Ronaldo Caiado criou expectativa de que, nos debates e na sequência de entrevistas durante a campanha, arrebentaria.
Seria seu grande momento para mostrar a diferença entre ele e os outros candidatos a presidente.
Nos últimos dias, o que se viu foi outro cenário.
As críticas às participações dele no debate da Band TV e em sabatinas como as do Jornal Nacional e da CBN caem sobre sua cabeça com a intensidade da expectativa criada por ele mesmo. Com o peso de uma bigorna.
Há, nas redes sociais, uma avalanche negativa. Os memes proliferam, como o que o compara ao personagem Rolando Lero, da Escolinha do Professor Raimundo. O nome resume.
As críticas apontam respostas em aberto a questões objetivas, voltas e mais voltas em torno do centro das perguntas. É falta de propostas objetivas para temas de farto interesse público.
Alguns:
Candidato, o sr. defende anistia geral, se eleito. Mas houve ou não houve tentativa de golpe no 8 de janeiro? “Eu não estava lá.”
E como vai lidar com as emendas no Congresso, que travam o Executivo? Os parlamentares serão enquadrados.
E qual a garantia disso? “Eu”.
Candidato, como o sr. vai arrumar a economia do País? Como foi feito em Goiás. E como foi feito? Arrumamos a casa.
E a previdência? Isso aqui não é “banca examinadora”.
E como será exatamente a política tributária? “Deixei o Estado com 88% de aprovação.”
E tem o Lula. E tem o Flávio. E tem o estofo moral.
As voltas que o parafuso dá.
As críticas partem de jornalistas e comentaristas que viram o que não entenderam. Esperavam um candidato com conteúdo, respostas objetivas e posições definidas, e perceberam o contrário.
Pode-se argumentar: mas o povo gostou do que viu e ouviu. Gostou? As pesquisas dirão.
No corredor polonês da cobertura da candidatura a presidente, Caiado enfrenta um clima que raramente viu no Estado enquanto ocupou o Palácio das Esmeraldas.
Caiado governou sem contestação. Sem oposição. Sem política que justificasse o contraponto. Com os políticos esperando a imprensa fazer oposição, no espaço do fracasso deles próprios.
O desempenho questionável é uma má notícia para Caiado sem precisar ser manchete. O tempo para reverter a rota é escasso. Não há ‘força’ na mídia que reverta uma disparada em direção torta. Se a urna está para o norte e o candidato corre para o sul, o que fazer em menos de dois meses?
Cada dia perdido é uma oportunidade desperdiçada de chegar ao eleitor e conquistar o seu voto.
Em Goiás, a cobrança sobre ele tem aumentado nos bastidores da base aliada. Há incômodo de quem torce por ele. E ranger de dentes entre aqueles incomodados com suas últimas decisões. Tudo somado a sete anos de poder, agradando e contrariando políticos não tão sujeitos mais ao seu mando, fora do poder.
E não há mais a preocupação de que sua ausência da campanha no Estado possa ser ruim para a reeleição do governador Daniel Vilela (MDB). Isso já está precificado e administrado. Nos programas eleitorais, essa conta estará fechada.
A visão hoje é: quem mais perde sem Ronaldo Caiado na campanha em Goiás é sua esposa, Gracinha Caiado, que busca o Senado.
Enquanto Caiado tropeça nos próprios calcanhares na disputa nacional, cresce a percepção de que Gustavo Mendanha (PRD) ocupa espaço na caça ao segundo voto. Mas não em dobradinha com ela, Gracinha, e sim com Gustavo Gayer (PL).
A matemática é simples: como segundo voto dos governistas e dos bolsonaristas, Gayer tem fôlego para ser o primeiro voto de todos, com Gayer e Gracinha disputando o segundo voto.
Como Gracinha está com porteira fechada no bolsonarismo, por críticas dela e de Caiado a Flávio Bolsonaro, quem leva vantagem é Gayer.
Junte isso a um governo onde está cada um por si, neste momento — e que está solto no pasto em razão exatamente da ausência de quem poderia campear os rebelados, que é Caiado, e em função dos últimos embates fratricidas internos —, e o problema fica maior para a ex-primeira-dama resolver sozinha.
Veja. Há pouco empenho do lado de José Mário Schreiner, retirado da disputa pela vice de Daniel, sem Caiado brigar por ele. E que vai coordenar a campanha de Daniel, agora. Quer dizer: Daniel e ele se resolveram; Caiado/Gracinha e Zé Mário, ainda não.
E os embates com o grupo interno que apoia Mendanha? Viraram guerra fria, com paz de aparências, e no campo, na preferência das bases por ele e Gayer juntos.
E o que dizer de Zacharias Calil, que foi rifado por Caiado e só se manteve vivo na disputa por decisão de Daniel? Como anda seu ânimo, ele não esconde: descontente, mas em campanha.
O clima no chão da base governista está como no seriado Todo Mundo Odeia o Chris. De repente, parece que (quase) todo mundo na base quer derrotar Gracinha. Ela paga o preço de Caiado no jogo atual.
Paga o alto custo da condução das escolhas do vice e da chapa para o Senado, em especial. Nesses dois casos, o que começou bem terminou mal. Não foi por estratégia desarticulada, mas por execução desastrada.
E o custo dessa derrapada ficou para Caiado, não caiu no débito de Daniel.
Nem os coordenadores de campanha de Gracinha escapam do escrutínio negativo dos colegas de governo. Estão na linha de tiro das reclamações e das justificativas para o trabalho contra — ou mero cruzar de braços, a dizerem: se virem!
Ninguém se acha devedor de apoio. E quanto mais os apoios são cobrados, menos eles são efetivados. Ficam nas palavras em vão: vou apoiar, só que não!
Os candidatos a senador da oposição tripudiam: concentram o discurso de palanque contra Gracinha. Como se derrotá-la, e ao marido, fosse mais importante do que derrotar Daniel Vilela. Ou como uma compensação à possível e inevitável vitória dele. A vingança recai sobre Caiado.
Memes e posts contra Gracinha se espalham nas redes e nos grupos de WhatsApp. Campanha aberta negativa concentrada nela. E tudo se confunde: não se sabe se as produções partem do fogo amigo ou se são parte da artilharia pesada dos inimigos.
Resultado visual de pronto: nas redes sociais, memes e matérias negativas de Caiado e Gracinha estão trombando.
Os tiros partem de todos os lados, e sem reação à altura do lado da equipe de Gracinha/Caiado. Não há comunicação que cuide e proteja os dois.
Gracinha aumentou o volume da agenda de campanha. Mas tem ido mais aos políticos e menos ao povo. Esta semana, foi à Câmara de Goiânia. Foi falar com vereadores. Receber apoio. Enquanto isso, Mendanha estava nas ruas.
A presença de Caiado na reta final da campanha é tida como necessária, por uns, e como fundamental, por outros, os que torcem por uma solução e pela vitória de Gracinha.
Daniel Vilela cuidou de construir sua própria campanha e tem situação sólida, hoje: 1) equipe montada e estratégia de comunicação em andamento há meses; 2) ação de uma armada emedebista (equipe política) na estrutura de base; 3) posicionamento como candidato e governador.
Até agora, nada que os adversários tenham feito abalou isso. Daniel caminha firme, não corre desesperado em direção às urnas.
Os desacertos de Caiado nas entrevistas comprometem a campanha dele para presidente. Não atingem Daniel.
Mostram a fragilidade da estratégia para presidente — de comunicação e estrutural.
E revelam que ele, ao contrário de Daniel, não fez o dever de casa na preparação para a batalha da campanha nacional. Está improvisando.
Daniel Vilela governador é um candidato maior e melhor que Ronaldo Caiado presidente.
“Sabor de vitória” para o governo de Goiás não é vitória para Caiado.
Os fatos impõem a Caiado dois pontos fracos para administrar: a decepção nacional e o risco na eleição de Gracinha em Goiás.
Fazer escolhas é imprescindível. Escolhas que vão além do sonho da Presidência.
E logo. Pra ontem. No sprint da reta de chegada às urnas.
Daniel Vilela era candidato por certidão de nascimento e conseguiu sair desse paredão linguístico de ataques de aliados e adversários.
Gracinha é candidata por certidão de casamento. E Caiado não tem cartório. Nem tinta.
