Na movimentação pós-queda de braço para definir o vice, o governador Daniel Vilela e o ex, Ronaldo Caiado, se mexem para juntar a base e seguir em frente. Mas esbarram na disputa interna para senador.
O compromisso de eleição da ex-primeira-dama Gracinha foi a contrapartida dada por Daniel a Caiado. Todos por ela. Só que nem todos estão com ela. O clima esquenta.
Daniel mostra serviço casando de forma mais intensa a sua campanha com a de Gracinha. As agendas dos dois batem, conversam. O material de campanha junta os dois como não junta com os outros.
Na prática e no visual, a ordem é não haver dúvida da ligação e da decisão de elegê-la senadora. Só que a base precisa ‘comprar’ a ideia para que ela seja materializada.
Foi nesse tom que o primeiro dia oficial de campanha desafinou, com a tensão de bastidores vindo à tona de forma clara, em um episódio pequeno, porém sintomático.
Ao barrar a presença da esposa do prefeito de Novo Gama no carro de som onde estava, Gracinha jogou contra ela própria. E deu sinais de comportamento que incomodaram aliados.
De imediato, prefeito e primeira-dama foram bandeirar no carro de Gustavo Mendanha. Depois, o caso ganhou as redes sociais com vídeo e fatos contados na velocidade da fofoca do fogo amigo. E foi para o WhatsApp do fogo amigo, espalhado em grupos variados.
Já em andamento, a desconstrução das candidaturas de Gustavo Mendanha e Zacharias Calil segue roteiro indefectível, puxado como tiro de contenção de danos em favor da candidatura de Gracinha.
Fugir a isso é dar ao adversário uma oportunidade de ouro. O que Gracinha fez.
Pela estratégia em curso, Zacharias será tratado com indiferença. Esvaziamento total. Vanderlan Cardoso ficará ao ‘deus-dará’, que se vire. Com Mendanha, a preocupação e o foco são maiores. Mais intensos.
Ele e Gustavo Gayer, o candidato a senador do PL, mantêm boa relação, e caminham juntos na busca por votos. Têm casado agenda e público.
Mendanha mantém boa entrada no eleitorado bolsonarista. E o aval de Gayer amplia essa troca de gentilezas bem interessadas.
Não é o único candidato proporcional da base do governo fazendo campanha casada com Gayer pelas mesmas razões. E mais aliados se apresentam para essa dobradinha informal. Mas é o mais orgânico.
Pesquisas mostram Mendanha bem posicionado, em curva de crescimento. E com retorno no eleitorado de primeiro voto, antes com tendência para Gracinha.
O cálculo frio de governistas: Mendanha tira votos de Gracinha, desvia o seu segundo voto para Gayer e leva de brinde o bolsonarismo para sua cabine de votação.
E tudo acontece no instante em que Caiado parte para cima de Flávio Bolsonaro, com críticas e palavras de ordem. E em que Gracinha faz o mesmo, para defender e promover o marido.
Mendanha joga para ganhar o eleitor bolsonarista, enquanto Gracinha joga para perdê-lo.
Retirar uma primeira-dama municipal de carro de som no primeiro dia de campanha só piora as coisas.
Mendanha fica com parte do primeiro voto da base governista enquanto Caiado é confrontado por seus aliados em ação que, nos bastidores, foi inicialmente estimulada por Daniel para que pudesse fechar questão em Luiz do Carmo como seu vice.
O esforço do governador é justamente para reverter o efeito colateral desse movimento de jogo de tabuleiro. E recolocar Gracinha no centro da militância governista, para que ela seja o voto principal de todos. Todos por ela.
Mendanha é uma pedra no sapato de Caiado desde que decidiu ser candidato a senador, aumentando para quatro o número de (pré) candidatos. Dificultou retirar o nome de Zacharias. E virou ameaça para a eleição de Gracinha.
O problema fica maior com os dias. Quanto mais Mendanha apanha, mais cresce internamente a percepção de que pode ficar com uma das duas vagas.
Crescem não na direção de dobradinha Gracinha-Mendanha. E sim como chapa natural Mendanha-Gayer. O que preocupa Daniel em outra medida. Faz a vitória em 1º turno ser uma necessidade urgente. Vida ou morte.
Semana passada, o assunto surgiu em conversas reservadas de governistas. Chegou aos nervos dos gerentes de gestão da militância.
Segundo esse pessoal, que está em contato direto com as ruas Goiás adentro, a base aliada está desalinhada e cega por bitola. “Erro de cálculo”, definem, com ênfase, sem espaço sequer a um sutil “equívoco estratégico”.
Mas quem vai avisar a torre de comando? Quem levará a mensagem aos donos da razão?
