Tenho observado, nos últimos meses, um fenômeno recorrente nas pesquisas eleitorais — tanto nas realizadas pela GRUPOM quanto nas de outros institutos: a elevada taxa de recusa dos entrevistados. É um fenômeno que ainda não entrou no debate público sobre a eleição de 2026, e acho que merece atenção.
Em 2026, essa taxa tem ficado próxima de 60%. Na prática, de cada 10 pessoas abordadas, 6 se recusam a participar ou mesmo a fornecer informações básicas, seja qual for o método de coleta — presencial, telefônico ou pela internet. Entre as mulheres, a dificuldade é ainda maior: obter uma entrevista exige cerca de três vezes mais abordagens do que entre os homens.
Esse cenário não invalida automaticamente os resultados das pesquisas, desde que a amostra seja devidamente controlada e ponderada. No entanto, aumenta o risco de que uma parcela relevante da opinião pública — especialmente a feminina — permaneça pouco conhecida até o dia da eleição. E essa lacuna abre perguntas que nenhuma pesquisa divulgada até agora responde:
Como pretendem votar os eleitores, especialmente as eleitoras, cuja opinião nunca foi captada?
A recusa em participar revela apenas uma dificuldade operacional, ou também algum grau de desinteresse, desconfiança ou desencanto com o processo eleitoral — e, neste caso, como se comporta nas urnas os eleitores desiludidos?
Não tenho, neste momento, uma conclusão fechada nem uma hipótese segura sobre os efeitos desse fenômeno no resultado da eleição. As campanhas, até aqui, também não parecem dedicar a essa lacuna uma atenção proporcional ao seu tamanho. Por isso, acredito que o cenário eleitoral pode estar mais aberto e indefinido do que os números publicados sugerem.
Escrevo sobre isso justamente por não ter essa resposta. Acho importante colocar o tema em discussão com transparência — inclusive para que, mais adiante, eventuais diferenças entre os levantamentos e o resultado das urnas não sejam atribuídas injustamente às empresas de pesquisa. Fica o alerta e a reflexão para quem acompanha o processo eleitoral tão de perto quanto eu.
