As eleições deste ano têm um vencedor: as pesquisas de opinião.
Elas nunca tiveram tanto protagonismo no atacadão eleitoral de agora quanto sempre tiveram no varejo de campanhas profissionais, que as usam como norte e balança.
(Campanhas amadoras, de candidatos que traçam suas estratégias com base em pesquisa alheia, e nas que os adversários fazem questão de divulgar, coisa comum em Goiás, não contam.)
O “atacadão” da frase acima vale como referência ao mercado amplo e natural de contratações, mas também aos ataques recorrentes contra a reputação dos institutos.
É um bate e afaga.
Pesquisa é item de percepção intensa e paradoxal.
Os números contam, mas conta mais o que se diz a partir delas. É o disse-me-disse que encanta e promove controvérsias em iguais proporções. Atiça.
Há estudos que garantem que elas não decidem eleição. Mas que as perturbam, perturbam.
Tanto as internas, de consumo estratégico dos marqueteiros e candidatos, quanto as de divulgação, para persuadir formadores de opinião, ludibriar militância e prospectar financiamentos diretos e indiretos. Estes, mais que tudo. Caixa dois, para os íntimos.
Todos que odeiam pesquisa, amam falar mal, enquanto passam para a frente a informação que renegam, acrescentando pontos: opinião, análise, restrição, palavrão.
Falar mal de pesquisa é esporte. Falam mal, mas falam delas.
E, se mais falam, mais a fogueira das especulações toma conta dos cenários que se fecham e que se abrem, segundo a imaginação vigente.
Pesquisa boa é a que gera fofoca da boa.
Fofoca ótima é a que repercute como telefone sem fio.
Mas não está errada? Está, mas não está. Porque não há prova contra, nem a favor. Como se trata de retrato de momento, não há votação imediata para que se tire a prova dos nove. Mas não está certa? Não está, mas está. Porque eu acho. Achar é infinito.
E os erros de chegada sempre são relativos, e relativizados pela retórica dos donos de institutos, dos leitores imbuídos de missão, dos contratadores que as divulgam e por quem se arvora no direito e dever de defender seu candidato beneficiado, claro.
E tem as teses de mestrado, doutorado, a literatura que responde ao imperativo do fato inquestionável: tudo é relativo, o povo é o povo. Dão ciência ao imponderável.
Da noite para dia, o eleitor, que era um, amanhece outro. Como entender? Como questionar? Como não especular?
A conspiração para as conspirações é inata das pesquisas e do ser humano diante delas e das fortes emoções eleitorais. As urnas urgem.
Uma das marcas registradas das pesquisas, as incertezas estão aí para isso mesmo: quando não dá pra ganhar na retórica e na propaganda, convém espalhá-las. E, com números de esguelha, elas escalam pulsações nas armadas em campo pelo voto.
Nunca será a medida da certeza que as dimensionará. Quanto mais dúvidas são plantadas no fundo de uma mente incauta e em um coração candente, mais impactantes serão. Alvo estratégico perfeito.
As campanhas, os eleitores, os veículos, todos precisam das pesquisas exatamente como elas são. Do contrário, o que teriam a dizer, desdizer e predizer? O que teriam a negar de fato?
Ninguém segura as pesquisas. Ninguém cerca a imaginação. Apostar (como fazem donos) e fazer concurso pra ver qual acerta mais (como quer o presidente do TSE) é dar doutorado a quem manobra bola de cristal. É o realismo mágico eleitoral diplomado. Literatura arrebatadora, mas péssima realidade.
Ninguém coloca juízo nas urnas. O que vai na cédula é o sonho. O que sai é prejuízo. Estamos no lucro com a democracia, o sentido essencial de fazer o certo com resultados nem sempre. Para o bem de todos.
Os números que saem das planilhas são proporcionais aos cidadãos. Refletem. Definem. Prospectam a sociedade em curso e a desejada. Nossos desejos obscuros, e nossa vontade coletiva.
O índice de credibilidade das pesquisas vai aos céus por razões emocionais, referendadas pela mística da infalibilidade – às vezes prometida, outras vezes induzida por descuido ou má-fé.
A fé política se sobrepõe às inúmeras probabilidades elementares ao jogo por questão estratégica ou ignorância popular.
Por lógica imaterial, a margem de erros e acertos das leituras de índice jamais será menos do que cem por cento de incredulidade e criação.
Responda rápido: como é que alguém vota justo neste candidato? Como é que esse cara foi eleito?
Xinguemos as pesquisas. Sabendo: elas retratam o momento eleitoral, só não revelam os momentos de irracionalidade coletiva – e de imbecilidade pessoal.
As pesquisas nos contradizem. As urnas nos revelam.
