A decisão do governo Donald Trump de propor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros chamou a atenção pela dimensão econômica. Mas talvez a principal notícia não esteja na tarifa. Ela está na mensagem política contida no documento elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos.
Os americanos não se limitaram a questionar questões comerciais. O relatório aborda temas ligados ao Pix, às plataformas digitais, à propriedade intelectual, ao combate à corrupção, ao desmatamento e até a decisões judiciais. Em outras palavras, Washington transformou uma disputa comercial em um questionamento mais amplo sobre o ambiente regulatório e institucional brasileiro.
O impacto imediato preocupa exportadores e investidores. Ainda que diversos produtos estratégicos tenham sido poupados das tarifas, o simples fato de o Brasil tornar-se alvo de uma investigação formal baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 aumenta a percepção de risco. O mercado financeiro consegue conviver com impostos e tributos. O que ele teme é a incerteza.
Nesse contexto, ganha relevância a recente movimentação do senador Flávio Bolsonaro junto ao governo americano para enquadrar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais. Embora os dois assuntos sejam juridicamente distintos, passaram a ser observados dentro de um mesmo ambiente de pressão crescente dos Estados Unidos sobre o Brasil.
A classificação de grupos criminosos como organizações terroristas pode desencadear mecanismos rigorosos de fiscalização financeira, auditorias e controles internacionais. O objetivo seria atingir as facções. Contudo, os reflexos podem alcançar bancos, fintechs, fundos de investimento e empresas que operam no sistema financeiro nacional.
Surge então o que alguns analistas chamam de pauta bumerangue. Uma iniciativa concebida para demonstrar firmeza no combate ao crime
organizado acaba produzindo inquietação justamente em setores econômicos que tradicionalmente apoiam agendas liberais e conservadoras.
O episódio revela uma velha lição da política e da economia. Ações de grande impacto simbólico costumam gerar consequências que ultrapassam os objetivos originais. O combate ao crime organizado é uma necessidade nacional. Mas quando esse combate se conecta a interesses financeiros, comerciais e diplomáticos, seus efeitos passam a atingir muito mais gente do que os alvos inicialmente pretendidos.
A tarifa de 25% é apenas a parte visível da história. A verdadeira discussão está nos desdobramentos que ainda virão. E é justamente aí que mora a notícia mais importante.
