Às vezes me esqueço de Lobo Antunes. E aí, de repente, me lembro, ou algo me remete a ele, sempre uma frase ou um ricocheteio (do verbo chicote na ponta dos dedos) de linguagem, puro e saboroso exercício de respiração vernacular.
Tenho um prazer enorme com as palavras, a linguagem, o dizer, e o português de Portugal me surpreende desde as construções das frases até o uso de expressões inusitadas – ao meu ouvido brasileiro, imagino.
Eu leio pelo sentido, pela emoção, pelo espanto. Mas leio também por isso: pela gramática. Leio por conta do que dizer, além do que é verbalizado e do significado do bem-dito ou do maldito. Leio ao pé da letra e ao rés do chão. Dicionarizando de coração.
Penso essas coisas para criar sentido no que faço, mesmo sabendo que no mais das vezes não temos muito sentido. Experimente definir-se. Tente achar uma forma de se colocar numa estrutura de verbete.
Vamos lá. Uma metáfora simples. Faça o teste da síntese diante do espelho. Veja: impossível um ser, ainda que só, caber numa coisa só. Só o aposto já serve para nos desviar. Uma vírgula nos tira do eixo e aí não tem mais jeito. Tem, mas de outro jeito.
Os jogos de linguagem são a essência dos jogos de vida. Vivemos dessa forma nas entrelinhas. Por isso Deus escreve por linhas tortas. Porque nas retas nós capotamos, não dá pra seguir sempre o mesmo rumo se as exclamações e adjetivos e os utensílios de estilo existem.
Nas crônicas, António Logo Antunes conta coisas que vivemos, mas conta à moda de desconstruções de certezas peremptórias de linguagem. Nos romances, ele convulsiona, provoca erupções, e sopita. Em tudo há suspiração.
Aqui ele quebra uma linha, ali ele surpreende com uma imaginação que é mais real que a vida descrita pelos sóbrios diante das páginas em branco. E tudo resulta em lagos na gente, em calabouços, em riachos. Nunca em mar de uma vez por todas. As inundações são concomitantes.
Somos bêbados iludidos. Realmente lúdicos. E nada disso. Lobo Antunes avisa e se distrai. Eu me perco, lúdico, e por isso me sinto à vontade. Como Alice no País das Maravilhas. Como Pedrinho no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Como eu na minha terra encantada da infância.
E veja que é na linguagem que está tudo. Que moro. Que me estabeleço na leitura e na escrita. Não me perguntem sobre o que um livro conta. Mas sintam, no meu próximo texto, tudo que estava lá e agora está em mim.
A minha alma está nesse intercâmbio entre o lido e o vivido. Eu passo tudo por escrito e vivo disso. Escorreito. Sem definições.
