O governador Daniel Vilela (MDB) mostrou força na convenção que confirmou sua candidatura à reeleição.
Levou ao palco o seu vice, Luiz do Carmo, e não o vice da preferência do ex-governador Ronaldo Caiado (ambos PSD).
Daniel peitou Caiado e venceu sem pestanejar.
Mostrou coragem e levou a melhor. Ganhou a queda de braço.
Ganhou mais:
1 – o respeito de quem está ao seu lado, essencial para as novas batalhas;
2 – o medo aos que gravitam mais distantes. Quem vai querer contrariá-lo?
Essa é a mensagem que resultou do embate de bastidores e que teve ares de épico, na madrugada, em conversas tensas e ameaçadoras a Caiado.
Se Daniel deixou claro à sua base quem é que manda, para Caiado o dia seguinte, o da convenção, foi o dia de não passar recibo. O que lhe restou ao amanhecer do dia 5.
Não passará vergonha em público. Toda mágoa será adiada. Está, por ora, aprisionada no peito.
Quase se traiu apenas em um momento.
Quando um repórter quis saber como tinha ficado a relação entre ele e Daniel (que estava ao seu lado), depois das conversas que vararam a madrugada, já que os rumores eram de desconforto, ele debochou “Estão desesperados desse tanto?”
Disse e olhou para o lado, com meio sorriso. No que Daniel, imediatamente, interviu: “Meu grande amigo” (sobre Caiado), e “fiquei nem sabendo desse fuxico”.
Como não se conteve o candidato a vice Zé Mário Schreiner, que recebeu o não mais forte, porque duplo: de Daniel e de Caiado. Ambos não o quiseram antes de vetarem quaisquer outros.
Em um vídeo de agradecimento ao apoiadores, Zé Mário foi explícito no sentimento e no papel de companheiro traído.
Falou em “projetos pessoais que ficam acima de projetos de Estado”, e que “gratidão se paga com gratidão”. Ao som dos bastidores de uma conversa relatada como dura, entre ele e o ex-governador.
As palavras, com seus silêncios traiçoeiros e os efeitos nas frases, entregam a dor. Ato seguinte, Marconi Perillo (PSDB) admitiu que tinham conversado, o que poderia resultar em apoio à sua candidatura. Ou a Wilder Morais (PL), na fila.
Adriano da Rocha Lima, ao contrário, engoliu seco. Silêncio absoluto. Recolhido.
Agora vem o momento de afagar, juntar os cacos e reposicionar os aliados.
O que Daniel vai fazer de hoje em diante é mais definidor para sua campanha e um eventual governo seu do que o fato superado de lutar e impor a sua vontade.
O desafio é grande e de dois passos.
O primeiro bate direto na eleição. Resolver pendências e aplainar o caminho. Ciscar para dentro.
Este é o menos difícil. O pragmatismo age como aliado.
Com o tempo curto até outubro, toda atenção estará nas muitas campanhas em jogo.
Com cada um brigando por seu mandato ou pelo direito a um espaço no primeiro, segundo, terceiros escalão do novo governo, a tendência de foco é um por todos e todos por um. Todos juntando elementos de força para futuras negociações.
Embora a oposição pense o contrário, a urgência torna mais fácil segurar as dissidências. A não ser que tudo se degringole, no contrapé exatamente do afagar necessário.
Nessa hipótese, a história muda do vinho para a catástrofe. Será o fracasso de Daniel contra os inimigos depois da vitória contra os amigos.
O que realmente aconteceu no episódio do chega-pra-lá em Gustavo Mendanha (PRD), na convenção? Por que não o deixaram discursar?
E o apoio de Zé Mário será mesmo jogado fora? Gracinha será esvaziada? Vanderlan será escanteado?
Não vingando a incompetência, a máquina de governo cuida em esmagar as arestas de momento. Por ser uma de suas “funções” na engrenagem do poder – para quem está disposto a tanto, como mostrou Daniel.
O segundo tem a ver com a governabilidade, se confirmada a reeleição.
A saber:
a) Será um governador que peita, como fez com Caiado, ou que releva e apanha calado, como fez Alcides Rodrigues com Marconi Perillo de 2006 até 2010?
b) Será um governo de guerra aberta ou de guerra fria?
Mas isso é para depois da eleição.
Daniel joga bem. Mais na dor e menos no amor, jogou bem com Caiado.
No último ato de convencimento, agiu na mão, e não na contramão da vontade e do pensamento da base governista, que via em Adriano da Rocha Lima vice um risco para todos.
Trabalhou na mente e coração dos aliados a germinação do sentimento contra o nome de Caiado. Apresentou os riscos. Estabeleceu a dúvida. Estimulou quem era necessário. Disseminou o medo. Depois usou tudo como arma para dobrar Caiado. Deu muito certo.
Daniel não está sozinho. Tem uma estrutura estratégica de comando mais próxima, de dois ou três nomes, dando-lhe suporte e direção. Pensando e cuidando. E uma armada de amigos e políticos afinados na idade e na convivência que vem lá de trás (prefeitura de Goiânia, prefeitura de Aparecida, Assembleia), com base emedebista. Agindo, executando.
Enquanto governa e busca a reeleição, Daniel define seu grupo (os nomes e sinais sinais estão nos bastidores). A ação é de tomada de poder, não é de conquista, apenas.
No fim do dia da convenção tinha caiadista alegando estratégia reversa: Adriano teria sido sempre um balão de ensaio para negociações internas. E como explicar, por exemplo, as alternativas de nomes postas na mesa, quando restou inviabilizado o de Adriano?
Vale o registro. Vale a nota de rodapé do choro dos derrotados no fogo amigo.
Os inimigos têm outros motivos para chorar.
A imagem negativa que a oposição tenta construir de Daniel Vilela é um dos maiores elogios que podem fazer a ele.
Daniel atropela? Quem está pequeno não atropela ninguém. Quem quer liderar precisa estar disposto e pronto inclusive para atropelar.
Daniel não tem carisma? Tem coragem de sobra.
Pode ser um novo Alcides Rodrigues? Vejam: desde já, esvazia e tira da frente nomes ligados a Caiado. Peitando abertamente o próprio.
São conceitos como estes que estabelecem identidades de liderança. E a audiência primeira é é política, a que segue o líder. A que vai pra campo. A que junta exército.
Na definição de um velho marqueteiro goiano, o povo mesmo, nem fica sabendo de quem o atropela nas urnas.
A eleição não está definida. Campanha é oportunidade para alteração do curso dos favoritismos. Se não for, não é campanha.
Aqui estão os fatos imediatos. Quem quer mudar, que lute.
