A decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas deu a Flávio Bolsonaro uma poderosa bandeira política. O senador apresentou a medida como prova de seu compromisso com o combate ao crime organizado e passou a cobrar do governo Lula uma postura mais dura contra as facções.
Mas a discussão traz uma pergunta inevitável: por que, ao falar de crime organizado, o bolsonarismo quase sempre concentra suas críticas no tráfico e raramente aborda as milícias com a mesma intensidade?
A questão não surgiu agora. Ela acompanha a trajetória política da família Bolsonaro há mais de duas décadas. Ao longo desse período, diversas reportagens, investigações e depoimentos apontaram relações políticas, profissionais ou pessoais entre integrantes do clã e personagens posteriormente ligados ao universo das milícias cariocas.
O caso mais conhecido envolve o ex-capitão Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como liderança do chamado Escritório do Crime. Antes de se tornar alvo das investigações, Adriano recebeu homenagens na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro por iniciativa de Flávio Bolsonaro. Posteriormente, familiares do ex-policial
trabalharam no gabinete do então deputado estadual.
Outro nome recorrente é Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro e personagem central do caso das rachadinhas. Queiroz mantinha relações próximas com integrantes de grupos milicianos investigados pelas autoridades do Rio de Janeiro.
As ligações indiretas também alimentaram controvérsias durante a investigação dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Embora jamais tenha sido demonstrada participação da família Bolsonaro nos crimes, o fato de alguns investigados terem convivido em ambientes próximos ao círculo político e social do clã ampliou o desgaste político do episódio.
A defesa dos Bolsonaro sustenta que homenagens concedidas a policiais ocorreram em razão de serviços prestados à segurança pública e que não seria possível responsabilizar parlamentares por fatos que vieram à tona anos depois. Também argumenta que relações profissionais ou sociais não constituem prova de participação em atividades criminosas.
Ainda assim, a questão permanece no debate político porque cria uma aparente contradição. Quando o tema é PCC ou Comando Vermelho, o discurso é de tolerância zero. Quando o assunto são as milícias, os posicionamentos costumam ser mais cautelosos, mais defensivos ou simplesmente menos frequentes.
Essa diferença de tratamento é explorada pelos adversários políticos, que acusam o bolsonarismo de combater apenas uma parte do crime organizado. Já os apoiadores respondem que a esquerda utiliza o tema das milícias como instrumento de desgaste político contra uma família que construiu sua trajetória eleitoral justamente sobre a pauta da segurança pública.
No fundo, a discussão ultrapassa os Bolsonaro. Ela revela uma dificuldade histórica do Brasil em enfrentar todas as formas de criminalidade organizada com o mesmo rigor. O tráfico domina territórios, financia violência e desafia o Estado. As milícias fazem algo semelhante, muitas vezes utilizando métodos diferentes, mas igualmente nocivos à sociedade.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja por que Flávio fala tanto do PCC e do Comando Vermelho. A pergunta é outra: o combate ao crime organizado será completo enquanto uma parte da política combate um inimigo e evita falar do outro?
A coerência de qualquer discurso de segurança pública depende justamente dessa resposta. Afinal, o cidadão comum não sofre apenas com o tráfico, nem apenas com as milícias. Sofre com ambos.
