Em tempos de grandes competições internacionais, o futebol costuma revelar mais do que preferências esportivas. Ele expõe memórias, rivalidades, afetos e, sobretudo, a maneira como construímos nossos julgamentos sobre povos e nações.
Nos últimos dias, chamou-me a atenção a quantidade de textos e comentários que justificam a recusa em torcer pela Argentina com base em episódios de racismo praticados por parte de seus torcedores. O combate ao racismo é indispensável e não admite relativizações. Contudo, o que merece reflexão é o critério utilizado quando esse argumento aparece apenas em determinadas circunstâncias.
Se a conduta de uma parcela da torcida for suficiente para definir a imagem de um país inteiro, seria necessário aplicar o mesmo raciocínio a todas as nações. Infelizmente, o Brasil também convive com casos frequentes de racismo, xenofobia e intolerância. Nos últimos anos, a legislação brasileira precisou ser fortalecida para enfrentar esse problema, que continua presente em diferentes espaços da vida social.
Recentemente, um episódio ocorrido em Goiânia ilustra como a intolerância pode ultrapassar o ambiente esportivo. Um restaurante argentino decidiu não abrir suas portas após receber ameaças e manifestações de hostilidade. Independentemente das circunstâncias que cercaram o caso, situações como essa lembram que generalizações raramente contribuem para uma convivência mais respeitosa.
O mesmo exercício de coerência pode ser feito quando observamos outras seleções. Muitos brasileiros simpatizam com a Espanha ou com outras equipes europeias, embora esses países também enfrentem desafios relacionados ao racismo e à imigração. O próprio Vinícius Júnior tornou-se um símbolo mundial da luta contra o preconceito após os reiterados episódios de discriminação sofridos no futebol espanhol.
Nada disso significa que alguém deva torcer por esta ou por aquela seleção. A escolha é legítima e pertence ao torcedor. O ponto central é outro: talvez seja mais honesto fundamentar essa preferência em aspectos esportivos, culturais ou afetivos do que recorrer a argumentos morais aplicados de maneira seletiva.
É perfeitamente compreensível admirar o estilo de jogo da Espanha, sua tradição futebolística ou sua qualidade técnica. Da mesma forma, há quem se identifique com a história da Argentina, com a intensidade de seu futebol ou com sua cultura. Essas escolhas enriquecem o esporte porque refletem diferentes formas de pertencimento e admiração.
Afinal, o futebol também aproxima. Os clubes brasileiros convivem diariamente com jogadores argentinos que conquistam o carinho de suas torcidas. Rossi, Cano, Calleri, Flaco López, Kannemann, Mercado e tantos outros demonstram que a nacionalidade raramente constitui um obstáculo quando o talento, o profissionalismo e o comprometimento entram em campo.
Essa convivência sugere que a rivalidade entre Brasil e Argentina talvez seja mais rica quando permanece dentro das quatro linhas. Fora delas, os dois países compartilham uma longa história de intercâmbio cultural, econômico e humano. São vizinhos que dividem desafios semelhantes, influenciam-se mutuamente e constroem, há décadas, uma das rivalidades esportivas mais fascinantes do mundo.
Escrevo também a partir da minha própria trajetória. Nasci na Argentina e escolhi ser brasileiro. Por isso, aprendi a reconhecer, nas duas culturas, valores que considero igualmente importantes. Vejo na seleção argentina uma entrega que sempre admirei no futebol sul-americano, assim como reconheço na seleção brasileira uma tradição que encanta o mundo há gerações. Não sinto necessidade de escolher uma identidade em detrimento da outra.
Se a Espanha conquistar o título, será um mérito esportivo. Se a Argentina vencer, também. O resultado pertence ao jogo, e é justamente essa imprevisibilidade que torna o futebol apaixonante.
Nesse âmbito, o que me parece mais importante é que nossas escolhas esportivas não reforcem estereótipos nem ampliem distâncias que a própria convivência cotidiana demonstra ser possível superar. A rivalidade faz parte da essência do esporte; a generalização, não.
Talvez o futebol ofereça uma oportunidade rara para lembrarmos que brasileiros e argentinos compartilham muito mais do que disputas históricas. Compartilham uma herança latino-americana, uma paixão comum pelo esporte e inúmeras histórias de admiração recíproca.
Gosto de recordar Belchior e sua esperança em uma América Latina mais integrada; da amizade entre Jorge Luis Borges e Carlos Drummond de Andrade; da parceria entre Careca e Maradona; e dos incontáveis gestos de respeito que aproximaram brasileiros e argentinos ao longo do tempo.
Em um cenário cada vez mais marcado por polarizações, talvez valha a pena preservar justamente aquilo que o futebol tem de melhor: a capacidade de criar rivalidades intensas sem renunciar ao respeito, à coerência e à admiração mútua.
Como escreveu José Hernández, em Martín Fierro: “Que os irmãos sejam unidos, porque essa é a lei primeira; tenham união verdadeira em qualquer tempo que seja, porque, se entre eles pelejam, os devoram os de fora”.
