Há uma pergunta anterior à disputa entre candidatos nas eleições de 2026: quanto da sociedade estará realmente acompanhando essa disputa antes que seja obrigada a decidir?
O eleitor que acompanha política diariamente conhece pesquisas, reage aos acontecimentos da campanha e discute estratégias eleitorais convive com outro que passa semanas, às vezes meses, quase alheio ao processo. Ambos votarão no mesmo dia. Não necessariamente formarão suas escolhas no mesmo tempo.
Esse descompasso talvez seja uma das chaves para compreender a próxima eleição.
Os eleitores não entram simultaneamente no processo de formação do voto.
Alguns chegam cedo à campanha. Outros entram quando ela já está avançada. Há ainda aqueles que somente começam a prestar atenção quando a decisão se torna difícil de adiar.
Isso não é simplesmente apatia. Rejeição à política, fadiga, baixa informação e decisão eleitoral tardia são coisas diferentes. Um cidadão pode estar cansado da polarização e continuar preocupado com os problemas públicos. Pode evitar acompanhar a campanha durante meses e, ainda assim, comparecer às urnas quando chega a hora de escolher.
A questão interessante, portanto, não é saber se o eleitor brasileiro se tornou apático. É compreender o que acontece quando parcelas diferentes do eleitorado entram na eleição em momentos diferentes.
Não prestar atenção também pode ser racional
Anthony Downs ofereceu uma das chaves clássicas para entender esse comportamento. Em An Economic Theory of Democracy, mostrou que adquirir informação política custa tempo e esforço. Acompanhar candidatos, conhecer propostas, interpretar a economia e avaliar governos exige dedicação, enquanto a capacidade de um voto isolado alterar o resultado de uma eleição nacional é mínima. É daí que vem a conhecida discussão sobre ignorância racional.
O cidadão não precisa conhecer tudo para conseguir decidir. Pode avaliar retrospectivamente um governo, observar a situação econômica, recorrer a identidades políticas, considerar a reputação dos candidatos ou confiar parcialmente na opinião de pessoas próximas. Há alguma proximidade aqui com a lógica do free rider de Mancur Olson1, embora seu objeto fosse outro: parte da informação que um eleitor utiliza foi adquirida, organizada e interpretada por outras pessoas.
O ambiente digital tornou essa economia de atenção ainda mais importante. Herbert Simon percebeu, muito antes das redes sociais, que a abundância de informação produz escassez daquilo que ela consome: atenção. Hoje, uma entrevista presidencial disputa espaço, na mesma tela, com trabalho, mensagens familiares, futebol, entretenimento e uma sucessão quase infinita de estímulos. Nunca houve tanta informação política disponível. E talvez nunca tenha sido tão fácil evitá-la.
O eleitor pode afastar-se da campanha não porque lhe falte informação, mas porque há informação demais competindo por atenção limitada. Selecionar, ignorar e adiar tornam-se formas de economia cognitiva.
Enquanto não houver necessidade de escolher, parte dos cidadãos simplesmente não escolhe.

A eleição não começa no mesmo dia para todos
Podemos chamar esse fenômeno de assincronia eleitoral. A eleição ocorre na mesma data para todos, mas não começa no mesmo momento para todos.
O eleitor altamente atento acompanha a disputa durante meses. Observa alianças, entrevistas, pesquisas e movimentos das campanhas. Outro começa a prestar atenção quando a propaganda ganha visibilidade. Um terceiro só entra de fato na eleição quando o assunto passa a aparecer com frequência na família, no trabalho ou nos grupos de mensagens. Para alguns, a campanha dura meses. Para outros, poucas semanas.
Isso muda até a maneira como pensamos o indeciso. Costumamos imaginá-lo dividido entre candidatos, comparando propostas e aguardando novas informações. Mas parte dos indecisos pode simplesmente ainda não ter considerado a escolha urgente o bastante para resolvê-la. Não existe necessariamente longa hesitação. Existe decisão postergada.
Patrick Fournier e seus colaboradores estudaram justamente o momento da decisão eleitoral e sua relação com efeitos de campanha. Encontraram evidências de que eleitores que decidem durante a campanha apresentam maior volatilidade e podem responder de maneira mais intensa a acontecimentos e informações produzidos ao longo da própria disputa. O estudo foi realizado no contexto canadense, mas reforça uma distinção útil: o momento em que a preferência se consolida também faz parte do comportamento eleitoral.
Quando a escolha finalmente se torna inevitável, o eleitor tardio precisa processar em pouco tempo uma campanha que outros acompanharam durante meses. Surge uma compressão temporal da decisão. Quem parece competitivo? Como está a economia? Quem foi melhor no debate? O que as pessoas próximas estão dizendo?
O eleitor tardio dificilmente reconstruirá toda a campanha. Ele receberá seu saldo.
Por isso, duas intenções de voto aparentemente idênticas podem representar situações muito diferentes. Uma pode expressar preferência consolidada há anos. Outra pode ser uma resposta provisória de alguém que começou a pensar seriamente na eleição naquela semana.
Saber em quem alguém pretende votar importa. Saber há quanto tempo, com que certeza e com que estabilidade acrescenta uma dimensão que o percentual agregado nem sempre mostra.
A campanha que chega pelos outros
Quem chega tarde também recorre mais à informação que já está disponível ao redor. E boa parte dela chega selecionada, resumida e interpretada por outras pessoas.
É aqui que os estudos clássicos de comunicação política continuam úteis. Em The People’s Choice, Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet chamaram a atenção para a importância das relações interpessoais na formação das preferências eleitorais. Katz e Lazarsfeld desenvolveriam posteriormente, em Personal Influence, a hipótese do two-step flow: a comunicação política não precisa viajar diretamente dos meios de massa para cada cidadão. Parte dela passa por pessoas mais atentas, que recebem, interpretam e retransmitem informações.
As redes sociais tornaram esse processo mais complexo. Estudos contemporâneos mostram que mídia tradicional e mídias sociais podem atuar conjuntamente na formação de percepções e preferências, em fluxos comunicacionais mais variados do que o modelo original sugeria.
O intermediário contemporâneo também não precisa ser jornalista, dirigente partidário ou grande influenciador. Pode ser apenas aquela pessoa da família, do trabalho ou do círculo de amigos que acompanha política com mais atenção e a quem os outros recorrem quando querem entender rapidamente o que aconteceu.
O eleitor de baixa atenção não acompanha necessariamente o candidato. Pode acompanhar alguém que acompanhou o candidato.
Esse intermediário não retransmite a campanha inteira. Uma entrevista de uma hora vira uma frase. Um debate inteiro pode se resumir a “fulano foi bem”. Uma sequência de pesquisas se transforma em “ele está crescendo”. Uma discussão econômica complexa chega como uma percepção simples de melhora ou piora.
O eleitor tardio, portanto, não recebe apenas menos tempo para decidir. Ele recebe também uma campanha já parcialmente processada por outros.
Isso não significa passividade. Ele pode discordar do amigo, desconfiar do familiar ou receber interpretações concorrentes. A influência interpessoal pode ocorrer antes do voto propriamente dito, ajudando a definir quais acontecimentos parecem importantes, quais candidatos parecem competitivos e quais interpretações permanecem disponíveis quando chega a hora da escolha.
É nesse sentido que se forma um ambiente informacional. Quem começa a prestar atenção tarde não encontra todos os fatos e argumentos igualmente disponíveis. Encontra uma seleção produzida pela campanha, pela mídia, pelas plataformas e pelas pessoas com quem convive.
O precursor do ambiente informacional
Não devemos imaginar que os eleitores mais atentos saibam antecipadamente como os menos atentos votarão. O fato de determinado movimento aparecer primeiro entre cidadãos politicamente interessados não significa que os demais necessariamente caminharão na mesma direção.
A hipótese é mais modesta e, justamente por isso, mais interessante. Quem presta atenção antes começa antes a selecionar acontecimentos, formar interpretações e conversar sobre a eleição. Parte dessas interpretações poderá chegar depois a pessoas que ainda não consolidaram suas escolhas.
O eleitor mais atento pode ser menos um profeta do voto futuro do que um precursor do ambiente informacional futuro.
Ele pode influenciar sem converter. Não precisa convencer um colega a votar em seu candidato. Pode ajudar a tornar determinado nome inviável aos olhos do grupo, fazer com que uma questão econômica ganhe importância ou manter um episódio vivo quando outros já desapareceram. A influência sobre o voto é apenas uma possibilidade. Antes dela existe influência sobre o ambiente dentro do qual o voto será pensado.
Quando os diferentes tempos se encontram
É na reta final que esses tempos políticos começam a convergir. O eleitor mais atento viveu uma campanha de meses. O eleitor de baixa atenção pode viver uma campanha de poucas semanas. Quando finalmente precisa decidir, dispõe de menos tempo para acumular informação própria e tende a valorizar mais os atalhos disponíveis.
Competitividade, avaliação econômica, acontecimentos recentes e opiniões de pessoas próximas oferecem formas rápidas de reduzir o custo da decisão. Isso não significa presumir um efeito manada universal. A mesma informação social pode produzir adesão, rejeição, voto estratégico ou nenhuma mudança. O ponto é outro:
quanto menor o investimento anterior em informação, maior pode ser a utilidade do ambiente imediato quando a escolha se torna necessária.
A eleição ocorre na mesma data para todos, mas não começa no mesmo momento para todos. E aqueles que chegam antes ajudam, em alguma medida, a produzir o saldo que será recebido pelos que chegam depois.
Talvez, portanto, a pergunta mais interessante sobre o eleitor tardio de 2026 não seja apenas em quem ele votará quando finalmente prestar atenção, mas quem, até lá, terá conquistado sua confiança para explicar a eleição.
Referências e leituras
DOWNS, Anthony. An Economic Theory of Democracy. New York: Harper & Row, 1957.
FOURNIER, Patrick; NADEAU, Richard; BLAIS, André; GIDENGIL, Elisabeth; NEVITTE, Neil. “Time-of-voting decision and susceptibility to campaign effects”. Electoral Studies, v. 23, n. 4, p. 661–681, 2004.
KATZ, Elihu; LAZARSFELD, Paul F. Personal Influence: The Part Played by People in the Flow of Mass Communications. Glencoe: The Free Press, 1955.
KLEINNIJENHUIS, Jan; VAN HOOF, Anita M. J.; VAN ATTEVELDT, Wouter. “The Combined Effects of Mass Media and Social Media on Political Perceptions and Preferences”. Journal of Communication, v. 69, n. 6, p. 650–673, 2019.
LAZARSFELD, Paul F.; BERELSON, Bernard; GAUDET, Hazel. The People’s Choice: How the Voter Makes Up His Mind in a Presidential Campaign. New York: Duell, Sloan and Pearce, 1944.
OLSON, Mancur. The Logic of Collective Action: Public Goods and the Theory of Groups. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1965.
SIMON, Herbert A. “Designing Organizations for an Information-Rich World”. In: GREENBERGER, Martin (ed.). Computers, Communications, and the Public Interest. Baltimore: Johns Hopkins Press, 1971, p. 37–72.
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