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MDB se arma para ocupar o poder na máquina de governo que hoje é de caiadistas e marconistas

As articulações do MDB para retomar o espaço decisivo no governo de Goiás e promover a troca de guarda.

ChatGPT Image 13 de ago. de 2026 14 42 14 | PortalGO
Imagem gerada por IA com fotos de: Secom-GO; Henrique Luiz, Flickr Prefeitura de Goiânia

Ocupação do governo é um assunto que não espera hora e não obedece a bom senso. Tem vida própria na guerra pelo poder.

Em Goiás, está na ordem do dia tanto dos que querem saber para se posicionar (manter, melhorar o que têm, entrar na engrenagem) quanto dos que querem se posicionar para dominar e comandar o que vai acontecer.

O que interessa: como será a próxima gestão, quem ocupará os cargos principais e de segundo escalão, quais serão os ungidos para salários altos e postos-chave no ordenamento de despesas e distribuição de funções no interior, nos municípios, no chão da fábrica, onde a vida é decidida pela pequena política.

Hoje quem comanda o governo nos escalões de base é o marconismo disfarçado. A expressão é de um velho conhecedor dos escaninhos do poder. E da história de Goiás.

Quando Ronaldo Caiado chegou ao governo, em 2018, a máquina pública estava há 20 anos sendo alimentada por um outro processo de substituição de servidores e lideranças menores, que começou em 1998. Um ato contínuo.

Em 1998 chegou ao fim a ocupação sistemática da estrutura do Estado, que começou em 1983, pelo MDB de Iris Rezende e, mais à frente, de Maguito Vilela.

Chegou ao governo a parcela mínima emedebista ligada a Henrique Santillo, pai político de Marconi Perillo, e uma leva inesperada de nomes que pertenciam à oposição fundada na Arena. Uma gente sem um líder definido, que se agarrou a Marconi, o novo governador que venceu o inimigo comum.

São os fatos, na ciência dos acontecimentos.

Ao longo dos vinte anos de Marconi no poder, o governo do Estado e a política que ainda vige nos municípios foram se moldando de tal forma que deixou de ser emedebista raiz e se embalou com a cara do que vai aqui nominado como marconismo. Uma troca de guarda do erário público. Financeiro e político.

A ascensão de Caiado foi um evento pessoal, não foi de grupo. Fruto das circunstâncias e de uma articulação histórica calculada nos interesses presentes e urgentes de Iris Rezende (MDB) e Ronaldo Caiado (filho da Arena, renomeada PFL, União Brasil, PSD).

Caiado é a oposição que venceu Iris em 98. Assim como Marconi é, Lúcia Vânia é e Nion Albernaz foi. Mas nunca foi caudatário ou construtor do marconismo, como os outros também não foram por inteiro.

Caiado participou de forma lateral da ocupação da máquina. Com poucos nomes, e que na maioria foram se desgarrando dele com o passar dos anos. Ex-amigos.

Seu grupo nunca foi grande. E sua relação com Marconi sempre foi tumultuada por discordâncias e enfrentamentos.

O ato decisivo se deu na vitória sua de 2018, que ao mesmo tempo estabeleceu Marconi como o grande derrotado político daquilo que começou como união de forças, em 1998.

Caiado venceu Marconi no tempo. Vinte anos depois de ser fundamental para elegê-lo. E venceu com o inimigo anterior, Iris.

Porque, apesar de Daniel ter sido candidato contra Caiado em 2018, Iris queria a aproximação e, em reservado, comemorou a sua vitória. Quatro anos antes, ambos já tinham feito a convergência de interesses, na eleição de Caiado ao Senado.

Mas Caiado não governou com caiadistas. Porque os caiadistas nunca passaram do seu grupo reduzido de apoiadores, o das campanhas para deputado federal e senador.

O movimento de Caiado em busca de Iris – para ter o irismo, maior que o emedebismo – é a ação tática de quem tinha um objetivo definido: chegar ao governo de Goiás, para então tentar chegar ao Palácio do Planalto, ação de agora.

Iris vislumbrava a volta do MDB ao poder. Trabalhou por isso, seu último grande feito político. Ele morreu devolvendo o MDB ao poder. Ou devolvendo Goiás aos emedebistas. Ou tomando de volta de Marconi, em um movimento histórico de vitória, após as derrotas eleitorais. Como queiram.

Decisivos para isso foram os gestos simbólicos. De um para o outro, Caiado e Iris.

Como este. Em 2014, quando Caiado já estava eleito senador e Iris amargava o gosto de outra derrota anunciada para o 2º turno de mais uma eleição contra Marconi Perillo, Caiado fincou pé ao seu lado. Grudou.

Anunciou que seria secretário de Segurança Pública caso Iris fosse eleito. Não foi. Mas Iris contabilizou: Caiado fez o que Maguito Vilela não fez: gesto político incontestável. 

Em 2016, Caiado permaneceu firme ao lado de Iris quando diversos emedebistas históricos bambearam, em apoios plácidos, envergonhados. Não foram poucos os que o largaram sozinho na chapada.

Alguns desses emedebistas e iristas bandearam de vez para o marconismo. Foram para ou continuaram no governo marconista, entronizados em outros grupos na órbita do tucano.

Ao vencer em 2018, Caiado assumiu um governo crivado de marconistas.

Cheio de apoiadores ferrenhos que estavam descontentes com o novo governador, José Eliton, e com o próprio Marconi. Que fizeram corpo mole na campanha de reeleição de Eliton. E que ajudaram a derrotá-lo nos bastidores por conveniência pessoal, de olho na ocupação imediata da estrutura de poder.

Gente adversária (para agradar Marconi), mas em boa parte identificada com o entorno de Caiado por terem estado juntos em momentos pontuais desde antes de 1998, e que resolveu apostar em Caiado. Gente que não venceu propriamente com ele, mas que então passou a governar junto.

O discurso de chegada de Caiado ao governo foi outro. Pregou a mudança total, devolver Goiás aos goianos. Mas quem governou com ele foram basicamente os marconistas nos escalões inferiores. O secretariado nem goiano se fez. Foi um ensaio de ministério para um sonho de Presidência.

Na prática, marconistas conhecidos permaneceram na estrutura de poder, em outros cargos, em funções menores inicialmente. Não houve substituição relevante.

Setores inteiros do governo, que cuidavam da vida diária do governador, por exemplo, permaneceram iguais. Intocados. Mais para convertidos, por não terem sido substituídos. Convertidos em parte.

Quem nunca entrou de verdade no governo de Caiado foi o MDB. Nem depois de 2022, com a aliança fechada e a vice dada a Daniel Vilela, presidente estadual do partido.

Procure um nome de peso do emedebismo ou do irismo em função de relevância na gestão de Caiado e você não encontrará. No máximo, achará um expoente no segundo ou terceiro escalões. Esvaziado de poder.

Nem Daniel emplacou quem quis no governo enquanto Caiado mandava.

Essa ocupação de poder ocorrerá agora, em se confirmando a vitória do governador efetivado em abril. O MDB está fora. Vai pra dentro da máquina do Estado. Já começou a entrar.

A vitória de Daniel será a ocupação do governo de Goiás pelo MDB depois de 28 anos.

Os que estão na estrutura da máquina estatal, chamados e nomeados por Caiado, não fazem parte necessariamente dos planos de quem está chegando. Quem chega, quer mandar. Comandar a festa. E os escaninhos.

O MDB de Daniel está naturalmente pronto para assumir o poder em Goiás.

A troca de guarda, que os bastidores apontam desde já, será intensa. E imediata. Não será feita no longo prazo, como ocorreu com Marconi.

Isso explica em parte Daniel não aceitar na sua vice um caiadista. Um nome amarrado a Caiado é um cordão umbilical de compromisso político capaz de travar os passos seguintes à eleição de outubro.

Significaria manter em secretarias, superintendências e diretorias nomes que não fazem parte da nova guarda eleita. Espaços ocupados por não-aliados confiáveis que poderiam muito bem servir para os que chegam, os afinados com a nova ordem.

Lógica política elementar de tomada definitiva de poder. Que vale para todos.

A Marconi interessa derrotar Caiado e Daniel, voltar ao poder para restabelecer os poderes localizados dos seus.

Os mais chegados a ele também estão sedentos de máquina, depois do hiato caiadista. Os mais chegados, neste caso. Aqueles criados e alimentados no seu entorno, que deixaram secretarias e presidências de empresas estatais, e sonham com a caneta, a vingança, a luz.

Os outros que já estão lá, dividindo atenção com o que era Caiado, aguardam, na ilusão da esperteza, ajudando os dois lados.

Estão com um pé na fé e ilusão de permanecerem no próximo governo de Daniel, e com outro na campanha e na expectativa da volta de Marconi.

O que Daniel sabe, e que mais razão lhe dá para a substituição dos ocupantes do governo caso confirme novo mandato. Uma coisa justificando a outra. Motivando. Levando. Sacramentando.

A Wilder Morais (PL) interessa chegar ao governo. E usufruir das benesses do poder. Ele não é anti-Caiado, como não é pró-emedebismo. Wilder é ele e o bolsonarismo com suas peculiaridades.

Sua vice, Ana Paula Rezende, no entanto, é emedebismo na veia. Só que o irista. O daqueles que ficaram fora do poder com Caiado, com Sandro Mabel, na Prefeitura de Goiânia, e que não veem oportunidade garantida com Daniel.

Não há certo ou errado nessa história. Não há julgamento de vícios e virtudes a ser feito. Com poder não se brinca, no pragmatismo da política, ensinam os livros e manuais. O poder você toma, ou lhe é tomado.

A guerra eleitoral em curso no Estado vai além da disputa entre Daniel, Marconi e Wilder, os protagonistas em campanha.

O que ocorre é uma disputa por cargos, contratos, nomeações de comissionados desde secretarias até chefias em postos de saúde e transferências de policiais e professores.

O futuro em debate é menos o do povo de Goiás e mais o do povo que faz a política funcionar no chão da fábrica.

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