A cinebiografia de Jair Bolsonaro movimentou cifras recordes, R$ 134 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master; mas os bastidores contam uma história bem diferente. Um relatório do SATED/SP, de dezembro de 2025, expõe 15 denúncias de figurantes e técnicos que enfrentaram comida estragada, atrasos de pagamento e revistas invasivas durante as filmagens em São Paulo.
Os figurantes recebiam um kit lanche (pão com frios, uma maçã, uma paçoca e um suco) enquanto o elenco principal desfrutava de café da manhã e almoço self-service. A alimentação, segundo os trabalhadores, não sustentava jornadas superiores a 8 horas. Em outubro de 2025, houve fornecimento de comida estragada.
O relatório também aponta cachês abaixo do mercado, contratações informais por WhatsApp e pagamentos em dinheiro sem nota fiscal. Os figurantes ainda pagavam R$ 10 pelo transporte até o set, valor descontado do cachê ou cobrado em espécie. Um trabalhador relatou agressão física e registrou boletim de ocorrência; o sindicato menciona também assédio moral recorrente.
As revistas pessoais, conduzidas por seguranças da produção, incluíam toques em partes íntimas e nos seios dos figurantes logo na chegada às locações.
O sindicato também identificou uso de equipe técnica estrangeira sem recolhimento das taxas da Lei nº 6.533/78. Os contratos para obtenção dos vistos sindicais obrigatórios nem chegaram a ser enviados. O SATED/SP diz que os relatos seguirão para as autoridades, com direito a contraditório.
A GOUP Entertainment, produtora do longa, não respondeu aos questionamentos da imprensa.
A trama financeira e política
Os recursos para o filme vieram à tona na quarta-feira (13), com a revelação do Intercept Brasil de que Vorcaro repassou R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025, via um fundo nos EUA associado a aliados de Eduardo Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro intermediou as cobranças e, em áudio de setembro de 2025, pressionou Vorcaro: “Tá num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso”. Depois, convidou o banqueiro para jantar com Jim Caviezel, o ator principal.
Flávio confirmou que pediu os recursos, mas sustentou que o dinheiro era “privado”. A GOUP Entertainment, por sua vez, negou ter recebido qualquer valor de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas sob seu controle.
Valores que impressionam
O montante atribuído a Vorcaro supera em muito o orçamento de produções brasileiras aclamadas. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, indicado ao Oscar e vencedor em Cannes, custou R$ 28 milhões, segundo a Ancine. “Dark Horse” ainda busca distribuição internacional, apesar das especulações sobre estreia em setembro de 2026. Dirigido por Cyrus Nowrasteh, o longa traz Esai Morales, Lynn Collins, Camille Guaty (como Michelle Bolsonaro) e Jeffrey Vincent Parise.
