Ronaldo Caiado (PSD) não acertou ainda o discurso para vencer a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Augusto Cury, em poucos dias, chegou aonde ele não conseguiu chegar em seis meses de pré-campanha e campanha: nos dois dígitos das intenções de voto.
Na Quaest divulgada nesta quarta-feira, 2, Lula tem 37%, Flávio 30%, Augusto Cury 10% (subiu 8% desde a rodada anterior, de 14 de agosto), Caiado 1% (tinha 3,4%).
Caiado já fez acenos à direita e ao bolsonarismo. Adotou pautas como a anistia a Bolsonaro e a todos os punidos por tentativa de golpe no 8 de janeiro, transição de poder de Bolsonaro para Lula.
Começou criticando forte Lula. Inimigo histórico. Logo, aumentou a carga. Mais duro, mais virulento.
Na estratégia inicialmente traçada, apresentou aos brasileiros o que fez durante seus dois governos em Goiás.
Governos bem avaliados, e aprovados. Com destaque na segurança, pauta nacional, desejo de todos. Um diferencial positivo e reconhecido pelos formadores de opinião bem informados.
Um tempo mais e Caiado passou a fazer críticas duras a Flávio Bolsonaro: não dá conta do recado. Só ele, Caiado, pode vencer Lula no 2º turno, insistiu na tese. O problema: chegar lá.
2º turno é um discurso, não é uma realidade. Por ora, só quem tem um pé lá é Flávio. E Lula.
Nos últimos dias, Caiado passou a buscar um ilusório equilíbrio entre a crítica menos feroz a Lula e não tão forte a Flávio. O meio termo de quem fica em cima do muro e tenta agradar a todos. E que normalmente desagrada geral.
Caiado faz isso por quê? Porque todos os outros caminhos deram errado para ele, até agora.
Não virou terceira-via, não despontou nas pesquisas, não se transformou em sensação.
Não entrou no jogo pra valer.
E porque o estilo mais brando, coach, deu certo para Augusto Cury.
Na romaria, Caiado viu a sua base governista em Goiás entrar em crise, na escolha do vice de Daniel Vilela e da chapa elástica de candidatos ao Senado.
E vê depois da convenção essa mesma base bambear, não fechar questão em torno de sua esposa, Gracinha Caiado, candidata a senadora. E isso por contrariedade com as suas articulações políticas na reta final da pré-campanha.
Caiado não tem mais em mãos a caneta do governo de Goiás. Quem manda é Daniel Vilela. Ele tem tinta pra gastar e pra nomear.
Um experiente emedebista dá a senha: se os aliados não ouvirem a voz de comando de Daniel dando o rumo, não vão agir. Daniel terá de dizer: vão por aqui; apoiem Gracinha; ignorem Fulano; abracem este e aquela.
Tem que ser ele falando. A voz de Caiado não é mais a que manda na tropa governista.
Caiado acompanha de longe, um olho na disputa nacional e outro aqui, atento à luta de Gracinha Caiado para chegar ao Senado.
Tudo acontecendo e voltamos ao ponto: Caiado não sai do lugar nas pesquisas.
Está mais conhecido dos brasileiros, o que era um desafio, mas não está melhor avaliado. Conhecimento não virou intenção de voto.
Caiado perder para presidente é uma realidade do jogo político. Ao menos ele está lutando pelo sonho. Tem seu valor. Pessoal.
Mas Gracinha Caiado perder em Goiás não é uma opção para ele. Alto custo pessoal.
O governo aumentou o tom em favor da campanha em torno de Gracinha.
Gracinha está mais ativa na agenda de mobilização e contatos.
Sinais recentes de mudança de rota em curso.
O apoio de 19 vereadores em Aparecida de Goiânia, cidade administrada pelo primo do governador, o prefeito Leandro Vilela, não é aleatório. Tem uma mensagem aos aliados aí.
E Caiado avisou: está na sua agenda apear em Goiás na reta final do 1º turno. Esforço concentrado em favor de Daniel? Sim, mas principalmente reforço de campanha para a ex-primeira-dama.
Gracinha lidera as pesquisas, e com boa margem. O desafio é não perder o controle dessa liderança quando o voto será realmente decidido pelo eleitor, na chegada das urnas.
Caiado vive momento de máxima tensão política e eleitoral.
Caiado tem tudo pra perder para presidente e precisa jogar tudo pra ganhar com Gracinha em Goiás.
Caiado não tem discurso pra presidente até hoje. Flávio Bolsonaro nem é mais sua maior dor de cabeça. Antes, tem Cury. Depois, Lula.
Enquanto Augusto Cury cresce, Caiado desaparece nas intenções de voto e na perspectiva política, eleitoral.
Enquanto Flávio Bolsonaro se firma na polarização, Caiado precisa se equilibrar em Goiás para sobreviver a outubro.
A campanha acaba em um mês. O tempo corre. Corre bem para Flávio Bolsonaro. Muito bem, para Daniel Vilela. Corre acelerado contra Caiado.
