Uma leitura de dois tempos na campanha para governador de Goiás.
No debate do Mais Goiás, ninguém ganhou, ninguém perdeu. Só o eleitor. Só?
No debate anterior, o da PUC TV, Daniel Vilela foi melhor que os adversários.
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O debate foi morno. E não por culpa dos organizadores. Tudo funcionou bem.
Os candidatos é que estavam mornos. Todos bem ensaiados para temas estudados no conteúdo e na forma de dizer.
Wilder Morais focou no tema saúde. Tem sentido: pauta ditada por pesquisa qualitativa.
Desde o início do ano o tema surge como um dos pontos frágeis do governo Ronaldo Caiado (PSD), herdado pelo candidato à reeleição Daniel Vilela (MDB).
Nada extraordinário o desgaste. Mas um ponto negativo em uma aprovação de mais de 80%. Um furo na represa.
Certa hora, Marconi provocou Daniel sobre obras na área contabilizadas como feitas pelo atual governo.
Na verdade feitas por ele, disse. E listou algumas. Prédios regionalizados. As policlínicas. Daniel rebateu. Fim.
O governador-candidato também enfatizou em dois momentos obras realizadas pela gestão Caiado/Daniel, como define.
Procura mostrar que está fazendo, já é governador com feitos concretos. Tem o controle da situação (que Caiado não o ouça).
O assunto serviu de base para um choque entre ele, Daniel, e Wilder. O governador acusou o senador de não ter ajudado Goiás no Senado.
Wilder rebateu com indicação de obras da saúde estadual, para onde enviou recursos por emendas.
Não usou bem o tempo, deixou a questão em aberto. Mais à frente, recebeu ajuda de Marconi Perillo (PSDB) para concluir o raciocínio.
Marconi Perillo tinha o direito de fala. Franqueou-o a Wilder. Levantou a bola para que ele pudesse se defender da cobrança de Daniel.
Uma curiosidade com pitada de ironia. Nada além disso.
Marconi falou no debate que vai devolver o Ipasgo aos servidores. Já tinha falado.
Daniel vai construir o novo Hugo. Já tinha dito.
Wilder garantiu que vai melhorar a regulação na Saúde. Não foi a primeira vez que prometeu isso.
Luis Cesar Bueno avisou que vai ter Lula olhando mais para Goiás se ele for o eleito – e se Lula também for. Disse o mesmo no outro debate.
Repetição é a alma do negócio da propaganda. Por certo. Mas repetitivo daquele jeito: nada de novo a apresentar, então martelam-se velhas frases de efeito.
De novo, a assessoria de Daniel foi mais rápida no gatilho, com vídeos espalhados em grupos de WhatsApp no meio do debate.
Vídeos cortantes, negativos aos adversários, claro. Debate ganha-se antes, durante e quando acaba, no controle da narrativa. Repetitivo dizer isso, tudo bem. Dever de casa.
Proposta inovadora? Nenhuma. Nada que diferencie um do outro na essência.
Os candidatos falaram para eles próprios a maior parte do tempo. Sem conexão imediata com o dia a dia.
Terras raras. Dívida do Estado. Taxa do Agro. Obras citadas no passado. Quem fez mais. Quem ergueu este ou aquele prédio. Quem é mais fodástico, lembrando aquela marca de café.
Uma exceção, como notícia boa: se der pra acreditar no que prometeram, não teremos aumento na passagem de ônibus da região metropolitana. Palavra de todos.
Assim: o futuro, o futuro de fato, o futuro como perspectiva, esse futuro não deu as caras no debate. Velhos candidatos com suas velhas promessas.
Wilder estava melhor preparado do que antes, se é que isso quer dizer alguma coisa em termos de melhora de votos para ele.
Tinha algo a dizer sobre temas como educação. Nada complexo. Nada relevante.
Todavia, um avanço em relação às primeiras entrevistas e debates, e ao diagnóstico de seu próprio marqueteiro: ele não é do ramo de falar. Falou.
Daniel só pediu voto para Caiado presidente nas considerações finais. E rapidamente. Citou e foi embora.
Wilder citou Flávio Bolsonaro duas vezes. No meio do debate e nas considerações finais.
Ele precisa da liga com o bolsonarismo, seu único ativo para crescer na reta final. Explorou pouco.
Luis Cesar Bueno recorreu ao santo (no que pinta do presidente) nome de Lula pelo menos três vezes, ao longo do debate.
No final, cravou: “Sou o candidato do presidente Lula.” Luis Cesar cumpriu a missão. Diligente petista.
E vejam só. No terceiro bloco, Marconi caiu de novo na armadilha de uma regra singular dos dois debates.
E caiu por conta própria. Ninguém empurrou. Ele claramente armou pra Daniel e foi pego no detalhe.
Ao escolher perguntar a Daniel (a armadilha), ele deixou que Daniel ficasse com a última palavra, na tréplica. (O que fez no debate anterior.)
Piorou as coisas ao soltar uma palavra não muito republicana sobre Daniel quando o microfone já estava desligado.
Daniel o chamou de nervoso. Como fez antes. Estratégia elementar para carimbar o adversário como instável.
Wilder Morais, que em anos anteriores distribuía a mão cheia livros impressos na gráfica do Senado, se autoproclamou ‘senador dos livros’.
Falou isso para mandar essa: “Quero ser conhecido como governador da saúde.” Todos acharam graça. Daniel ironizou depois.
Mais ironia, quando Wilder referiu-se a Caiado, que, segundo ele, vive o pior momento de sua vida.
Caiado não passou de 3% (nas intenções de voto), por isso relevaria referência negativa que Caiado fez sobre ele dias antes.
Não disfarçou o sorriso de canto de boca. Fez uma boa piada, era a expressão de seu rosto.
Mas escorregou quando não podia. “Sou a favor das câmeras, sim”, disse em determinado momento.
Ato falho imperdoável. Era para deixar claro ser contra, e acabou repetindo ser a favor. Que coisa.
Declaração anterior, em que indicou ser a favor, tinha repercutido mal e gerado reação negativa entre bolsonaristas.
Na melhor oportunidade para corrigir o escorregão, fez o contrário. Reforçou-o. Piorou o que já estava ruim. Palmas para ele, de sua assessoria.
O debate não vai entrar para a história. E certamente apenas um dos debatedores entrará.
Por ganhar, nas urnas, algo inevitável. Jamais por se destacar como vitorioso na qualidade de líder.
Os líderes do futuro de Goiás ainda estão a caminho. Deus queira.
Não é pelo debate que esta eleição será decidida. E aí um ponto a ser considerado.
Ninguém ganhou, ninguém perdeu, só o eleitor. Mas a pasmaceira é boa principalmente para um deles. Para quem está à frente.
O resultado mantém quem está em primeiro e os outros no mesmo patamar.
E, nesse patamar, Daniel ganha a eleição. Quem vai se lembrar do debate?
O eleitor não perde por esperar. Perde a eleição, quando quer.
