Ronaldo Caiado já tem uma vitória pra comemorar.
Ser candidato a presidente é uma conquista sobre o maior adversário lá do início do ano, ou antes: a desconfiança geral de que este sonho viraria realidade. Jamais! – diziam os adversários. Virou.
Na travessia, Caiado calculou passos, como a transição de poder em Goiás para o governador Daniel Vilela (MDB), e viveu sobressaltos quase mortais.
O principal ocorreu na decisão de trocar o União Brasil pelo PSD de Gilberto Kassab. Ficando, estaria morto, já que o partido não lançou nome. No PSD, o risco era grande. Deu certo.
Poucos botavam fé na garantia de Kassab de que o goiano iria até o fim com a candidatura. Kassab acabou vice na chapa.
Caiado ainda teve que sustentar sozinho a desconfiança da direita, que entendia que ele deveria aderir a Flávio Bolsonaro, e não enfrentá-lo, como tentava.
Era para desistir, não desistiu. Mas travou no discurso. Nem contra, nem a favor do bolsonarismo. Nas pesquisas, não saiu do lugar.
Recentemente, começou a abrir a torneira das críticas. No lançamento oficial de sua candidatura, soltou o verbo de vez. Chamou Flávio de candidato “kinder ovo, com uma surpresinha todo dia”.
O sonho de ser candidato está realizado. A convenção deste domingo, 26, confirmou isso. O que leva a outra questão: e agora?
O sonho do passado distante é um pesadelo no futuro imediato.
A meta continua igual: tornar-se conhecido e crescer nas pesquisas. Vencer Flávio antes de almejar vencer Lula.
A tese de que ele vence o petista no 2º turno é sustentável. Com um porém: se não vencer Flávio no 1º, ou se todos não vencerem Lula antes, não tem 2º turno.
Na convenção, sobressaiu o Caiado mais conhecido dos goianos. O Caiado com verve afiada, como uma espingarda engatilhada ao falar firme e estridente, com expressão entre o riso e a raiva.
Ao dizer que Flávio é um candidato kinder ovo, “frango de granja”, ele aponta contra o bolsonarismo o que vinha elencando: o tiro da ironia, bala característica de sua história nos palanques, presença conhecida em seus discursos.
Depois de evitar o quanto pode ir para o ataque contra Flávio, de mandar bala em Lula e contemporizar com ele, agora é chumbo em todos.
Ou isso, ou ser morto na emboscada da polarização lulismo versus bolsonarismo.
Caiado passa a adotar o estilo “arrocha” geral. Divertido, para uns. Estimulante, para outros, os que gostam dos ataques a esmo e defendem a tese de que isso o qualifica como político preparado, sem medo, que garante que bandido não se cria.
O estilo é, por outro lado, uma caricatura. Usufruto dos livre atiradores. Chama a atenção, destaca-se na paisagem das candidaturas e redes sociais. Porém são manchetes sem reportagem. Posts sem conteúdo.
O risco para Caiado é ser o grito do fígado e da bílis, mas não a percepção da razão e do coração dos brasileiros. É servir na diversão e não ser servido na votação de outubro.
Risco grande é, de bom frasista (“bandido bom é bandido preso”; “não sou puxadinho de ninguém”), transformar-se em bom artista de stand-up.
E o que é para ser levado a sério, virar piada.
Caiado, em vez de candidato a presidente da República, se destacar como animador de auditório.
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Abaixo, textos que já saíram aqui na coluna sobre a construção da candidatura de Caiado a presidente.
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