Nas últimas semanas, o lançamento da minissérie “Emergência Radioativa” na Netflix reacendeu o interesse pelo acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987. No entanto, esse resgate histórico trouxe um efeito colateral inesperado: uma onda de desinformação e “hate” digital contra institutos de saúde atuais que utilizam a sigla IGR.
A confusão ocorre entre o extinto Instituto Goiano de Radioterapia, protagonista da tragédia, e instituições homônimas ou de siglas semelhantes, como o Instituto Goiano de Radiologia, que prestam serviços essenciais à sociedade na atualidade.
O IGR Histórico: extinto e responsabilizado
O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) foi o verdadeiro responsável pelo abandono da peça que continha a cápsula de Césio-137, em uma clínica que já se encontrava em ruínas e desativada desde 1985, muito antes do acidente ocorrer. O abandono do prédio, situado no cruzamento das Avenidas Paranaíba e Tocantins, no Centro de Goiânia, aconteceu após uma disputa judicial de despejo movida pela Sociedade São Vicente de Paulo, então proprietária do terreno da antiga Santa Casa de Misericórdia.
Na ocasião da saída, os sócios do instituto deixaram para trás o cabeçote de uma unidade de teleterapia, o que resultaria na tragédia. Como desfecho jurídico do desastre iniciado em 1987, os responsáveis foram condenados por homicídio e lesão corporal culposa, enquanto o instituto original deixou de existir juridicamente há décadas.
Radioterapia vs. Radiologia: entenda a diferença
Muitos ataques virtuais atingiram o Instituto Goiano de Radiologia. No entanto, essa é uma instituição completamente distinta, fundada em 1951 — 36 anos antes do acidente — e que sempre operou em sedes diferentes da clínica da tragédia.
A confusão é técnica:
- Radioterapia (O erro de 1987): Utiliza fontes radioativas pesadas (como o Césio-137) para tratamento de câncer.
- Radiologia (Clínicas atuais): Foca em diagnóstico por imagem (Raio-X, Tomografia, Ressonância). Equipamentos modernos de diagnóstico, em sua maioria, não possuem fontes radioativas encapsuladas que possam “vazar”; eles emitem radiação apenas quando ligados à eletricidade.
O que mudou desde os anos 80?
Um erro comum é dizer que não existiam protocolos de segurança na década de 80. Na verdade, já existiam normas da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) desde 1978 e 1984, mas a fiscalização era falha e o sistema fragmentado.
Hoje, a segurança no Brasil segue rigorosos padrões internacionais:
- Fiscalização Permanente: A CNEN monitora o inventário de cada grama de material radioativo no país.
- Novas Regras: Normas como a RDC 611/2022 da ANVISA garantem que clínicas de radiologia operem com protocolos de proteção que tornam impossível a repetição do cenário de 1987.
- Destino dos Rejeitos: O lixo radioativo de 1987 está isolado de forma definitiva em Abadia de Goiás, sob monitoramento constante, sem risco para a população.
Onde é o “Ponto Zero” hoje?
Se você pesquisar pela localização do antigo IGR, não encontrará uma clínica. O prédio da Avenida Paranaíba foi totalmente demolido e o solo descontaminado. Atualmente, o local abriga o Centro de Convenções de Goiânia, um espaço público de eventos. Outros focos, como o antigo ferro-velho, também foram isolados e concretados pelo governo.
