As imagens registradas em Catalão são difíceis de assistir. Um adolescente de 16 anos, dentro do local onde trabalha, é agredido por um sargento da Polícia Militar que, segundo as reportagens, teria se irritado porque o rapaz o olhou de maneira que considerou desrespeitosa. O vídeo mostra agressões e ameaças. A Polícia Militar informou que o militar foi detido, e a Corregedoria instaurou procedimento para apurar os fatos.
O episódio reacende um debate antigo em Goiás: afinal, policiais militares devem usar câmeras corporais?
O governador Ronaldo Caiado tem posição conhecida. Defende que cada estado possui autonomia para definir sua política de segurança pública e rejeita a imposição do uso obrigatório desses equipamentos pelo governo federal. Também sustenta que Goiás possui uma corregedoria atuante e que os investimentos devem priorizar inteligência, armamentos e valorização profissional. Em diversas ocasiões, afirmou ainda que câmeras seriam mais úteis em presídios e no monitoramento de presos do que nos uniformes dos policiais.
Do outro lado estão pesquisadores, juristas e entidades que defendem as câmeras corporais como instrumento de transparência. O argumento é simples: elas registram os fatos como ocorreram, reduzem dúvidas sobre abordagens e produzem provas importantes quando há denúncia de abuso ou, igualmente, quando policiais são acusados injustamente.
Esse talvez seja o ponto mais importante. As câmeras não existem apenas para fiscalizar policiais. Elas também protegem os bons policiais.
Quando a ocorrência é gravada, desaparece grande parte da disputa entre versões. A imagem não elimina a necessidade de investigação, mas oferece um elemento objetivo para esclarecer o que realmente aconteceu.
O caso de Catalão ilustra isso de forma contundente. Não foi um boletim de ocorrência que revelou a agressão. Não foi um depoimento isolado. Foram as imagens.
Ao mesmo tempo, é preciso evitar uma generalização injusta. Um policial que abusa da autoridade não representa automaticamente uma corporação inteira. Milhares de homens e mulheres da Polícia Militar saem diariamente às ruas, arriscam a própria vida e cumprem a missão constitucional de proteger a população. Justamente por isso, a instituição também tem interesse em identificar e afastar quem desonra a farda.
Goiás convive há anos com debates sobre letalidade policial e uso da força. Pesquisas e levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que o estado historicamente figura entre aqueles com maior proporção de mortes decorrentes de intervenção policial, tema que também é acompanhado pelo Ministério Público de Goiás em iniciativas específicas de controle e redução da violência policial.
A discussão, portanto, não deve ser conduzida pela emoção de um único episódio, mas pela busca do aperfeiçoamento das instituições.
Uma polícia forte não é aquela que teme ser filmada. É aquela que tem confiança suficiente na correção de seus profissionais para permitir que a verdade apareça, qualquer que ela seja, porque, no Estado de Direito, autoridade e transparência não são adversárias. São parceiras indispensáveis.
