As pesquisas eleitorais são parte da democracia. Informam partidos, orientam campanhas, ajudam analistas e oferecem ao eleitor um retrato do momento político. O problema começa quando o retrato deixa de parecer com a paisagem.
A proposta apresentada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, de criar um selo de acurácia para os institutos que mais se aproximarem do resultado oficial das urnas merece ser debatida sem paixões. Nem representa censura às pesquisas, nem resolve, por si só, todos os problemas do setor. Mas aponta para uma preocupação legítima: a credibilidade.
Os institutos argumentam, com razão, que pesquisa não é bola de cristal. Ela registra a fotografia de determinado instante, e não o resultado da eleição. Entre a entrevista e a votação podem ocorrer debates, escândalos, alianças, desistências e mudanças de humor do eleitor. Tudo isso é verdadeiro.
Mas também é verdade que, em diversas eleições, assistimos a levantamentos tão distantes da realidade que a simples margem de erro já não consegue explicá-los. Quando isso acontece repetidamente, a sociedade tem o direito de perguntar se houve falha metodológica, deficiência técnica ou algo mais grave.
É justamente aí que o debate precisa amadurecer. O Brasil não precisa controlar pesquisas. Precisa controlar a qualidade das pesquisas. Não se trata de dizer quem pode ou não divulgar números. Trata-se de exigir transparência absoluta. Quem contratou? Quanto pagou? Como foi feita a amostragem? Os entrevistadores realmente foram a campo? A metodologia registrada foi rigorosamente cumprida? Esses são questionamentos naturais quando uma informação tem potencial para influenciar milhões de eleitores.
É evidente que existem institutos sérios, com tradição e rigor técnico. Da mesma forma, há empresas que surgem apenas em períodos eleitorais, desaparecem depois da votação e deixam para trás resultados que desafiam qualquer explicação estatística. O eleitor não consegue distinguir uns dos outros. Acaba colocando todos na mesma cesta, o que enfraquece a credibilidade de todo o segmento.
Por isso, um selo de acurácia pode ser um passo interessante, desde que não seja o único. O País precisa discutir auditorias independentes, critérios objetivos de qualidade, fiscalização permanente e punições severas para
quem eventualmente fraudar informações ou descumprir as regras estabelecidas.
Pesquisa eleitoral influencia expectativas, movimenta recursos de campanha, estimula o voto útil e interfere na percepção da viabilidade dos candidatos. Não é um simples produto comercial. Tem evidente interesse
público e, justamente por isso, deve estar submetida ao máximo de transparência.
A democracia não teme as pesquisas. Ao contrário, depende delas para compreender a opinião da sociedade. O que a democracia não pode aceitar é que qualquer número, produzido sem o devido rigor ou sem mecanismos eficazes de controle, tenha o mesmo peso de um trabalho sério e tecnicamente responsável.
Entre a liberdade de pesquisar e a responsabilidade de informar existe um caminho de equilíbrio. É por ele que o Brasil precisa seguir. Afinal, pesquisas eleitorais não existem para fabricar expectativas. Existem para medir a vontade do eleitor. Quanto mais fiéis forem a essa missão, maior será a confiança da sociedade nelas e, consequentemente, na própria democracia.
