O debate tímido e sublimar presente na campanha deste ano em Goiás, lastreado na segurança pública, ganhou um novo protagonista no palanque: a IA – Inteligência Artificial.
Mas há outras inteligências atentas, e em jogo: o servidor público com suas demandas na área, e o cidadão goiano, que sente na pele as consequências das políticas aplicadas e contrariadas, é o extrato dessa boa gente também chamada de eleitor.
PONTO 1
O governo fechou com uma empresa o que chama de parceria, no valor de R$ 304,8 milhões com o objetivo de levar a 194 municípios moderno sistema de câmeras com inteligência artificial.
Uma ampliação do seu programa IA Contra o Crime. A iniciativa é, em tese, ótima notícia para os goianos, e o tema é, na prática, excelente no palanque da campanha para a reeleição em curso.
Como ignorar o poder da IA? Como não entender o fato como promissor para a manutenção da sensação de segurança que dá aprovação elevada ao governo e é carro-chefe no discurso do governador Daniel Vilela e do e, Ronaldo Caiado (que o usa na pré-campanha para presidente?
A sutileza está em pontos nevrálgicos.
A empresa “parceira”, Paladium Corp Desenvolvimento de Tecnologia, está sob investigação do TCE e do MP por contratos anteriores com o governo de Goiás.
No Paraná e em São Paulo contratos semelhantes da empresa também são investigados pelo TCE. Desde abril processos licitatórios lá estão suspensos. E há duas semanas ela mudou de nome, para PAX. Coincidência?
PONTO 2
A maior preocupação da equipe estratégica de Daniel Vilela na transição de vice para governador sempre foi mostrar que ele dá conta do recado.
Que é capaz de manter o sarrafo de um governo que, nas mãos de Caiado, chegou à aprovação de mais de 80% da população.
Pesquisas qualitativas no início do ano indicavam que este era o termômetro que importava para a governabilidade e para a reeleição.
Essa pressão emocional de largada sobre Daniel é um dos indicativos para o que se vê: ele mais focado em mostrar-se no controle da direção, e senhor do poder (a máquina) para a reeleição.
Lançamentos de obras e anúncios como este da IA, e eventos como os encontros regionais (o mais recente foi o de Uruaçu), cumprem essa missão. São ações e atos de comunicação de força, além de tudo.
Antes de seguir, só o registro: ajuda providencial Daniel tem recebido dos adversários, que fazem campanha tímida. Assunto já tratado aqui.
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Porém, a pergunta nos bastidores agora é esta: tento dinheiro para o artificial, por que não atender aos humanos policiais?
Semanas atrás, o governo anunciou um pacote de valorização das forças de segurança com impacto superior a R$ 1,2 bilhão, parte este ano, parte ano que vem.
Como os tempos de IA, uma rápida espiada num dos aplicativos da área nos fofoca:
1 – O pacote priorizou benefícios amplos (alimentação, horas extras, indenizações e reestruturações específicas), mas não promoveu uma reestruturação geral completa de todas as tabelas salariais das corporações.
2 – As manifestações de servidores nas redes sociais após o anúncio surgiram reclamações de alguns segmentos, especialmente de veteranos e pensionistas, que afirmam não ter sido contemplados da forma esperada.
Insisto. Não sou eu a dizer. É a parceira IA.
O anúncio de Daniel impactou. Agradou. Em termos.
Conseguiu acalmar os ânimos ouriçados nos bastidores. Não resolveu o problema.
O risco de rebelião silenciosa com consequência nas urnas ficou menor, mas continua existindo.
Isso pode ser sentido em várias frentes. A principal está na mobilização de policiais e servidores com calculada nostalgia.
No fundo do debate (campanha pura) interno na categoria está a comparação entre os governos Caiado e os do anterior a ele, Marconi Perillo (PSDB), que é pré-candidato a governador e vem batendo muito na tecla de suas conquistas para a área quando governador.
A comparação é melhor para quem? Por óbvio, cada lado tem seu diagnóstico favorável ao seu tempo de governo.
E nesta hora temos o cidadão goiano, o eleitor, na conta do debate.
PONTO 3
Para o eleitor, a percepção sobre segurança não é detalhada, mas de como é impactado.
Se está se sentindo seguro, tudo bem. Apoio vai de embalo para o governo. Se começa a ter dúvida, sinal de alerta ligado.
Segurança do Estado é uma coisa, sentir-se seguro com a segurança estadual é outra eleição.
Ao cidadão não importa como é feito o bife; importa o bife.
Funcionarão como fator decisivo nesse processo exatamente quem importa na sustentação de tudo: os policiais e os servidores em geral. Serão cabos eleitorais de quem?
Por enquanto, esse debate de chão de fábrica está entre Daniel e Marconi. Wilder Morais e o PT – que agora tem candidato a governador, Luiz César Bueno – não entram na discussão.
Em comum, outra coisa. Daniel X Marconi é o combate eleitoral que o Palácio das Esmeraldas quer. Os pensadores estratégicos de Daniel avaliam que a comparação o favorece.
Marconi é o adversário escolhido por Daniel desde o início. Nesse visão, tratar sobre segurança atende a meta de campanha.
O tucano também já mostrou que quer o debate. Porque ele não se restringe à segurança. Escorre por todas as ares e chega ao ponto: quem tem mais tutano e preparo para governar – o novato Daniel ou o maduro (palavra quem vem sendo usada em entrevistas) Marconi?
Marconi age com foco no resultado eleitoral. Daniel se posiciona com mira igual.
Não é coincidência que na sua propaganda oficial de governo o conceito esteja lá: é preciso continuar o caminho seguro. De Caiado pra ele, é dele para garantir que a política de segurança não tenha descontinuidade.
Só prestar atenção.
Nesta hora, tudo é campanha. Segurança não é para eleitor pensar. É para votar.
PONTO 4
Quem tem mais valor em Goiás: IA de milhões pra empresa investigada, ou os milhões de servidores da segurança insatisfeitos?
Para o eleitor, qual o valor dos candidatos na hora do seu voto na urna?
Tem essa dinheirama toda e essa coragem pra arriscar assim nisso, e não tem para a gente? – o ponto central.
