Decidimos, eu e meu pai, sair de Goiânia rumo a Bragança Paulista para assistir a um jogo de futebol. Não havia planejamento, não havia reserva de hotel, não conhecíamos ninguém na cidade. Havia apenas um motivo: ver River Plate contra Red Bull Bragantino.
Terminamos nosso dia de trabalho — meu pai celebrou sua tradicional missa das 19h, e eu fui para minha última reunião política na região leste. Às 21h, partimos. Sem saber exatamente o caminho, mas confiantes — afinal, para isso existe o Waze. Muito competente, por sinal… embora, em alguns momentos, tenha nos colocado em situações um tanto perigosas.
A ansiedade pelo time de nossos amores era tão grande que decidimos não parar para dormir. A estrada era longa, complexa, e cada quilômetro percorrido nos fazia sentir mais próximos desse amor que nos une.
Em determinado momento, o padre — meu pai — decidiu parar o carro. Dormimos no acostamento, dentro do carro, ao lado de vários caminhoneiros. Curiosamente, eles pareciam representar a prosperidade da região. Por uma noite, me senti um caminhoneiro — e, diga-se, um caminhoneiro abençoado.
Ao amanhecer, seguimos viagem. À medida que nos aproximávamos de Bragança, a paisagem ficava mais verde. E então chegamos: uma cidade charmosa, bonita, com traços coloniais, um centro vivo, ciclovias organizadas, ruas limpas, muitas travessias. Uma cidade com subidas, ruas estreitas — mas, acima de tudo, preparada para oferecer qualidade de vida. Havia vida ali.
Meu pai, como bom argentino, decidiu almoçar em um churrasco bem gaúcho. O restaurante estava lotado. Nas mesas, o clima do jogo já se fazia presente: camisas do Bragantino por todos os lados, e um único assunto dominando a cidade — o jogo.
Depois, decidimos conhecer o mercado central. Caminhamos, passeamos, observamos o comércio local. No mercado, meu pai parou diante das frutas. Ali, algo mudou. Meu avô teve um estande no mercado central de Santiago del Estero, e foi por meio dele que sustentou os estudos do meu pai. O brilho nos olhos dele, ao escolher frutas, dizia tudo: era memória, era orgulho, era saudade em estado puro.
Mais tarde, resolvi fazer a barba em uma barbearia tradicional da cidade, próxima a um dos hotéis mais conhecidos. E, para ser sincero, é na barbearia que se sente a alma de uma cidade.
O dono conversava com um cliente — claro, sobre futebol. Contou que havia comprado duas cadeiras novas só para assistir aos jogos do Red Bull Bragantino. Elogiou a gestão profissional do clube, o crescimento, o impacto na cidade. Disse que iria ao jogo naquela noite. O cliente perguntou: “É Libertadores?”. Ele sorriu e respondeu: “Não… Sul-Americana. Mas é contra o River Plate. Quem imaginaria o River aqui em Bragança?”
Saí da barbearia e já havia torcedores do River pela rua. Meu pai, animado ao ver seus compatriotas, recebeu deles votos de sorte — aquele tipo de encontro que só o futebol proporciona.
Escrevo isso para tentar traduzir um pouco do sentimento, do amor, do vínculo que um time cria com seus torcedores. Mas também para mostrar como o esporte pode movimentar o orgulho de uma cidade, gerar desenvolvimento econômico e como uma gestão eficiente pode produzir resultados que vão além do imaginável.
Sou privilegiado por viver tudo isso ao lado do meu pai. Sou grato por chegar a Bragança, sentir, viver e me conectar com essa paixão — pelo futebol, pela cidade, mas, sobretudo, pela minha família.
Mais uma loucura vivida ao lado de quem amo.
(E, por coincidência — ou destino — até o prefeito de Bragança é árabe. Rs.)
