No final do acirrado primeiro turno da eleição de 1994 ocorreu um episódio emblemático.
Disputavam o governo Maguito Vilela (MDB), pelo lado da situação, e Ronaldo Caiado (PFL) e Lúcia Vânia (PSDB), pela oposição.
Oposição de verdade e situação forte. Existia isso naqueles tempos, podem acreditar. E três nomes em um embate de igual para igual até as urnas.
Em um debate na associação comercial de Anápolis, Lúcia e Caiado foram questionados: o que perdesse no 1º turno, apoiaria o outro, no 2º turno?
Havia dúvida sobre quem iria. Havia dúvida até se não iriam os dois.
Caiado foi claro na resposta. Sim. Lúcia deixou em aberto.
Lúcia foi com Maguito. No 2º turno, caiadistas cruzaram os braços. Caiado não se entusiasmou, viajou.
O episódio é tido como decisivo para o resultado final: a vitória de Maguito.
Lúcia teria ido para o 2º turno, sem a resposta que deu no 1º? Caiado deixou de ir por isso? A divisão oposicionista adiou por quatro anos a derrota emedebista por uma oposição finalmente unida, em 1998?
Puxo o fato pela memória, espero não criar polêmica. Não é este o ponto aqui. A história daquele ano ainda será contada. Publicada, digo.
Lembrei disso nesse episódio da declaração de Marconi Perillo (PSDB) sobre ele e Wilder Morais (PL) terem conversado sobre apoio cruzado em eventual 2º turno. Quem ficar para trás, apoia quem for em frente.
Tem a ironia de o líder das pesquisas neste momento ser o filho de Maguito, Daniel Vilela (MDB), que busca a reeleição apoiado pelo ex, quem vem a ser Caiado, e com apoio de Lúcia Vânia.
Direto ao ponto: não é natural dois candidatos que se apresentam alinhados na oposição planejem apoio mútuo contra um inimigo comum? Mesmo que revisem os posicionamentos e escolhas depois. Faz parte.
Em 1994, Lúcia Vânia era uma candidata que dialogava bem com a esquerda, apesar de ter sido primeira-dama em um governo da era militar, o de Irapuan Costa Jr.
Caiado era o filho legítimo da Arena, sustentação da finada ditadura.
Ainda assim, estavam juntos. Juntos no campo oposicionista. Contra o MDB de Maguito e, principalmente, de Iris Rezende Machado, perseguido e cassado pelo regime que a direita louva.
O País vivia em um outro contexto, sem a polarização ideológica (deixemos assim) atual. A polarização, naquele momento, era política: oposição versus situação. Com a História como pano de fundo.
Com sua resposta em Anápolis, Lúcia pode ter mantido o eleitorado mais à esquerda, em um movimento tático estratégico no tabuleiro.
A reação de Wilder Morais ao que Marconi Perillo revelou em entrevista foi negar veementemente, em nota oficial, qualquer negociação entre eles.
Marconi não enfatizou uma negociação fechada, acordo firmado. Falou em diálogo entre os dois, que resultou nesse propósito. Algo natural, no seu entender.
A reação de Wilder é tática. Tem o cálculo do impacto da notícia sobre o seu eleitorado. E a sua campanha.
No texto da nota, estão claras duas preocupações: não passar recibo de fraqueza, e não dar brecha para Marconi avançar em sua trincheira bolsonarista já no 1º turno.
Mas… e as implicações disso no 2º turno?
Entramos em um labirinto de possibilidades. Para ele e para Marconi.
Porém outra questão entra nessa história em curso: o que ele e o tucano perdem, e o que Daniel Vilela ganha, por tabela, com a desunião dos dois.
Como Maguito pode ter ganhado, em 1994, diante da divisão na base oposicionista na hora em que a união faria a força e a diferença necessária à vitória.
Wilder poderia ter dito, simplesmente: ‘Sim, Marconi e eu conversamos e desde já conto com o apoio dele no 2º turno, porque tenho certeza de que estarei lá. E apoio a gente não recusa.’
Sem nota. Uma declaração. Um sorriso. Uma leveza de princípio e razão.
A resposta colocaria Marconi em um degrau abaixo e reverteria o potencial negativo do assunto para ativo positivo de campanha.
Só que não. Wilder deu corda e criou uma polêmica ruim para ele e para Marconi. Não matou o tema. Deu vida a uma percepção de crise. E, não se sabe, a uma crise futura de fato.
Não é algo que comprometa a eleição. Claro. Lá na frente podem se desdizer e trocar beijos. Política. Políticos.
Mas a atitude é reveladora do caráter da campanha de Wilder.
A única preocupação dele é com o bolsonarismo.
É não sair da linha. É provar ser um seguidor extremo.
Talvez sua reação imediata tenha sido de susto. Sem tática elaborada.
Porém cumpre a cartilha de uma campanha que responde (voltamos a isso) a um procedimento padrão de marketing: seguir impreterivelmente os preceitos e ditames da bolha do bolsonarismo.
Essa cartilha é a sua estratégia elaborada.
A posição sobre Marconi combina com a declaração dele no lançamento da campanha.
Ao discursar, Wilder apresentou sua linha de prioridade. Em primeiro lugar está Flávio Bolsonaro, e em 2, Goiás e os goianos. Sem nota oficial.
O susto pode ser interpretado também como uma resposta ao desgaste que pesa sobre ele no seio do bolsonarismo desde que não votou no Senado contra a indicação de Jorge Messias para o STF.
Fato que bolsonaristas não engolem, e que externam espontaneamente em conversas. E que faz crer: por voz de comando, votarão nele; por razão própria, jamais.
Basta lembrar que Wilder é candidato a governador por obra do presidente do partido, Valdemar da Costa Neto. E não por entusiasmo amplo ou unanimidade interna.
Flávio Bolsonaro e Gustavo Gayer queriam aliança com Caiado e Daniel. Chegaram a tratar disso no Palácio das Esmeraldas. Gayer não está de corpo e alma na campanha de Wilder não é por coisa pequena.
O resultado de uma eleição é decidido em episódios variados. Um acúmulo de erros e acertos decide.
Daniel Vilela olha o desacerto do outro lado e torce para que se estranhem mais. Assim como Marconi e Wilder, até há pouco tempo, olhavam para a base governista e torciam para que pegasse fogo, levando junto o favoritismo de Daniel.
A equipe de Daniel colocou um pouco de carvão na discórdia alheia, mas nem precisou fazer muito. A queimação inimiga é espontânea.
Marconi, sem querer, e Wilder, querendo, neste episódio deram uma mãozinha para a campanha de Daniel Vilela.
Em nome do pai, Maguito, o filho, Daniel, comemora, sob a proteção de Caiado e Lúcia Vânia. A História continua.
