Uma boa e uma má notícia para o governador Daniel Vilela, candidato à reeleição.
A boa. A Paraná Pesquisa divulgada dia 18 mostra que ele lidera com chance de ganhar no 1º turno. Missão difícil, mas possível.
Daniel Vilela (MDB) tem 45,8%. Marconi Perillo (PSDB), 24,9%. Wilder Morais (PL), 13,2%. Luís Cesar Bueno (PT), 2,3%. Luciana Amorim (UP), 1,1%. Danilo Pinheiro (PCO), 1%. Nenhum/branco/nulo, 6,9%. Não sabe/não opinou, 4,8%.
A má. O clima interno na disputa pelo Senado está fervendo, com forte tendência de labaredas ocasionais atingi-lo na altura do favoritismo.
Desde domingo, lançamento oficial da campanha, há um cuidado expresso de Gracinha Caiado, Vanderlan Cardoso e Gustavo Mendanha em fazer parecer que está tudo em paz, sendo que a guerra entre eles corre célere morro acima.
Veja com seus próprios olhos. Repare nas entrelinhas das respostas de Vanderlan, dia 18, e Mendanha, dia 19, na coluna Giro, de O Popular. Em sequência, sem chance de coincidência.
1
O sr. vai seguir com agenda solo na sua campanha de reeleição?
Vai depender muito do caso.
(Vanderlan) Eu não sei em qual agenda do governador que vou ser útil. E também não sei em qual eu vou conseguir me apresentar como candidato. Não compensa ir a eventos que nem na foto vou aparecer ou que nem ao menos vai ser dito o meu nome. Vou ter agenda própria e também vou em algumas com o governador.
2
Como vê a corrida pelas duas vagas do Senado na base governista?
(Mendanha) Acho que cada um vai trabalhar para se eleger, mas todos nós desejamos que o Daniel seja reeleito e continue o trabalho. É o objetivo comum que temos e vai prevalecer o respeito, vai prevalecer a harmonia entre nós (candidatos). Cada um, claro, fazendo o seu trabalho, tocando sua campanha, mas sem intrigas. Se tiver alguma coisa acontecendo para além disso, eu não faço parte.
Palavras por palavra calculada.
Vanderlan: “Não compensa ir a eventos que nem na foto vou aparecer ou que nem ao menos vai ser dito o meu nome.”
Mendanha: “…sem intrigas… Se tiver alguma coisa acontecendo… eu não faço parte.”
Precisa desenhar?
Zacharias Calil está ausente dessa lista de confrontos diretos não por esquecimento. Ele anda na muda, matutando os próximos passos. Não é chamado para juntar-se à turma da base aliada em atividades de campanha, a não ser de forma protocolar. Seu silêncio é estridente.
No domingo, aconteceu de ser barrado ao tentar pegar carona nos eventos governistas. Barrado? Convenientemente esquecido, contam os que viram a cena, sorrindo.
Gracinha viveu seu début nas tretas de campanha neste domingo, 17, com a notícia viralizada de que barrou uma primeira-dama no carro de som em que estava.
Histórias de gente empurrada de caminhonete cheia de autoridade são comuns em Goiás. Em 2002, seguranças de um candidato a deputado federal eram tirados da estrada por seguranças de outros candidatos. Cotovelada é mato na briga por espaço. Não vale o susto.
Gracinha ficou com saldo negativo porque a comunicação contra ela correu mais rápido do que a comunicação a favor. E na reação de sua equipe e de assessores do governo.
Mais sintomática foi a outra corrida, após, para explicar o fato. Justificar nunca dá boa coisa, ensinam os manuais políticos. Em vez de deixar a ferida quieta, alguém teve a gloriosa ideia de cutucá-la, esticar o assunto, jogar Merthiolate.
Inevitável: uma coisa pequena de bate-rebate de campanha, no fim das contas, apenas confirmou outra coisa maior e mais nevrálgica para uma base política com o futuro em jogo: o desacordo fratricida, desagregador, entre os candidatos a senador.
No afogadilho da gestão da crise, colocaram mais fogo. Arte de potencializar o problema, em vez de minimizá-lo, ou de abafar seus danos. Tacaram gasolina onde carecia água benta.
E outra crise poderia ter sido instalada, sacada dos bastidores. Se houve ação deliberada para desgastar Gracinha, e se tudo ocorreu em um ambiente de governistas, então cabe a pergunta: quem agiu contra Gracinha?
Passou desapercebida da imprensa a caça ao culpado. Uma caçada com espetáculo de carnificina interna transmitida ao vivo, com os oposicionistas assistindo sem tirar a mão da pipoca.
Não foi essa a intriga plantada e cozida em temperatura alta pelos adversários nas redes sociais? Outros espectadores interessados: Daniel Vilela e Caiado. Estes, sem a pipoca.
Ainda assim, na ação que teria sido articulada para atingir Gracinha Caiado, levou a culpa o aliado Gustavo Mendanha.
Mendanha e Gracinha lideraram ações conjuntas na pré-campanha. Disputam vaga de senador. Não são inimigos. Mas entre os dois está a maior fricção hoje dentro do ambiente governista.
Basta ouvir integrantes e apoiadores do governo para que se tenha notícia de contencioso entre Gustavo e Caiado.
Caiado preferiria que Gustavo não disputasse o Senado. Gustavo se ressente de acordo em que ele seria o vice de Daniel. Estão descontentes um com o outro. Vida que segue.
Mendanha vem mostrando mais cuidado em não deixar que as questões internas afetem a eleição de Daniel. O tempo todo reafirma lealdade e proximidade com o governador. Procura mostrar afinação. E elogia Gracinha, Vanderlan e Calil. Sabe que está sob fogo cruzado. Só desvia e toca sua campanha.
Caiado não passa recibo público das desavenças pra dentro. Faz política, guarda o rancor, se tem. Tudo à sua hora e tempo.
Com duas vagas em disputa, Gracinha, Mendanha, Vanderlan e Calil se comportam como se uma só estivesse à disposição dos quatro. Não olham para os lados dos outros partidos. Estão focados no confronto entre eles.
O fato de Mendanha e Calil terem espaço no eleitorado bolsonarista complica as coisas porque impacta nos posicionamentos dos outros nomes. Não lideram. Porém incomodam, pela perspectiva que inspiram e as pesquisas revelam.
Gracinha é, em princípio, o primeiro voto dentro da estratégia da base governista. Mas, com dobradinha informal entre Gustavo Mendanha e Gustavo Gayer (tema já tratado aqui neste espaço), a tensão pulsa mais forte.
Vanderlan continua candidato. Reafirma isso em público. Enquanto, nos bastidores, os próprios companheiros de governo repetem que ele está a ponto de desistir. Propaganda contra. Bombardeio.
Na Paraná Pesquisa, a ordem da disputa pelo Senado está assim:
Gracinha Caiado, 41%. Gustavo Gayer, 27,1%. Vanderlan Cardoso, 21,4%. Zacharias Calil, 19,5%. Gustavo Mendanha, 16,3%.
O fogo amigo em sua base de apoio é o maior inimigo de Daniel Vilela neste exato retrato da campanha.
O andar do caminhão e a acomodação dos ânimos são algumas das alternativas para o governador. Dar tempo ao tempo. Evitar tomar partido e se precipitar na pressa de dar solução. Correr o risco menor, de ver a labareda virar erupção.
Neste cuidado está a preocupação de que a disputa interna não afete sua liderança. Que o fogo não se espalhe. O problema é que isso incomoda Caiado, que espera mais empenho em favor de Gracinha. Cobra mais atenção, mais dedicação. Exige.
A sutileza está na agenda de Daniel, concentrada em Gracinha. O que incomoda Vanderlan mais que aos outros. Vanderlan se ressente, choraminga, enquanto Mendanha e Calil se viram.
A oposição olha a confusão na disputa pelo Senado para as bandas do governo torcendo por mais fogo no parquinho. Quanto pior o clima lá, melhor para eles.
Quanto mais ranhura na relação entre Daniel Vilela e Ronaldo Caiado, melhor. Que se explodam – sonham.
Até porque, indo ambos pelos ares, a chance de irem todos da base juntos fica maior.
A agonia de Daniel e Caiado é o êxtase de Marconi, Wilder e os outros.
