Elogio à Marina Silva: A misoginia e o racismo entrelaçados no compor político

A misoginia, racismo e violência política de gênero no episódio com Marina Silva no Senado.

Compartilhe

Marina Silva durante audiência no Senado na última terça-feira (27). Foto: Lula Marques | Agência Brasil.

A pauta desta semana para esta coluna seria outra. O texto já estava quase finalizado quando uma notícia não apenas bateu à porta, ela arrombou. Refiro-me ao episódio em que Marina Silva abandona uma audiência na Comissão de Infraestrutura (CI) do Senado após discussão com senadores. O texto que havia preparado fica para outro momento. Hoje, prefiro conversar com você a respeito de como a política tem se estruturado para nossos corpos manter fora dela e, para algumas mulheres, as pretas, como Marina Silva, esse obstáculo ainda é maior.

Em uma conversa recente com colegas jornalistas, relembrei que escolhi estudar política no meu mestrado em Comunicação. Na época, acreditava que era a área mais séria e relevante dentro da pesquisa. Hoje, compreendo que política e cultura são igualmente fundamentais, embora pensar política tenha me causado cada vez mais desconforto. E vou explicar por quê.

Nestes anos em que acompanho política, um termo surgiu com força: violência política de gênero. Dediquei parte da minha dissertação ao tema. Relatei que uma pautas comuns de defesa das parlamentares do Congresso brasileiro é ela. Trata-se de práticas sistemáticas que visam impedir, dificultar ou restringir a atuação de mulheres na política. Essa violência se materializa de várias formas: falta de financiamento para campanhas, agressões verbais e até físicas. E os exemplos são muitos.

Lembro do caso da deputada Isa Penna (SP), importunada sexualmente dentro da Assembleia Legislativa por um colega parlamentar. Ou da ex-presidenta Dilma Rousseff, que teve sua imagem estampada em adesivos simulando estupro, colados em tampas de combustível de veículos. Também da deputada Joice Hasselmann, chamada de “porca” pelo filho 03 do ex-presidente Jair Bolsonaro, após romper com o grupo. E, claro, da infame frase “você não merece ser estuprada”, proferida por Bolsonaro à deputada Maria do Rosário. Em Goiás, o caso mais recente envolve a deputada Bia de Lima, alvo de ataques dentro da Assembleia Legislativa.

Quando defendi minha dissertação, em 2020, ainda não havia legislação específica sobre violência política de gênero. Somente em agosto de 2021 entrou em vigor a Lei nº 14.192, que define como violência política contra a mulher “toda ação, conduta ou omissão com a finalidade de impedir, obstaculizar ou restringir os direitos políticos da mulher” e estabelece “normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher”. Mas, como sabemos, ter uma lei é diferente de garantir sua efetividade. E o episódio com Marina Silva é prova disso.

Na última terça-feira (27), a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, participou de uma audiência na Comissão de Infraestrutura (CI) do Senado, onde se discutia a criação de unidades de conservação marinha no Norte do país. O que deveria ser um debate institucional tornou-se um palco de violência simbólica e misoginia.

Logo na abertura, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) disparou: “A mulher merece respeito, a ministra não.” A frase, carregada de misoginia, evidencia uma distinção inaceitável entre ser mulher e ser ministra. Pergunto: essa fala seria dirigida a um homem? Muito provavelmente não. Afinal, o próprio ambiente político foi historicamente pensado para homens — tanto que, até 2016, não havia banheiro feminino próximo ao plenário do Senado. Isso não é detalhe. Isso é estrutura. “O lugar é deles”. Dos homens e seus banheiros pensados para eles.

O espetáculo misógino continuou com a fala do senador Marcos Rogério (PL-RO), que ordenou: “Ministra, se ponha no teu lugar.” Mas que lugar seria esse? O de ministra de Estado, uma das mais respeitadas do mundo na pauta ambiental? Certamente, não foi isso que ele quis dizer. A fala remete diretamente ao velho discurso de que “lugar de mulher não é na política”. No Brasil, as mulheres são 52% da população e do eleitorado, mas estão sub-representadas na política. Ocupamos menos cadeiras parlamentares que países como a Arábia Saudita, Egito e Iraque. Portanto, quando um senador diz a uma ministra para “se colocar no seu lugar”, o recado é claro: “volte para o espaço privado e deixe que os homens decidam.”

Diante das agressões, Marina Silva não se calou. “Sou ministra de Meio Ambiente, foi nessa condição que eu fui convidada e ouvir um senador dizer que não me respeita como ministra, eu não poderia ter outra atitude” disse Marina Silva em coletiva após a audiência. Sem o devido pedido de desculpas, a ministra deixou a audiência. Vale lembrar que o mesmo senador Plínio Valério já havia dito, em outra ocasião, que gostaria de “enforcá-la”, tornando explícito o nível da violência discursiva.

No Brasil, a violência é marcada por gênero -, em 2024, foram registrados 1.450 feminicídios e são registrados 196 estupros por dia -, ea violência política de gênero é tipificada, um parlamentar dizer isso não é insignificante, não pode passar como piada para os seus. Mas como tantos casos que relatei, a maioria acaba em nota de repúdio de CNPjs e CPFs e o político continua com o mandato.

A violência política de gênero no Brasil não pode ser analisada sem levar em conta o recorte racial. É impossível não comparar a hostilidade dirigida a Marina Silva — mulher negra, de origem humilde — com o tratamento recebido por Virginia, influencer investigada na CPI das Apostas Esportivas, dias antes. Enquanto Marina foi destratada, interrompida e desrespeitada, Virginia — branca, de cabelos loiros e aparência cuidadosamente planejada — foi recebida de forma cordial e até condescendente. Aqui, não se trata de desejar que uma também fosse destratada, mas sim de apontar como a interseccionalidade entre racismo e misoginia molda o tratamento dado às mulheres na política.

As cenas no Senado me remetem a duas obras distópicas. A primeira é “O Conto da Aia” (1985), de Margaret Atwood, em que mulheres são relegadas a papéis de servidão de corpos e da figuração de submissas como “belas, recatadas e do lar”. A segunda é “Vox: O Silêncio pode Ser ensurdecedor” (2018), de Christina Dalcher, em que mulheres só podem pronunciar 100 palavras por dia — ultrapassar esse limite é motivo de punição. O que vimos no Senado foi uma tentativa de transformar essas distopias em realidade. Se isso ocorre diante das câmeras, imagine o que se faz nos bastidores, longe dos olhos públicos.

A trajetória de Marina Silva é, por si só, um ato de resistência. Mulher negra, filha de seringueiros do Acre, enfrentou pobreza, fome e analfabetismo na infância. Sua crença no poder transformador da educação a levou a ser senadora, ministra e uma das vozes mais respeitadas do mundo na luta ambiental. Conheci mais sobre sua história no podcast “Mano a Mano”, do Mano Brown, e saí profundamente impactada. Assim como Marina acredito que a educação muda vidas. Por isso, escrevo este texto como um elogio à postura digna de Marina Silva. Ela não abaixou a cabeça. Exigiu respeito. Quantas de nós já precisamos fazer isso? Quantas de nós já fomos questionadas por ser quem somos e estar nos locais de poder que estamos?

Tudo isso me lembrou dos versos de Cora Coralina que também foi alvo de pedras, mas escreveu em versos: “Ajuntei todas as pedras /Que vieram sobre mim / Levantei uma escada muito alta/ E no alto subi”. Que tenhamos coragem para enfrentar os atiradores de pedras e sejamos mais Marinas e Coralinas.

Recentes
Ancelotti quer ficar na seleção: “Gosto muito do trabalho”
Ancelotti quer ficar na seleção: “Gosto muito do trabalho”
Esportes · 1h
Programa Hackers do Bem oferece 25 mil vagas gratuitas
Programa Hackers do Bem oferece 25 mil vagas gratuitas
Sem categoria · 2h
Fogo atinge garagem de cantores sertanejos em Goiânia
Fogo atinge garagem de cantores sertanejos em Goiânia
Goiás · 4h
Detran-GO leiloa 2.871 veículos a partir de 27 de fevereiro
Detran-GO leiloa 2.871 veículos a partir de 27 de fevereiro
Goiás · 5h
Mais do PortalGO
Foto: Reprodução redes sociais
Servidor da PF é detido e investigado por ameaça armada e homofobia no DF
Justiça determinou a suspensão imediata da posse de arma de fogo do agente administrativo após audiência 19 fev 2026 · Segurança
Fotos: Reprodução
Vídeo confirma emboscada e premeditação em assassinato de corretora em Caldas Novas
Ele estava com luvas nas duas mãos e com a caminhonete aberta, indicando premeditação”, afirmou o delegado João Paulo Mendes 19 fev 2026 · Segurança
Foto: Alex Malheiros
Goiânia assume trecho da GO-020 e inicia manutenção da iluminação antes do MotoGP
A administração municipal assumiu a gestão da via para encerrar um antigo impasse jurídico com o Estado 19 fev 2026 · Cidades
Foto: Titanic Belfast / Flickr
Caso Epstein: Ex-príncipe Andrew é preso no Reino Unido por suspeita de má conduta
A prisão ocorre no dia em que Andrew completa 66 anos, após buscas em propriedades em Norfolk e Berkshire 19 fev 2026 · Mundo
Foto: Reprodução
Justiça determina transferência imediata de bebê de 6 meses para UTI em Goiânia
Multa por descumprimento da ordem judicial pode chegar a R$ 50 mil em caso de omissão 19 fev 2026 · Justiça
Foto: Renato Conde
Temporal em Goiás: frente fria traz risco de granizo e ventania
Alerta meteorológico: Goiás tem previsão de tempestades com ventos fortes e granizo. Temperaturas máximas devem recuar. 19 fev 2026 · Goiás
Foto: CNBB
Campanha da Fraternidade 2026 debate moradia digna
CF 2026 debate moradia digna. Papa Leão XIV envia mensagem. Em Aparecida, instalação de “Cristo Sem Teto” marca programação. 18 fev 2026 · Religião
Lula chega à Índia para cúpula de IA e reuniões bilaterais
Lula chega a Délhi para cúpula sobre IA e reuniões bilaterais. Países devem firmar acordos em minerais, parcerias digital e ampliar vistos. 18 fev 2026 · Mundo
CNU 2025: FGV libera resultados individuais nesta quarta (18)
CNU 2025 entra em fase decisiva: a partir das 16h de hoje (18), FGV libera resultados individuais. Lista de classificação sai sexta (20). 18 fev 2026 · Economia
“Do tamanho da minha cabeça”: goiaba de 1.4 kg surpreende
Goiaba de 1,4 kg é colhida em Vianópolis e vira sensação. Pé surgiu há cinco anos em fenda no chão cimentado e já rendeu mais de 100 mudas 18 fev 2026 · Meio Ambiente