Tem as definições que estão pendentes na eleição em Goiás. E tem as que estão sendo construídas no amor e na dor na base governista e no bolsonarismo.
A desistência da pré-candidatura do delegado Humberto Teófilo (Novo) ao Senado foi providencial para outro pré-candidato da direita, o bolsonarista Gustavo Gayer (PL).
Para Gayer, alguém que implique em divisão de votos dentro de sua base é sinônimo de perda. Humberto era um problema apontado nas primeiras pesquisas.
O bolsonarismo está agora fechado em Gayer e com o vereador por Goiânia Oséias Varão como seus nomes para o Senado. Dois apenas, e dois que não disputam eleitorado entre si, que trabalham em sintonia.
Oséias dá opção de 2º voto para os bolsonaristas, uma forma de Gayer conter o ‘vazamento’ de eleitor para adversário com quem disputa de fato.
Wilder não tem o que se preocupar com essa costura. Não dependeu dele. Sua dor de cabeça é outra: aparar arestas com Gayer – que queria aliança com Daniel Vilela (MDB) e Ronaldo Caiado (PSD), para chapa conjunta com Gracinha Caiado (União Brasil). Wilder atrapalhou ao se lançar ao governo e isso pode colocar sua eleição para senador em risco.
Na base governista, a situação é mais delicada.
Quando Ronaldo Caiado e Daniel Vilela tentaram a aliança com Gayer e o PL, o objetivo era estratégico. Evitariam um adversário na direita para o governo, e fechariam uma chapa com os dois nomes mais fortes à época para o Senado, Gayer e Gracinha Caiado. Bom para todos.
Não deu certo, Wilder é candidato a governador. E Gayer passou a adversário do grupo do governo e um passivo negativo para Wilder administrar.
Mesmo assim, Caiado e Daniel insistiram em chapa com duas candidaturas apenas ao Senado dentro da base governista.
Pré-candidato a senador, o deputado federal Zacharias Calil (MDB) chegou a ser excluído do grupo e procurar abrigo entre bolsonaristas e Marconi Perillo (PSDB).
Foi buscado de volta quando afundou o navio do acordo com o PL e ficou claro para Caiado e Daniel que não dava para fechar questão em dois nomes, apenas, senão perderam mais aliados.
Hoje a base tem Gracinha Caiado (União Brasil), Vanderlan Cardoso (PSD), Zacharias Calil, e, Gustavo Mendanha (PSD) disputando espaço. Gracinha, vista como favorita, o 1º voto. Os demais, em pé de igualdade.
Nessa reta de chegada das convenções, uma estratégia foi posta em curso, tá valendo: fazer a “gata parir” em dois nomes. Afunilar o processo é a lei e a ordem de cima.
Gustavo Mendanha contraria mais Daniel e Caiado, embora não passem recibo. Era pré-candidato a vice de Daniel, até ver que não teria a vaga. No que resolveu migrar para a candidatura para senador. Mais um no jogo. Mais problema a ser administrado.
O entendimento interno, baseado em pesquisas, é que ele disputa votos diretamente com Gracinha. E atrapalha diretamente os planos de Vanderlan. Nos entornos de Goiânia e de Brasília, Gustavo pontua bem. E é 1º voto mais do que 2º.
Zacharias Calil, mais para outsider, surge como nome com potencial de 2º voto sem quase nem precisar força. E ele nem faz pré-campanha. Só é. E só de ser, incomoda.
Zacharias faz a memória dos governistas se voltar para 2002.
Naquele ano, Iris Rezende (MDB) e Lúcia Vânia (PSDB) polarizaram a disputa para duas vagas. O mais votado, porem, foi Demóstenes Torres, então no PFL (que virou União Brasil) de Caiado.
Demóstenes foi o 2º voto de todo mundo, e terminou a eleição em 1º. Para Gracinha – e Caiado -, a pior notícia.
A estratégia em curso, e não admitida, na base aliada é forçar Mendanha e Calil a desistirem de suas candidaturas. O cerco está montado. As armas já estão nas ruas.
Por histórico estratégico, Mendanha é capaz de ceder fácil: basta defini-lo vice de Daniel Vilela. É o que ele sempre quis, de olho na sucessão de 2030, quando Daniel – caso eleito este ano – não poderá disputar a reeleição e provavelmente renunciará em abril para disputar outro cargo.
Por essa lógica elementar, sua troca de postulação da vice pelo Senado foi entendida inicialmente como uma chantagem emocional, uma pressão pontual, para Caiado e Daniel repensarem a decisão de dar a vice a outro, e não a ele.
Vanderlan nunca escondeu o desconforto com a decisão de Mendanha em disputar o Senado. E mostra-se dedicado a casar sua candidatura com a de Gracinha. Desde que deixou de se opor a Caiado, Daniel e Gracinha, ele cresceu nas pesquisas. Não é coincidência. É sobrevivência.
Gracinha e Vanderlan como chapa batida da base governista é uma conveniência mútua de boa ocasião. Resolver isso será sossego para Daniel. Embora tenha que lidar com os danos colaterais. Mas pior será desagradar Caiado.
Mendanha está em campanha acelerada, com agenda diária, contabilização constante de apoios e entrevistas ocupando espaços na mídia. O que incomoda mais ainda e o faz alvo de fogo amigo governista. Sua reação: mais campanha. Irritação aos adversários de dentro da bolha.
Coincidentemente, nos últimos dias Gracinha acelerou o passo. Tem falado mais com a imprensa e participado de mais mobilizações. Essa semana, foi centro das atenções do PP em evento organizado por Alexandre Baldy, presidente da legenda.
Baldy era candidato a senador e recentemente virou 1º suplente dela. Tá trabalhando.
Zacharias Calil não tem grupo político. É uma andorinha só. Foi atropelado uma vez, até ser buscado por Caiado e Daniel em ação de contenção de danos. Será atropelado de novo?
A expectativa de opositores de Daniel era de problemas na base governista na hora de definir o vice. Mas o problema está no Senado.
Os problemas de Wilder com a candidatura ao Senado são residuais, na prática. Se o bolsonarismo fechar questão, todos se juntam. Gayer também perde com a divisão de forças. Questão de tempo. Os riscos para Wilder são maiores em outras trincheiras.
Melhor estão Marconi Perillo e o PT, sem problemas com candidaturas ao Senado?
Eles não têm problema porque não têm pré-candidatos na ponta ou no meio das pesquisas.
Nem nomes definidos eles têm.
