Caso Master: tudo o que você precisa saber sobre a crise que envolve Moraes, Mendonça e Gonet

Mensagens de Daniel Vorcaro, contrato de R$ 131 milhões, encontro reservado com André Mendonça e disputa sobre a validade das provas colocam Supremo diante de uma crise institucional inédita

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Fotos: Fellipe Sampaio/STF; Luiz Roberto/TSE; Rosinei Coutinho/STF

O escândalo envolvendo o Banco Master deixou de ser somente uma investigação sobre suspeitas de fraudes financeiras para agora alcançar algumas das principais autoridades responsáveis por investigar, acusar e julgar o próprio caso.

No centro da crise estão Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master; os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF); e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Mensagens recuperadas pela Polícia Federal relacionam Vorcaro a Moraes e mostram pedidos do banqueiro para que o ministro buscasse interlocução com autoridades como Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

As investigações também alcançaram o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Master e o escritório comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Metadados indicaram participação do ministro na edição de uma versão do documento.

Gonet, por sua vez, aparece mencionado em mensagens analisadas pela PF e pediu a anulação da parte do relatório produzida por determinação de André Mendonça que envolve Moraes.

A crise ganhou um novo elemento nesta quarta-feira (2/9). Reportagem do jornalista investigativo Paulo Motoryn, do ICL Notícias, revelou mensagens e áudios que indicam que Mendonça teve um encontro reservado com Vorcaro em março de 2025, quando o Banco Master já enfrentava problemas perante o Banco Central.

O caso passa, assim, a levantar uma questão mais ampla: até que ponto as autoridades responsáveis por decidir sobre as investigações conseguem fazê-lo sem que suas próprias relações com Vorcaro sejam questionadas?

O que envolve Alexandre de Moraes

A Polícia Federal encontrou no celular de Vorcaro mensagens enviadas a um contato associado a Alexandre de Moraes.

Em algumas delas, o banqueiro demonstrava preocupação com possíveis medidas do Banco Central, da PF e do Ministério Público. Vorcaro chegou a pedir que seu interlocutor reforçasse contatos com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Às vésperas de sua prisão, também questionou se deveria deixar o país e se havia possibilidade de impedir alguma medida contra ele.

Até agora, porém, não foi demonstrado que Moraes tenha atendido aos pedidos ou interferido na Polícia Federal, na PGR ou no Banco Central em favor do banqueiro.

Parte das respostas atribuídas ao ministro não foi recuperada porque as mensagens teriam sido enviadas por meio de imagens com visualização única.

A diferença entre aquilo que Vorcaro pediu e aquilo que eventualmente foi feito é um dos pontos centrais que uma eventual investigação terá de esclarecer.

O contrato de R$ 131 milhões

Outro núcleo do caso envolve o contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes.

O acordo previa honorários que poderiam alcançar aproximadamente R$ 131 milhões. A análise dos metadados indicou que Alexandre de Moraes participou da edição de uma versão do documento.

Em nota, o escritório afirmou que Moraes foi consultado pelo setor de compliance para verificar se existia impedimento à contratação, já que sua esposa era sócia-diretora da banca. Segundo o escritório, o ministro nunca julgou causa envolvendo o Banco Master e não havia impedimento legal para a prestação dos serviços.

A existência do contrato, isoladamente, não comprova compra de influência ou favorecimento.

O questionamento institucional surge da combinação entre um contrato de alto valor envolvendo a família de um ministro e os contatos entre Moraes e o principal controlador do banco que posteriormente se tornou alvo de investigação.

Mendonça e Gonet entram em choque

André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master, determinou que a PF aprofundasse informações encontradas no material apreendido. Depois, retirou o sigilo do relatório e defendeu que os elementos envolvendo Moraes fossem submetidos ao plenário do Supremo em sessão pública.

Paulo Gonet adotou posição oposta.

O procurador-geral pediu a anulação do relatório na parte referente a Moraes. Segundo a PGR, Mendonça não poderia ter determinado o aprofundamento da apuração contra outro ministro sem provocação do Ministério Público e sem autorização do plenário.

A disputa se concentra em uma questão jurídica: a PF apenas organizou informações encontradas durante uma investigação válida ou passou a investigar especificamente Moraes sem seguir o rito necessário?

Se o STF entender que houve investigação irregular, parte das provas poderá ser anulada. Se considerar o procedimento legítimo, os elementos poderão embasar uma investigação específica contra Moraes.

Furo revela encontro de Mendonça com Vorcaro

A posição de André Mendonça no caso ganhou novo peso com a apuração de Paulo Motoryn.

Segundo o jornalista, a aproximação entre Mendonça e Vorcaro foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).

Entre os registros obtidos está uma mensagem em que Ciro aparece ao lado de Mendonça e afirma a Vorcaro estar “trabalhando por você”. Em outro momento, o advogado diz que o ministro já conhecia a situação enfrentada pelo Master perante o Banco Central e desejava receber o banqueiro.

O ICL também identificou mensagens relacionadas a uma reunião marcada para 14 de março de 2025, em São Paulo. Naquele dia, Cezinha informou a Vorcaro que Mendonça já o aguardava.

Registros das conversas do banqueiro com seu motorista indicam que ele se deslocou ao endereço informado e permaneceu no local por aproximadamente duas horas.

O encontro teria ocorrido na Alameda Santos, 647, onde funciona o Instituto Iter, instituição fundada por André Mendonça.

O material divulgado não revela o conteúdo da reunião nem demonstra que Mendonça tenha prometido ajuda, interferido no Banco Central ou adotado providência em benefício do Banco Master.

A revelação, entretanto, acrescenta uma questão relevante: qual era a natureza da relação entre o relator das investigações e o banqueiro que posteriormente se tornou o principal investigado dos processos sob sua supervisão?

Uma reunião entre um ministro do STF e um empresário não representa, por si só, irregularidade. O contexto, porém, aumenta a cobrança por explicações.

De acordo com Motoryn, a aproximação ocorreu enquanto interlocutores de Vorcaro discutiam a situação do Master no Banco Central. Meses depois, Mendonça assumiu posição central na supervisão das investigações.

Até o momento, não há prova pública de que tenha aconselhado Vorcaro ou atuado para beneficiá-lo. Ainda assim, permanecem perguntas sobre o que foi discutido na reunião, se houve pedidos relacionados ao Banco Central e se a relação anterior deveria ter sido informada quando o ministro passou a conduzir o caso.

A revelação também altera a leitura da disputa no Supremo. Mendonça vinha sendo apresentado principalmente como o relator que determinou o aprofundamento das informações sobre Moraes e defendeu sua divulgação. Agora, sabe-se que ele próprio manteve contato presencial com Vorcaro antes de assumir papel central nas investigações.

Isso não torna equivalentes as situações dos dois ministros.

No caso de Moraes, há o contrato milionário com o escritório de sua esposa, participação na edição de uma versão do documento e mensagens nas quais Vorcaro busca sua interlocução com outras autoridades. No caso de Mendonça, o que se conhece até agora é uma aproximação articulada por terceiros e pelo menos uma reunião com o banqueiro, sem que o conteúdo da conversa tenha sido revelado.

Dark Horse aumenta questionamentos sobre sigilo

Outro ponto utilizado para questionar Mendonça é o tratamento dado ao caso Dark Horse.

A investigação apura recursos ligados ao filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro e alcança politicamente o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência.

Mendonça autorizou a abertura da investigação, mas o processo permanece sob sigilo.

Aliados do presidente Lula passaram a comparar a situação com a decisão do ministro de tornar públicas as mensagens envolvendo Moraes e questionam os critérios adotados nos dois casos.

André Mendonça foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro, circunstância que amplia a exploração política da comparação. Isso, entretanto, não comprova favorecimento. O próprio ministro autorizou a investigação do Dark Horse.

A controvérsia está na diferença de tratamento do sigilo e na necessidade de explicar os critérios adotados.

A situação de Paulo Gonet

Gonet enfrenta um questionamento diferente.

Como chefe da Procuradoria-Geral da República, cabe a ele participar da análise sobre eventual investigação contra ministros do STF. Ao mesmo tempo, seu nome aparece nas comunicações recuperadas no celular de Vorcaro.

O material divulgado aponta contatos indiretos entre o banqueiro e o procurador-geral por intermédio do advogado Ciro Soares, além de referências a uma viagem envolvendo um dos filhos de Gonet.

Até agora, não há prova de que Gonet tenha interferido em investigação para favorecer Vorcaro.

O questionamento ganhou força, porém, porque foi justamente o procurador-geral quem pediu a anulação da parte do relatório que contém referências a ele próprio.

A posição da PGR pode estar baseada exclusivamente na defesa das atribuições do Ministério Público e do devido processo legal. Ainda assim, a presença de Gonet no material alimenta a discussão sobre eventual conflito de interesses ou sobre a conveniência de outro integrante da instituição assumir essa parte do caso.

Uma crise de interesses cruzados

Não existem provas suficientes para afirmar que Moraes, Mendonça ou Gonet estejam deliberadamente protegendo aliados ou perseguindo adversários.

Existem, porém, interesses jurídicos, institucionais e políticos que se cruzam.

Moraes tem interesse direto na discussão sobre a validade de uma investigação que pode atingi-lo. Mendonça defende a transparência do material envolvendo o colega, mas agora enfrenta questionamentos sobre sua própria relação anterior com Vorcaro. Gonet sustenta que o relator ultrapassou suas atribuições ao mesmo tempo em que seu nome aparece no conjunto de informações cuja anulação pediu.

O STF precisa proteger o devido processo legal e as prerrogativas de seus integrantes, mas também enfrenta o risco de acusações de corporativismo caso simplesmente invalide as provas.

O Senado, por sua vez, sofre pressão para analisar pedidos de impeachment contra Moraes. O ministro já acumula dezenas deles, mas nenhum resultou até agora na abertura de um processo capaz de afastá-lo.

Investigação criminal e impeachment, entretanto, são caminhos distintos. Mesmo que o Supremo autorize uma apuração contra Moraes, isso não significa afastamento automático do cargo.

Tudo ocorre em plena campanha presidencial, o que dá dimensão política até mesmo a decisões fundamentadas em questões estritamente jurídicas.

O que pode acontecer agora

O primeiro impasse está no próprio Supremo.

O tribunal terá de decidir se o material produzido pela PF envolvendo Moraes é válido. Se acolher a tese de Gonet, poderá anular parte das provas. Se rejeitar o pedido da PGR, poderá abrir caminho para uma investigação específica.

A revelação sobre o encontro entre Mendonça e Vorcaro também pode gerar questionamentos sobre a permanência do ministro na relatoria. Da mesma forma, poderá crescer a pressão para que Gonet não participe diretamente de determinados aspectos da apuração.

No Senado, permanece aberta a possibilidade de algum dos pedidos de impeachment contra Moraes avançar.

Apesar da sucessão de revelações, é importante separar relações comprovadas de condutas ainda não demonstradas.

Há mensagens dirigidas a um contato associado a Moraes; existe o contrato milionário entre o Master e o escritório comandado por sua esposa; há registros da participação do ministro na edição de uma versão do documento; Gonet aparece mencionado em comunicações analisadas pela PF; e, segundo a reportagem exclusiva de Paulo Motoryn, do ICL Notícias, mensagens, áudios e registros de deslocamento sustentam a realização de um encontro entre Vorcaro e André Mendonça em março de 2025.

Nada disso, isoladamente, comprova crime.

Não está demonstrado que Moraes tenha usado o cargo para proteger o banqueiro, que Gonet tenha interferido na PGR em benefício do Master ou que Mendonça tenha prometido ajuda ou atuado perante o Banco Central.

O caso Master se transformou, assim, em um teste para o próprio sistema de controle do Supremo: como investigar relações envolvendo seus integrantes quando as autoridades responsáveis por decidir sobre a investigação também passam a ser questionadas?

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