Com a proximidade das eleições gerais, o eleitorado goiano começa a avaliar não apenas os discursos de palanque, mas as diretrizes registradas na Justiça Eleitoral para a administração do Estado entre 2027 e 2030. Embora a disputa pelo Palácio das Esmeraldas tenha seis candidaturas homologadas pelo Tribunal Superior Eleitoral — incluindo Luciana Amorim (UP) e Danilo Pinheiro (PCO) —, quatro concentram maior protagonismo: o atual governador Daniel Vilela (MDB), que assumiu o cargo em março de 2026 e concorre à reeleição; o ex-governador Marconi Perillo (PSDB); o senador Wilder Morais (PL); e o ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno (PT).
Os documentos oficiais revelam convergências, como a descentralização da saúde, o combate à criminalidade com inteligência, a recuperação de rodovias e o incentivo à geração de empregos. Os caminhos, porém, são distintos. Daniel aposta na continuidade administrativa com incorporação de tecnologia; Marconi combina programas de suas gestões anteriores com novos mecanismos de governança; Wilder concentra propostas em gargalos de renda, saúde e qualificação; e Luis Cesar defende mudanças estruturais, como a substituição gradual das Organizações Sociais nos hospitais e a Tarifa Zero no transporte coletivo.
Saúde pública
A redução das filas por consultas e procedimentos aparece nos quatro programas, mas o modelo de gestão hospitalar divide as candidaturas.
Daniel Vilela (MDB)
O governador propõe ampliar a regionalização da saúde, levando serviços especializados ao interior, como sessões de hemodiálise nas Policlínicas Regionais, além de fortalecer linhas de cuidado em oncologia, saúde mental e atenção materno-infantil.
Na infraestrutura, o principal projeto é a transferência definitiva do Hospital Estadual de Urgências de Goiás Dr. Valdemiro Cruz (Hugo) para uma nova sede no Conjunto Fabiana, em Goiânia. A iniciativa, já em execução em 2026 e com autorização de R$ 500 milhões em crédito, prevê ampliar os atuais 342 leitos para mais de 500, elevar de 52 para 90 os leitos de UTI e incorporar automação hospitalar e monitoramento em tempo real.
Vilela também propõe uma estrutura unificada para a assistência feminina, reunindo fisicamente os atendimentos do Hospital Estadual da Mulher (HEMU) e da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes.
Marconi Perillo (PSDB)
Marconi aposta no programa Saúde no Tempo Certo, com central de regulação e monitoramento 24 horas, expansão das teleconsultas e emissão de laudos à distância.
Entre as principais propostas está a construção do “Hugo do Entorno”, unidade de urgência e emergência voltada aos municípios goianos próximos ao Distrito Federal. O candidato mantém o modelo de Organizações Sociais (OSs), mas propõe repactuar contratos com novas metas de governança e transparência, retomar concursos para médicos e enfermeiros e recorrer à rede privada credenciada em períodos de maior demanda.
Wilder Morais (PL)
O senador estrutura sua política de saúde no programa “Minha Vez, Saúde com Data”, cuja principal proposta é reunir as filas estaduais em uma plataforma pública que permita ao paciente acompanhar sua posição e a previsão de atendimento.
Wilder também propõe a Tabela SUS Goiás, com complementação estadual dos valores pagos pela tabela federal para ampliar vagas nas redes filantrópica e privada credenciada. O plano prevê incentivos para fixar especialistas no interior e o programa Remédio em Casa, destinado a idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
Luis Cesar Bueno (PT)
Luis Cesar apresenta a proposta de maior ruptura no setor ao defender a reestatização gradual dos hospitais estaduais e a substituição progressiva dos contratos administrados por OSs e Organizações da Sociedade Civil (OSCs).
O programa prevê auditoria dos contratos nos primeiros 100 dias, implantação de unidades-piloto sob gestão direta no primeiro ano, meta de reestatizar 50% da rede em 24 meses e ampliar o modelo ao longo do mandato. Também propõe fortalecer a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego) e valorizar as carreiras estatutárias da saúde.
- Onde está a maior divergência: Daniel e Marconi mantêm o modelo de parcerias com OSs, embora com propostas distintas de modernização e fiscalização; Wilder concentra esforços na gestão das filas e no financiamento complementar dos procedimentos; e Luis Cesar defende o retorno gradual da administração pública direta.
Educação e ensino técnico
A ampliação do ensino integral aparece nas plataformas, mas os candidatos divergem sobre prioridades, financiamento e relação entre educação e mercado de trabalho.
Daniel Vilela (MDB)
Daniel propõe fortalecer o ensino integral e inclusivo, ampliar recursos de acessibilidade e tecnologia assistiva e garantir suporte pedagógico desde a primeira infância para assegurar a alfabetização na idade adequada.
O programa também prevê conectividade nas escolas, adoção de sistemas pedagógicos baseados em inteligência artificial, investimentos na infraestrutura da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e realização de concursos para a instituição.
Marconi Perillo (PSDB)
Marconi prioriza programas de alfabetização continuada e expansão das escolas de tempo integral associadas ao ensino profissionalizante, com cursos técnicos alinhados às vocações econômicas de cada região.
No ensino superior, propõe restabelecer a vinculação de 2% da receita de impostos estaduais à UEG, além de reestruturar carreiras docentes e ampliar programas de formação continuada.
Wilder Morais (PL)
Wilder aproxima a política educacional das demandas do mercado de trabalho. A proposta é integrar colégios técnicos estaduais, faculdades, Sistema S e iniciativa privada para criar cursos direcionados às vagas existentes na agropecuária, no comércio e na indústria de cada região.
Luis Cesar Bueno (PT)
Por meio do programa “Goiás Escola do Futuro”, Luis Cesar estabelece como meta ampliar a rede de Centros de Ensino em Período Integral (Cepis) para entre 350 e 370 unidades até o fim do mandato.
Considerando as 263 escolas integrais em funcionamento, seriam necessárias cerca de 90 a 110 novas unidades ou conversões. O plano também prevê articulação com instituições federais e investimentos nas condições de trabalho e na remuneração dos professores.
- Diferença principal: Luis Cesar estabelece uma meta física para a expansão do ensino integral (350 a 370 unidades); Marconi propõe vinculação orçamentária de 2% para a UEG; Daniel prioriza tecnologia, inclusão e alfabetização; e Wilder conecta a formação técnica às necessidades do mercado de trabalho.
Segurança pública
Inteligência policial, enfrentamento às facções e uso de tecnologias de monitoramento aparecem nos quatro programas, com diferenças nas estratégias operacionais.
Daniel Vilela (MDB)
Daniel propõe ampliar a interiorização das forças de segurança e levar aos municípios padrões de tecnologia e resposta operacional semelhantes aos da capital. O programa prevê o Escudo Digital Goiás para combater fraudes e crimes cibernéticos, além de investimentos nas polícias Civil e Técnico-Científica e em unidades especializadas de fiscalização e trânsito.
Marconi Perillo (PSDB)
Marconi aposta no planejamento a partir do mapeamento territorial e das manchas criminais. Também propõe concursos periódicos para reforçar os quadros policiais, ampliação das rondas comunitárias e do policiamento rural e modernização da inteligência contra organizações criminosas e crimes patrimoniais.
Wilder Morais (PL)
Wilder concentra parte das propostas no sistema prisional e nos crimes digitais. O programa “Goiás sem golpe digital” prevê atendimento integrado às vítimas de estelionato eletrônico, com rastreamento, perícia e bloqueio cautelar de valores. A plataforma inclui ainda ferramentas para combater deepfakes, exploração sexual infantil na internet e violência virtual contra mulheres.
Luis Cesar Bueno (PT)
Luis Cesar organiza suas propostas nos programas Vida Segura, Mulher Segura e Goiás contra o Crime Organizado. Entre as medidas estão um protocolo estadual para investigação de homicídios, atuação preventiva em territórios vulneráveis, fortalecimento da Polícia Científica e equipes voltadas à asfixia financeira do narcotráfico, inteligência penitenciária e confisco judicial de bens ilícitos.
Economia, emprego e agronegócio
Os programas reconhecem o peso do agronegócio e da geração de empregos para a economia goiana, mas divergem sobre como o Estado deve induzir o desenvolvimento.
- Daniel Vilela: propõe modernizar a agropecuária, fomentar a mineração estratégica com base no Plano Estadual de Recursos Minerais 2050, atrair investimentos para terras raras e minerais críticos, ampliar linhas de microcrédito e estimular o turismo.
- Marconi Perillo: defende ampliar a industrialização dentro de Goiás para agregar valor às matérias-primas locais, desburocratizar rotinas fiscais para pequenos negócios e retomar o Banco do Povo como instrumento de crédito produtivo.
- Wilder Morais: coloca o aumento da renda como eixo central. Propõe a CNH do Trabalho, para custear habilitação profissional com apoio de empresas, e o programa “Emprego do lado de casa”, com incentivos à instalação de serviços e fábricas no interior e no Entorno do Distrito Federal.
- Luis Cesar Bueno: propõe dividir Goiás em oito zonas econômicas, com estratégias específicas de desenvolvimento. No Sudoeste, por exemplo, pretende combinar agroindustrialização, tecnologia e logística para ampliar a agregação de valor à produção local.
Infraestrutura, transporte e habitação
A recuperação das estradas é uma proposta comum, enquanto transporte coletivo e mobilidade urbana revelam diferenças mais acentuadas.
- Daniel Vilela: prioriza saneamento, segurança hídrica e renovação gradual do transporte coletivo metropolitano com ônibus elétricos e movidos a biometano, além da reforma de terminais e ampliação de programas habitacionais para famílias vulneráveis.
- Marconi Perillo: propõe programas permanentes de recuperação da malha rodoviária, integração das estradas aos corredores ferroviários e logísticos e retomada de subsídios habitacionais nos moldes do Cheque Moradia.
- Wilder Morais: defende auditoria estrutural em rodovias e pontes, recursos permanentes para manutenção, pontos de parada para caminhoneiros e meia-passagem interurbana no Entorno do Distrito Federal. O programa também inclui o “Cartão Creche”, voltado ao custeio de vagas para crianças.
- Luis Cesar Bueno: tem como principal bandeira a implantação progressiva da Tarifa Zero no transporte coletivo urbano, inicialmente na Região Metropolitana de Goiânia e, mediante articulação com União e Distrito Federal, no Entorno. O programa também estabelece a meta de reduzir em 20% o tempo médio de viagem nos corredores exclusivos.
O que é promessa e o que já está em andamento?
Além das propostas, o eleitor precisa distinguir medidas programáticas de projetos que já possuem orçamento ou cronograma de execução.
Os planos registrados na Justiça Eleitoral apresentam diferentes graus de viabilidade técnica, financeira e jurídica. A transferência do Hugo, por exemplo, já conta com autorização orçamentária e está em andamento sob a atual administração. Outras iniciativas, como a Tarifa Zero no transporte metropolitano ou a vinculação obrigatória de 2% da receita estadual à UEG, dependem de negociações com outros entes, concessionárias ou alterações legislativas complexas.
Comparar os diagnósticos, as fontes de financiamento e a viabilidade de cada proposta é um dos principais caminhos para avaliar o que cada candidatura oferece para o próximo mandato.
