
Augusto Cury parece ser, até aqui, o fato novo da eleição presidencial. O salto de 2% para 11% na pesquisa da BTG Nexus, publicada em 31 de agosto de 2026, naturalmente chama atenção, mas talvez o dado mais interessante sejam os 8% alcançados na espontânea. Quando o eleitor menciona um candidato sem ouvir seu nome em uma lista, significa que aquele nome já entrou de fato na disputa. Isso não garante que o crescimento seja permanente, claro, mas mostra que Cury deixou de ser apenas uma candidatura periférica.
A pergunta mais interessante, então, não é simplesmente quanto Cury cresceu, mas quem está votando nele. Os dados mostram um eleitor mais jovem, mais escolarizado e com desempenho um pouco melhor entre as mulheres. Entre os eleitores de 16 a 24 anos, por exemplo, Cury chega a 22%. Mas é no comportamento político que aparece a característica mais importante desse público.
Ele parece menos definido por uma posição ideológica de centro e mais por um desconforto com os dois polos que dominaram a política brasileira nos últimos anos.
O espaço que Cury encontrou
Há uma parcela do eleitorado que não gosta de Lula, ou que está insatisfeita com seu governo, mas que também não quer transformar automaticamente essa rejeição em voto na família Bolsonaro. Cury parece ter encontrado exatamente esse espaço. Ele vai bem entre quem rejeita Lula e Bolsonaro ao mesmo tempo e, principalmente, entre os eleitores que enxergam Bolsonaro como uma alternativa, mas não como uma identidade política. Nesse grupo, Cury chega muito perto de Flávio Bolsonaro.

O voto em Cury é especialmente forte entre os mais jovens e cresce com a escolaridade.
Isso ajuda a entender por que talvez seja impreciso chamar esse eleitor simplesmente de moderado. Ele pode até ser moderado em alguns temas, mas a pesquisa não mede isso. Parte dele pode estar claramente à direita, ser fortemente crítica a Lula e ainda assim não se considerar bolsonarista.
O que parece unir esse público é menos uma posição centrista e mais a disposição de procurar uma saída para a escolha entre os dois polos.
Essa distinção pode ser uma das coisas mais interessantes reveladas pela pesquisa. Durante muito tempo, antipetismo e bolsonarismo caminharam quase juntos eleitoralmente. Mas nunca foram a mesma coisa. Cury talvez esteja mostrando que existe um eleitor anti-Lula que não quer, pelo menos no primeiro turno, ser obrigado a votar em Bolsonaro.

Entre os eleitores que veem Bolsonaro como alternativa, mas não como identidade, Cury praticamente empata com Flávio.
O problema que ele cria para Flávio
Isso também explica por que o crescimento de Cury parece incomodar mais Flávio Bolsonaro do que Lula no primeiro turno. Lula também perde espaço, evidentemente. Mas Flávio enfrenta um problema adicional: para vencer a eleição, precisa crescer para além do eleitor bolsonarista mais fiel. E é justamente nessa faixa mais disponível do eleitorado que Cury aparece com força.
O núcleo bolsonarista não parece ter se desfeito. O que Cury está disputando é a periferia desse campo, aquela pessoa que poderia votar em Flávio, mas que não tem com o bolsonarismo uma relação de identidade ou lealdade. Por isso, mais do que retirar votos do núcleo de Flávio, Cury pode estar bloqueando parte de sua expansão.
A comparação entre as duas rodadas reforça essa leitura, embora seja preciso algum cuidado. Enquanto Cury sobe nove pontos, Flávio recua quatro, Lula perde dois, Zema também perde espaço e diminuem os votos em branco e nulo. Como se trata de amostras diferentes, não dá para dizer que cada ponto perdido foi diretamente para Cury. Ainda assim, os cruzamentos mostram que sua candidatura avançou justamente entre eleitores que estavam disponíveis fora das bases mais cristalizadas.
Há outro dado interessante. Quando Pablo Marçal aparece no cenário, com 6%, Cury mantém seus 11%. É cedo para falar em uma base consolidada, mas isso sugere que seu eleitor não está simplesmente escolhendo qualquer nome que apareça fora da polarização. Há alguma coisa específica em Cury que está funcionando, seja sua imagem anterior como escritor, seja a maneira como passou a ser percebido durante a campanha.
O segundo turno, porém, muda bastante a história. Quando seus eleitores precisam escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro, 50% dizem que votariam em Flávio, 23% em Lula e 27% preferem branco, nulo ou nenhum dos dois. Ou seja, o eleitor de Cury não está igualmente distante dos dois campos. Quando sua primeira opção desaparece, há uma inclinação clara em direção a Flávio.

Cury dificulta a expansão de Flávio no primeiro turno, mas seu eleitorado se inclina claramente para ele no segundo.
É uma situação curiosa. Cury atrapalha Flávio no primeiro turno justamente porque ocupa um eleitorado que poderia estar com ele. No segundo turno, porém, boa parte desse mesmo eleitor volta para o campo da oposição.
Isso reforça a ideia de que estamos olhando menos para um eleitor de centro e mais para um eleitor que rejeita Lula, mas não se identifica imediatamente com o bolsonarismo.
Agora começa a parte difícil
O desafio para Cury é transformar esse crescimento rápido em algo mais estável. Seu eleitor ainda é consideravelmente mais volátil do que o de Lula e o de Flávio. Cerca de 39% dizem que ainda podem mudar de voto. Por outro lado, 59% já afirmam que sua decisão está tomada. Para uma candidatura que cresceu tão depressa, ter praticamente seis em cada dez eleitores dizendo que não pretendem mudar não é pouca coisa.

O eleitor de Cury ainda é mais volátil: 59% dizem estar decididos, contra 85% entre os eleitores de Lula e Flávio.
Até aqui, Cury pôde usufruir das vantagens de ser novidade. A partir de agora, a situação muda. Com dois dígitos, passa a incomodar os demais candidatos, ganha mais exposição e também mais escrutínio. Virão questionamentos sobre suas propostas, sua trajetória, suas alianças e tentativas de associá-lo a um dos dois campos que parte de seu eleitorado justamente procura evitar.
É por isso que eu prestaria menos atenção a uma oscilação de um ou dois pontos na próxima pesquisa e mais ao comportamento desse eleitor. Se Cury continuar forte entre os mais jovens e escolarizados, preservar sua atração sobre o anti-Lula não bolsonarista e aumentar a certeza de voto de sua base, aí estaremos diante de algo mais duradouro.
Nesse caso, o fato novo talvez não seja apenas Augusto Cury. Pode ser a descoberta de que existe um eleitorado relevante entre o antipetismo e o bolsonarismo que, até agora, simplesmente não tinha onde colocar o voto.
Perguntas rápidas sobre Augusto Cury
Augusto Cury parece ser o fato novo desta eleição. Quem é o eleitor de Augusto Cury?
É um eleitor mais jovem, mais escolarizado e pouco identificado com os dois polos. Politicamente, parece haver uma presença importante de pessoas críticas a Lula, mas que não assumem uma identidade bolsonarista. É alguém que pode votar em Flávio Bolsonaro, mas prefere outra opção enquanto ela estiver disponível.
Qual é o impacto de Augusto Cury no quadro geral da eleição presidencial?
No primeiro turno, Cury dificulta principalmente a expansão de Flávio Bolsonaro para além de sua base mais fiel, embora também retire espaço de Lula e de outros candidatos. No segundo turno, porém, seu eleitorado tende mais para Flávio do que para Lula.
Cury está tirando mais votos de Lula ou de Flávio Bolsonaro?
Não é possível medir uma transferência direta apenas comparando pesquisas sucessivas, mas os cruzamentos indicam que Cury avançou especialmente sobre o eleitor disponível à direita, aquele que poderia votar em Flávio sem ser um bolsonarista convicto. Politicamente, portanto, o problema parece maior para Flávio.
Esse crescimento pode se sustentar?
Essa é a grande dúvida. O eleitor de Cury ainda é mais volátil do que o de Lula ou Flávio, mas 59% já dizem ter decisão tomada. Se esse número crescer nas próximas rodadas e Cury mantiver seus principais grupos de apoio, será cada vez mais difícil tratar sua candidatura apenas como uma onda passageira.
