Os interesses eventuais do jogo do poder colocaram Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab no mesmo partido este ano, mas até essa surpreendente juntada de bacheiros, nesta longa estrada da vida política nacional e nesta altura do campeonato decisivo para outubro e 2030 em diante, eles nunca haviam pisado o mesmo chão. Deu match.
A possível chapa Caiado presidente, Kassab vice, será o casamento que falta. Porque falta a reciprocidade do amor eterno:
1 – o ex-governador abraçar o partido com seus vícios e virtudes centristas;
2 – o PSD absorvê-lo como:
um dos seus de fato (uma direita que se recusa a ser bolsonarista, porém que ainda não chegou ao centro);
um pré-candidato com direito a dote (estrutura de campanha consistente) e bênção da família do noivo (os peessedebistas entrarem de verdade no projeto).
Caiado e Kassab juntos e misturados numa chapa por Caiado na linha de frente. Faz Caiado Centro-avante.
Hoje ele está mais para zagueiro, jogando recuado, enquanto os adversários Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) lideram na correria, Renan Santos (Missão) cola no calcanhar e Romeu Zema (Novo) o ameaça pelos flancos.
Pode ser o apito inicial de uma nova estratégia, que mire mais a conquista de campo ao centro e à direita, onde Flávio está livre e solto, e menos Lula, que tem seu lugar ao sol em outro espaço ideológico, a centro-esquerda.
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O arranjo Caiado-Kassab é bom em amplos sentidos:
1 – cria um fato novo, ainda que chapa pura costume ser também um ativo de quem não tem com quem se aliar. Pelo menos a notícia ganhou destaque e está sendo plantada aos poucos, como convém a uma boa estratégia de comunicação;
2 – dá tempo ao tempo, enquanto não se acha bala de prata para abalar a polarização Lula-Flávio. Quem sabe um deles caia no meio do caminho das denúncias do fogo cruzado?;
3 – cacifa mais e mais Kassab como cartola-capitão-negociador dentro e fora de campo no segundo turno.
4 – é um drible, uma firula, um chapéu pra levantar a torcida antes do chute pro gol. Teorias da conspiração sempre animam. Agitam dentro e fora dos bancos de reserva e afins.
5 – (a hipótese de que trava aliança com Zema é curiosa: chegou-se a tal ponto?).
Muita atenção nessa hora.
Kassab prospecta, calcula, de olho no lance. Mas, em um eventual segundo turno sem o PSD entre os dois primeiros, ele será não só faz-tudo do partido. Será tudo ao mesmo tempo e também um candidato apoiando uma chapa. Pode de mando e de fato relevante na mídia. Qual chapa? A ver.
Nesse ponto, vale outra faceta da participação direta de Kassab na chapa. Ele pode ir para um lado, e Caiado ir para outro. De causa combinada ou não.
E tem-se outra leitura do movimento de Kassab ao se apresentar como nome na chapa presidencial. Entra em campo o Kassab-armador, com pinta de volante marcador de posição estratégica.
Ele e Caiado sabem muito bem o chão que pisaram, e o quanto podem confiar um no outro na hora de definir projetos e destinos em um segundo turno que definirá a ocupação do poder pelos próximos quatro anos.
Sabem acima de tudo que, por tudo que representam e carregam em cima do cavalo arriado, as encruzilhadas da existência humana e política podem muito bem mudar caminhos. Como se diz: virar o jogo é preciso, quando necessário.
Copa do Mundo. Treino é treino, jogo é jogo. Bola pro mato que vale o campeonato. É cada um com seu cada qual.
