrisco tomar uma boa cachaça. Pouca. E nem é das caras que bebo e choro, com alegria e aos goles. Um tanto, uma careta e um sorriso. Nasci nessa contradição da roça. Café quente ao sol, cachaça e leite de madrugada: a da invernada com os amigos, e a do curral.
Compro mexerica da boa, e na cidade só tem da boa em mercado bom de bairro bom. Seleção natural do capitalismo. Inevitável. Compro a carne que gosto pra bife – isso eu sei fazer – ou a mistura que que apraz no momento. Quer dizer: eu olho e nunca vejo preço. Atitude de rico em corpo de rico. Meu santo espírito.
Tenho manias inconfessáveis. Caras também. Você dirá. Mas isso nem é tão caro, a não ser que essas manias sejam estratosféricas. Não são. Mas, pra mim, tudo é caro. Porque não ganho tanto. Não tenho dinheiro suficiente pra me manter. O que me faz sempre ocupado em lutar para me manter e seguir a rotina de crime continuado. Tipo um serial killer dos meus lapsos de razão.
Minha consciência não dói, aviso já aos patrulhadores sociais que porventura estejam me olhando de lado. Isso resolvi na terapia, para onde corro nas recaídas da vida. Outra coisa cara. Necessária, bem mais que cara, a bem também da verdade. (A bem da sobrevivência, acrescente-se aí mais essa camada.)
Quero ver até onde consigo manter esse relacionamento comigo sem ir à falência. Verei. Porque estarei presente a este enrosco até o último dia, dando tudo certo ou não, querendo ou não. Sabemos disso. Não me julguem.
Nem precisam atirar a primeira pedra pra que eu me sinta merecedor de condenação. A questão é: dane-se. Dívida por dívida, a vida me deve mais. Onde ela estava esse tempo todo? Onde foi parar comigo? A conta não fecha. Se pago pra ser, pago o dobro pra ver. A gente acerta um dia, se Deus quiser. Veremos.
