Há algo de profundamente revelador — e inquietante — no modo como as eleições brasileiras vêm sendo “narradas” antes mesmo de começarem. Não se trata apenas de disputa política, mas de construção de cenário. E, nesse processo, a insistência nas simulações de segundo turno transformou-se, ao que tudo indica, em uma poderosa ferramenta de indução.
Nos últimos ciclos eleitorais, especialmente após 2018, consolidou-se uma prática curiosa: medir o segundo turno antes de consolidar o primeiro. Um aparente contrassenso lógico — afinal, não há segundo turno sem o primeiro — mas que passou a orientar percepções, expectativas e, sobretudo, comportamentos.
O efeito é conhecido. Ao apresentar repetidamente cenários em que apenas dois nomes aparecem como competitivos — hoje, Luiz Inácio Lula da Silva de um lado, e Flávio Bolsonaro (ou o bolsonarismo como um todo) de outro — cria-se uma moldura psicológica. Uma espécie de “final inevitável” antecipada. Os demais postulantes deixam de ser candidatos e passam a ser figurantes.
Não é ilegal. Não há fraude estatística evidente. Mas há, sim, um fenômeno mais sutil: a indução narrativa.
A pesquisa, que deveria captar o momento, passa a projetar o desfecho. E, ao fazê-lo, condiciona o próprio momento. O eleitor médio, exposto continuamente a esse enquadramento, tende a internalizar a ideia de que “não há alternativa viável”. Surge, então, o voto útil — não como escolha consciente, mas como resposta a um ambiente previamente moldado.
A mídia, nesse contexto, desempenha papel decisivo. Ao destacar — muitas vezes com mais ênfase — os cenários de segundo turno do que as intenções reais de voto no primeiro, acaba por reforçar essa lógica binária. Não necessariamente por má-fé, mas por aderência a uma narrativa que já chega pronta: a da polarização inevitável.
E aqui reside o ponto central. A polarização, que poderia ser consequência de um processo político, passa a ser também produto dele. Ou, mais precisamente, produto de uma engenharia de percepção. Um ciclo que se retroalimenta: as pesquisas mostram polarização, a mídia amplifica, o eleitor reage, e a polarização se confirma.
Nesse ambiente, nomes alternativos nascem com um peso adicional — não o da rejeição popular, mas o da invisibilidade competitiva. São rotulados como “pré-pré candidatos”, expressão que, por si só, já os relega a um estágio inferior da disputa. Como se não estivessem, de fato, no jogo.
O resultado é uma espécie de eleição encurtada. O primeiro turno perde densidade, perde protagonismo, perde sentido estratégico. Torna-se quase um rito formal para confirmar aquilo que já foi previamente estabelecido no imaginário coletivo. Isso levanta, inevitavelmente, uma questão ética.
Não se trata de ilegalidade — repita-se —, mas de equilíbrio democrático. Quando a percepção do eleitor é moldada antes que todas as alternativas tenham condições reais de se apresentar, há um deslocamento sutil das regras do jogo. Não se frauda o voto, mas se condiciona o ambiente em que ele é formado. E política, como sabemos, é também — e talvez sobretudo — percepção.
O mais curioso é que esse processo atende, simultaneamente, a interesses distintos. Para os polos consolidados, reforça a inevitabilidade. Para a mídia, simplifica a narrativa. Para o eleitor, reduz a complexidade. Mas, para a democracia, empobrece o debate.
A pergunta que fica é simples — e incômoda: estamos escolhendo entre projetos ou apenas confirmando um roteiro previamente escrito? Porque, no fim, quando o segundo turno começa antes do primeiro, o risco é evidente: a eleição deixa de ser disputa e passa a ser confirmação. E democracia que apenas confirma… já não decide tanto quanto deveria.
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Luiz Carlos Bordoni é jornalista. Integrou e liderou equipes nos maiores veículos de Goiás. Tem larga experiência na TV, rádio, impresso e na internet. Participou de campanhas eleitorais. Hoje mora em Catalão, Goiás.
