Momentos de definição política são tensos e repletos de cenas de fim de mundo. Articulações desmoronam e cenários se descortinam de uma hora para outra. Tudo articulado de repente vira desarticulação e terra arrasada. Nessas horas, um fator decisivo normalmente é negligenciado. O depois.
Porque saber se este partido vai ficar com o governo ou com a oposição; se o político tal vai trair ou não; se o arranjo combinado vai sobreviver ou morrer na praia; se um ou outro vai sair mais forte ou mais fraco, tem sentido se for considerado o que cada um dos envolvidos vai fazer com o que restou ao fim de tudo.
Daniel Vilela (MDB), Marconi Perillo (PSDB), Wilder Morais (PL), o PT (sem nome definido ainda) estão em campo nos últimos minutos do segundo tempo da reta final do prazo estabelecido pelas regras eleitorais como janela partidária e limite aos interessados em se candidatar este ano, para ficar ou sair de cargos públicos. É isso e ponto.
As convenções vêm aí
A eleição não está sendo decidida agora. Pode até ser que o definido agora impacte a ponto de ser fator fundamental. Mas é básico: há chão de sobra para tudo que mudou agora, mudar de novo. Passada essa fase, vem outra de intensas conversas e remendos: as convenções, no final de julho e início de agosto. Até lá, tudo é pré-campanha. Pré. Só depois é que começará de verdade a campanha.
Nem precisa dizer, você me diz. Verdade. Mas às vezes é preciso lembrar o elementar. Desenhar, pra sacudir as verdades absolutas que são ditas agora, mas que nada têm de verdade (ou inverdade), pois são pura visão de jogo.
O que os partidos e os pretensos candidatos (sim, candidato mesmo só existe após a convenção) vão fazer com o que estão fazendo agora é que importa – pra então passarmos à fase seguinte: a luta corporal é virtual pelo voto na urna, em outubro.
Como o técnico convocando a seleção, muitos jogadores estão sendo convocados pelos times por ora no jogo. Nem se sabe ainda se todas as equipes vão resistir inteiras até julho. Se não haverá ajuntamentos, defecções, deserções, abandonos de jogo. Por aí. O povo mesmo, por exemplo, vai torcer independente dos jogadores convocados agora.
Quer dizer: os times estão se estruturando por conta e risco próprio; a torcida organizada, o eleitor ainda nem foi mobilizado. E, quando for, torcerá. Ponto. Qual o tamanho da torcida de cada um? Taí uma questão que importará, lá na frente. E a resposta a esta pergunta está um pouco neste momento, mas reside principalmente no daqui pra frente. No que cada um fará com o que terá conseguido.
Daniel perdeu aliados na virada do mês? Não quer dizer que não poderá recuperá-los.
Marconi juntou poucas estrelas no seu tucanato? Não significa que mais gente não possa fazer volume e surpreender.
Wilder jogar parado é fim de linha? Subestimar adversário é o primeiro passo para a derrota, ensina a sabedoria popular.
O PT em Goiás não vai a lugar algum? Ora, ora. Pelo histórico, não foi sempre uma confusão interna no partido até que a fumaça branca saia?
Há tempo para viradas de jogo. E isso tem a ver com campanha e com os candidatos. O que os fatos de hoje estão mostrando são sinais de comportamento de cada um.
Como pensam, como se viram diante de adversidades. Se são catastróficos ou resilientes, os dias seguintes mostrarão.
1
Daniel Vilela tem pela frente o desafio de assumir o governo do Estado e manter unida a base de aliados.
Dizer que não vai conseguir isso é mais torcida do que realidade. O concreto: se não conseguir, aí sim será fator crucial para possível derrota.
E ele tem ainda Ronaldo Caiado com aprovação de 88% a seu favor. E estrutura de governo. E chapas fortes de candidatos a deputado estadual e federal. E tempo de TV suficiente pra mostrar serviço. E…
2
Marconi Perillo tem a motivação das pesquisas que o colocam em posição de disputa real para buscar mais apoiadores no interior. E experiência de campanha.
Em 1998 ele saiu do nada para a vitória sobre o favoritíssimo MDB, que mais uma vez enfrenta este ano. Uma campanha bem-feita e erros do adversário foram a receita certa na hora certa para o seu sucesso de então.
Como ignorar a História?
3
Wilder Morais é por muitos visto como só mais um riquinho na campanha, mas foi com os adversários pensando assim que ele chegou ao impensável: ser pré-candidato a governador.
Quem apostaria nisso dois meses antes?
E como esquecer o que o bolsonarismo fez com seu candidato a prefeito em Goiânia menos de dois anos atrás, tirando do zero um nome desconhecido e colocando-o no Segundo Turno?
Espetáculo à direita
À parte os considerandos, reparemos no que aconteceu em Goiânia na campanha de 2024.
O bolsonarismo elevou do chão aos céus um candidato, mas também houve um movimento contrário de força inegável: Caiado e Daniel tiraram da aposentadoria (nas palavras do próprio) um político tradicional, com desgaste acumulado, e o elegeram.
A) De um lado, demonstração de força de base, a bolsonarista.
B) De outro, expressão inequívoca de força e poder de uma máquina em ação.
C) Correndo por fora, o candidato favorito de início, Vanderlan Cardoso, acabou como? Em trágica morte eleitoral precoce.
Mais uma coisa.
E os reflexos da eleição nacional em Goiás? Denúncias, ataques lá que podem reverberar aqui, no Estado. Desenhos dos presidenciáveis.
Só mais uma coisinha.
Há espaço e ambiente para um nome novo? Um diferente? Não vai surgir?
Diversão na certa
Anotem essas coisas. Observem os desdobramentos de cada jogada.
Não dá pra perder um lance.
A eleição não está nem de longe definida pelos movimentos destes dias. Está em curso. Mal começou. Muitas emoções virão.
No fim – em primeiro ou segundo turno –, nem terá terminado, na prática.
Terá vencido o melhor.
(Ou pior, nunca se sabe. Campanha é outro campo de exposição para o melhor e o pior de cada um. Mas essa é história pra outra hora.)
O que importa (sem julgamentos) não é vencer?
Outubro chegando, comemoremos. Significa que o fim do mundo continua. Graças a Deus.
Nem tudo é desastre na política.
Campanha é (também) parque de diversões da democracia.
Que assim seja.
