Aviso de saída para não acharem que este texto é uma repetição do anterior, sobre as agruras de Ronaldo Caiado (PSD) na eleição para presidente.
Ele apenas continua a história da divergência na base governista que afeta diretamente Caiado, Gracinha Caiado (União Brasil) e Gustavo Mendanha (PRD) – entre outros da base governista.
Com um capítulo adicional. Inclui uma nova contenda, que beneficia a candidatura à reeleição do governador Daniel Vilela (MDB). Ela envolve outro candidato ao governo, Wilder Morais, e o prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, ambos do PL.
(Links no final.)
1
Do dia para a noite, Gracinha e Wilder foram para cima de adversários que até anteontem eram aliados, e com os quais foram acumulando desilusão e tropeços. Não atiraram, simplesmente. Jogaram bomba. E pode ter sido para cima, com efeito de autodestruição.
Gracinha deu entrevista ao jornalista Thiago Mendes, na TV Sucesso Band, e abriu o coração. Acusou nominalmente Gustavo Mendanha (PRD), candidato a senador, como ela, de trabalhar contra sua candidatura. Disse isso com palavras duras. E repetiu tudo em novas entrevistas. Reincidente. Acusou-o de covarde.
Gracinha não tira o nome de Mendanha da mídia. Passa ideia de receio. Bom pra Mendanha, que precisa justamente de divulgação e perspectiva de vitória.
2
Uma visão entre estrategistas é que eleição para o Senado mantém-se aberta até bem próximo das urnas. A decisão de voto é construída na pré-campanha e na campanha. Mas o martelo do voto é batido próximo. A exposição favorece Mendanha no exato período em que ele mais precisa.
Gracinha traz para a superfície uma guerra entre os dois que já era percebida nos bastidores, porém mantida estanque. Ela faz a antítese da sabedoria histórica, que ensina que política é bico calado e pé ligeiro.
Abre as comportas do lago, para o rio corrente. Acusa o golpe. E anuncia aos que torcem contra ela (e Caiado): se quiserem me incomodar e me derrotar, o caminho é Mendanha.
Basta apostar e promover, por exemplo, a dobradinha Mendanha + Gayer (PL) para o Senado. Dobradinha de Gustavos que, no bolsonarismo, já tem mote e imagem: Movimento Gu-Gu. E que abre espaço dentro do seio governista. Retroalimentando o incômodo que provocou a reação pública agora.
3
Gracinha faz isso bem no momento em que se intensifica a ação interna contra a campanha dela, por reação a decisões recentes do marido. Justo quando o marido enfrenta o pior momento em sua campanha para presidente da República. E no dia em que sai pesquisa animadora para ela e Daniel.
Nova Quaest divulgada nesta quinta, 27, crava, para o Senado: Gracinha 21%, Gayer 12%, Vanderlan Cardoso (PSD) e Zacharias Calil (UB) 9%, Gustavo Mendanha 6%, Isaura Lemos (PSB) e Oséias Varão (PL) 3%, e os outros juntos 3%. Para o governo: Daniel 37%, Marconi 20%, Wilder 12%, Luis César 4%, indecisos 20%.
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Gracinha dá causa e motivação aos adversários externos e internos para pregarem voto contrário a ela. Para promoverem mais discórdia (como se precisasse) dentro da base governista e entre Caiado e Daniel Vilela. A não ser que seja este o ponto. Sopitar para estancar. Uma aposta estratégica suicida no fogo contra fogo.
Qualquer que seja o foco, ela eleva o potencial eleitoral interno de Mendanha, em vez de diminuir. E atira em um alvo torto, não no centro do problema.
5
Quem está contrariado com Caiado e, por extensão, com ela, é um universo maior de governistas. Mendanha não é o principal. E contrariados por razões próprias, certas ou incertas segundo a cabeça de cada um. Critério fluido dos interesses pessoais.
O que leva ao fato: os materiais que a atacam não são balas de um só. Não são tiros de Mendanha. É artilharia variada, que parte de várias pontas aliadas – e da oposição, naturalmente. Gracinha é alvo aberto. Achar que é alvo de um só, apenas deixa a guarda vulnerável ao fogo que pode ser fatal.
Isso é política. Sem gênero. Na prática. Sem discurso. Está assentada no saldo das ações passadas e recentes.
São a consequência de decisões que contrariaram grupos diversos que se ressentem, entre outras coisas, de “dívidas de gratidão”, vistas em verdade como cobrança indevida.
6
A base governista está em convulsão. Unida em torno de Daniel Vilela, mas agitada em relação a Caiado. É nesse caos que as vitórias terão de ser construídas. Ou que as derrotas serão amarradas.
Exigir ordem renhida e paz de campanha a aliados é chamar o fogo amigo para a briga.
7
A resposta de Mendanha a Gracinha foi em sentido contrário ao ataque que sofreu por razão política calculada. Ele colocou panos quentes. Procurou por juízo na mesa, ao citar as várias eleições que disputou.
Apresentou a carteira da maturidade política, experiência, em contraponto ao bombardeio. Optou por alertar sobre a abrangência dos ataques. O leque amplo de inimigos agindo pela cizânia. Sim ou não, ele fica no lucro na medida da reação dela.
Mendanha não tem mais o que fazer. Já está fazendo. Campanha. Com ajuda de Gracinha, melhor ainda.
Deu o caminho para a conciliação, embora nada precise fazer particularmente a não ser colher os frutos da campanha que Gracinha passou a fazer para ele.
8
O candidato Wilder Morais ajuda o governador Daniel Vilela (MDB) com o mesmo movimento de providencial ajuda na reeleição.
Iniciar um processo de expulsão do prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa, em pleno início dos programas eleitorais gratuitos, a 45 dias da ida dos eleitores às urnas, é jogar poeira nos próprios olhos.
Em vez de ter que reagir ao candidato Daniel, Wilder terá de se ver com o ex-companheiro Márcio. E Márcio já deixou claro que quer o embate. Topa a acareação.
9
Quem traiu quem?
Ele, ao ser leal ao grupo de onde emergiu, o MDB? Porque ele estava no MDB, era suplente de deputado federal. E o PL, em ato que julgou de esperteza, foi lá e o capturou para ser o seu candidato a prefeito na cidade.
Wilder levou o corpo, não converteu a alma. E agora, paga o preço. Márcio apoiará Gayer (senador), Major Vitor Hugo (deputado federal) e Flávio Bolsonaro (presidente). Todos bolsonaristas. Excluiu Wilder. Traidor?
Ou quem traiu foi Wilder, que votou com o PT? Lembrando a não-votação de Wilder na sessão que impediu a ida de Jorge Messias para o STF, questionou: “Onde estava o senador quando fugiu da votação contra Messias?”
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Gustavo Mendanha e Daniel Vilela ganham reforços de campanha providenciais. Parabéns aos marqueteiros e orientadores políticos de Gracinha e Wilder. Fizeram bem o trabalho que os adversários queriam, e que nem precisaram pedir a Deus.
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Já o risco para Daniel, de a situação com Gracinha sobrar pra ele, existe. Mas ele só será contaminado se vacilar. Se entrar no meio da confusão sem escudo e sem a proteção do jogo de cintura. Se ele e Caiado forem para a luta corporal. E se matarem.
Para os governistas que torcem pela derrota de Gracinha, a situação é um prato cheio. Estimula as ações tímidas contra.
Para Caiado, o peso é maior. Com a tensão nacional de sua campanha, como dar atenção estadual à campanha de Gracinha? Como segurar as ranhuras na sua base aliada, que escapam ao seu controle a cada dia?
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Marconi Perillo olha tudo com sorriso no rosto. Há aí uma tempestade perfeita para reforçar o discurso de que ele tem a experiência e a maturidade necessária a este momento em que, dos outros lados, só prospera a discórdia e o distúrbio político.
O mesmo faria Luis Cesar Bueno. E talvez faça, no discurso. Sua estratégia não está centrada aí, mas também está aberto um trieiro de capim batido para andar.
No mínimo, reforça as contradições na base caiadista. Alimenta a ideia de fracasso nacional e em Goiás. Cria problemas para um incômodo adversário de Lula. Cumpre sua missão.
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Gracinha e Wilder estão se derrotando. Como ensinam os chineses, quando o inimigo está errando, melhor não atrapalhar. Daniel não é chinês. Mas já esteve na China. Sabe negociar com as falhas do inimigo externo e interno. Tem hora que não fazer nada é fazer o necessário.
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