As principais sociedades de cardiologia do mundo reorganizaram a forma de definir e classificar o infarto do miocárdio. A 5ª Definição Universal, publicada nesta sexta-feira (28), aposenta a antiga divisão em tipos 1, 2, 3, 4 e 5 e passa a agrupar os casos pela origem do problema.
O documento foi elaborado em conjunto pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela World Heart Federation (WHF). Participaram especialistas de 12 países e cinco continentes.
Os casos agora são distribuídos em três grandes grupos. O infarto primário nasce em uma alteração aguda da própria artéria coronária. O secundário aparece quando outra doença desequilibra a relação entre o oxigênio que chega ao coração e o que ele precisa. O relacionado a procedimento surge como complicação de uma intervenção cardíaca.
A nova definição mantém a troponina como marcador central, mas deixa claro que ela não fecha o diagnóstico sozinha. Para falar em infarto, é preciso encontrar critérios de isquemia. A troponina é uma proteína do músculo cardíaco que escapa para o sangue quando as células se lesionam. Seus níveis também sobem em miocardite, sepse, insuficiência cardíaca aguda, embolia pulmonar, AVC, crises epilépticas e até exercício intenso.
O médico deve avaliar sintomas compatíveis, alterações no eletrocardiograma e exames de imagem. O consenso reconhece que nenhum critério isolado dá conta de todos os casos.
A diretriz reforça o uso de limites de troponina específicos para homens e mulheres. O percentil 99 costuma ser mais baixo entre mulheres. Aplicar um único ponto de corte pode levar a subdiagnóstico feminino. Adotar valores por sexo, segundo o documento, reduz esse viés e o risco de deixar lesões cardíacas passarem despercebidas.
A antiga classificação juntava situações muito diferentes. O tipo 2, por exemplo, abrigava tanto problemas agudos da coronária quanto quadros em que outra doença reduzia o oxigênio disponível.
Para o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, amarrar a classificação à origem do infarto é o avanço mais direto da revisão.
A mudança deve influenciar o diagnóstico, o registro hospitalar e as estatísticas de mortalidade. Também deve orientar estudos clínicos e políticas de saúde. A nova classificação será incorporada gradualmente por hospitais e sociedades médicas. A CID-11 terá códigos específicos para os novos grupos.
