O Brasil vive um momento de polarização profundamente enraizada, com dois polos muito bem definidos. O resultado é um ambiente público hostil, em que fatos objetivos cedem espaço a narrativas inconciliáveis.
Existe, hoje, uma polarização afetiva, na qual as divergências políticas ultrapassam o campo das ideias e alcançam sentimentos, identidades e modos de vida. Não menos intensa é a guerra cultural travada em várias frentes. De um lado, os conservadores nos costumes, para quem os princípios e valores do ambiente religioso devem prevalecer. Eles combatem a chamada cultura woke e defendem, na economia, a redução da máquina pública, o combate à corrupção e políticas voltadas a diminuir o clientelismo estatal. Do outro lado, os progressistas, que defendem o fortalecimento do Estado, a ampliação do uso de verbas públicas em políticas sociais e uma atuação estatal mais presente na promoção de pautas identitárias e culturais associadas ao universo woke. Para os progressistas, a política deve exercer papel ativo por meio de políticas assistencialistas e de proteção social.
Entre esses dois blocos, a chamada terceira via passou a ser representada por outsiders que criticam o sistema político tradicional. Defendem a redução drástica dos gastos públicos, a diminuição do tamanho do Estado e um discurso de enfrentamento à corrupção e às estruturas políticas estabelecidas. Na prática, porém, nem sempre conseguem se distinguir da retórica polarizadora que criticam. Assim, convivemos com populistas de esquerda, populistas de direita e, mais recentemente, populistas antissistema. Nesse cenário, a diplomacia, o diálogo e o equilíbrio começam a se tornar virtudes raras na política brasileira.
Há grandes debates que deverão pautar as próximas eleições e influenciar os rumos do país nos próximos anos. Um desses capítulos obrigatórios é a corrupção, representada por escândalos financeiros e denúncias de desvio de recursos públicos. Muitos líderes de viés autoritário chegam ao poder pela via democrática, mas não combatem efetivamente a corrupção nem alteram o status quo. Pelo contrário, acabam integrando-o, deterioram as instituições democráticas e promovem formas de iliberalismo político, marcadas pela ausência de transparência e pelo enfraquecimento institucional. A moralidade pública, a conduta ilibada e a transparência precisarão ocupar espaço central no debate eleitoral. Sem elas, qualquer discussão sobre programas de governo se torna secundária.
Paralelamente ao debate sobre a conduta dos eleitos, cresce a discussão sobre o papel do Judiciário. A influência dos tribunais, frequentemente acusados de excessiva interferência política, assim como os debates sobre supostos abusos de autoridade e ativismo judicial, também permanecerão no centro das discussões públicas. Não por acaso, o Senado rejeitou recentemente, pela primeira vez desde 1894, uma indicação presidencial para determinado cargo institucional, fato que simboliza o aumento das tensões entre os Poderes.
Os novos programas sociais implementados pelo governo às vésperas do período eleitoral também serão alvo de intenso debate. Para críticos, tais políticas buscam ampliar a base eleitoral entre as camadas mais vulneráveis; para defensores, representam mecanismos legítimos de proteção social e combate às desigualdades históricas. O problema é que, em muitos casos, o assistencialismo de curto prazo acaba suplantando a necessária construção de políticas estruturais, e o eleitor precisa saber diferenciar uma coisa da outra.
O combate ao crime organizado será outro tema de destaque. Atualmente, a criminalidade encontra-se infiltrada em diferentes esferas institucionais, o que exige políticas públicas sérias, eficientes e coordenadas. A população demonstra crescente intolerância diante da violência, da extorsão e da sensação de insegurança, e essa pressão social tende a cobrar respostas concretas dos candidatos. Diversos setores têm pautas específicas, mas os eixos mencionados devem concentrar o debate eleitoral dos próximos anos.
O Brasil precisa discutir seriamente qual país deseja construir para o futuro. Se, de fato, quer se transformar em uma nação com desenvolvimento humano, crescimento econômico, modernização tecnológica e protagonismo internacional ou continuar refém de sua própria polarização. Para isso, será necessário eleger representantes à altura dessa discussão, capazes de costurar acordos onde hoje só existem trincheiras, fortalecer as instituições democráticas e defender o interesse nacional acima de projetos de poder.
