Há frases que parecem enterradas pela história. De repente, voltam à superfície.
Quando o secretário de Estado americano, Marco Rubio, exclui o Brasil da lista de países amigos dos Estados Unidos, não faz apenas uma observação diplomática. Envia uma mensagem política. E mensagens políticas, especialmente quando partem da principal potência do planeta, raramente são inocentes.
O episódio ganhou contornos ainda mais relevantes porque ocorre em meio a uma sequência de acontecimentos que inclui tarifas sobre produtos brasileiros, críticas ao Pix, questionamentos sobre decisões judiciais, pressões relacionadas ao combate ao crime organizado e divergências sobre política externa. Separados, poderiam parecer fatos isolados. Juntos, desenham um quadro mais amplo.
Durante décadas, acreditou-se que a Guerra Fria havia ficado para trás e que as relações entre os países seriam guiadas prioritariamente por interesses econômicos. Mas a realidade parece caminhar em outra direção. A geopolítica voltou ao centro do palco. E, quando ela retorna, velhas doutrinas também reaparecem.
A América Latina volta a ser observada por Washington não apenas como parceira comercial, mas como espaço estratégico de influência. É impossível ignorar que o Brasil, por seu tamanho, população, economia e projeção internacional, ocupa posição singular nesse tabuleiro. Tratar o maior país da América do Sul como exceção em uma lista de aliados não é um detalhe protocolar. É um gesto político calculado.
Celso Amorim afirmou não encontrar precedente para tal declaração nos mais de duzentos anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Se tem razão ou não, os historiadores dirão. Mas o fato de a comparação ter sido feita já revela o grau de preocupação existente em Brasília. Nem mesmo durante períodos de forte tensão
bilateral esse tipo de classificação pública era comum.
Naturalmente, os Estados Unidos têm o direito de conduzir sua política externa de acordo com seus interesses nacionais. Marco Rubio deixou isso claro ao afirmar que a diplomacia americana se concentra exclusivamente nos interesses dos Estados Unidos. O problema começa quando os interesses de uma potência passam a ser apresentados como parâmetro para a conduta de outros países.
O Brasil não é Cuba. Não é Venezuela. Não é Nicarágua. Também não é um protetorado de ninguém. É uma nação soberana, com instituições próprias, virtudes, defeitos e capacidade de decidir os rumos do seu destino.
Talvez o maior erro da política internacional seja confundir amizade com submissão. Amigos podem divergir. Aliados podem discordar. Parceiros podem defender interesses diferentes. O respeito entre nações começa justamente pelo reconhecimento dessa autonomia.
Por isso, mais importante do que a fala de Marco Rubio é a reflexão que ela provoca. Estaremos diante de uma crise passageira ou do retorno de uma visão segundo a qual a América Latina continua sendo um quintal estratégico a ser administrado por Washington?
A resposta ainda não está dada. Mas a pergunta já merece toda a nossa atenção.
