Durma com um barulho desses.
Nos bastidores da política goiana há um mito, uma sombra, uma expectativa: na reta final virá de arrasto uma enchente bolsonarista e varrerá da face da terra goiana os favoritos, levando Wilder Morais para o 2º turno.
Pesquisa Atlas desta quinta-feira, 3, mostrou Wilder em segundo lugar nas intenções de voto, bem atrás de Daniel Vilela (MDB), e à frente de Marconi Perillo (PSDB).
Boa notícia para Wilder, por reposicioná-lo no jogo e alimentar o sonho da arrancada, no sprint final.
Péssima para Marconi, já que põe em xeque a sua perspectiva de ir para um eventual 2º turno.
Ocorre que a pesquisa é ótima para Daniel. E isso quer dizer muito. Ela mostra que uma vitória dele no 1º turno é um esforço praticável. Uma avalanche resolve.
O fenômeno bolsonarista é uma referência à eleição de 2024 para a prefeitura de Goiânia.
Em meados de setembro daquele ano, Fred Rodrigues (PL) saiu do quase nada para o 2º turno. Um salto. Uma surpresa que as pesquisas não captaram.
O que houve: o bolsonarismo operou o milagre, assustou, e depois perdeu para o caiadismo. Fred foi derrotado por Sandro Mabel (União Brasil), o candidato de Caiado e Daniel.
Os números da Atlas carregam nuances.
Estimulada: Daniel 43,5%, Wilder 20,1%, Marconi 16,1%, Luís César Bueno (PT) 10,8% e Luciana Amorim (UP) 0,1%.
Votos válidos: Daniel 48,1%, Wilder 22,2%, Marconi 17,8%, Luís César Bueno (PT) 11,7% e Luciana Amorim (UP) 0,1%.
Brancos e nulos 3,5%. Indecisos 6,1%.
A vitória de Daniel no 1º turno está por menos de 2 pontos porcentuais. A margem de erro é de 3,3 pp para mais ou para menos. Para quem tem a máquina de governo nas mãos, está a um esforço concentrado a mais.
Com dois dígitos, o candidato petista pode ajudar a levar a eleição para a outra fase. Para então ser decisivo, como o PT e a esquerda foram em favor de Sandro Mabel.
Tem muita campanha pela frente. Um mês inteiro. É o retrato de momento. E ninguém está de braços cruzados.
Da parte de Wilder há a consideração de que a situação é ainda melhor para ele, quando colocado diante do eleitor o 22. O 22 é Bolsonaro chamando seus apoiadores ao combate. O arrasta-pé da enchente.
Os números não assustam os governistas. Preocupam os marconistas. Dão ar de ‘agora, vai’ aos bolsonaristas. São festejados pelos petistas.
Não significam mudança real no cenário desenhado desde o início do ano, com favoritismo de Daniel e a possibilidade de game over no 1º turno. Tudo já precificado no mercado eleitoral.
O fato relevante está no efeito psicológico provocado pelos índices da Atlas nas mentes propensas às teorias da conspiração nos comitês de campanha. Eles remetem a 2024.
A estrategistas tarimbados, os números servem de alerta. Não assustam. Também estão na contabilidade da eleição as oscilações das últimas semanas.
Questões de ordem: o fenômeno bolsonarista vai chegar? Chegar para ficar? Wilder vai acontecer?
No governo, essa virada de Wilder sobre Marconi era assunto quente, nos últimos dias. Com o cálculo de que teria fôlego curto. O que pensam. Ou: o que tentam fazer crer.
A torcida governista sempre foi por Marconi Perillo em um eventual 2º turno.
O fato: nos últimos dias, os integrantes dos primeiros escalões do Estado receberam ordem para ocupar as ruas na capital e no interior. Atentem: ‘peçam voto e trabalhem firme por Daniel, ou não terão espaço no próximo governo’.
Ordem simples. Ordem dura. Voz de comando eleitoral a ser seguida por quem não quer ser demitido e descartado. Para os habitantes de cargos e pretensos candidatos futuros. Todos por um, para um por todos.
Marconistas não passaram recibo. Quem disse que a pesquisa expressa a verdade? Quem garante que as próximas virão no mesmo rumo?
Quem falou que o bolsonarismo vai operar o mesmo milagre de 2024? Marconi segue seu curso, estimulado pela reconexão com a população.
Sozinho, por esforço próprio, Wilder Morais não mete medo em ninguém, como candidato a governador. Não tem estrutura política, enfrenta guerra fria com Gustavo Gayer, candidato ao Senado, e não investe em estrutura como os outros.
O bolsonarismo é que lhe dá potencial de chance de vitória. O que é menos que potencial de vitória. Porém mais do que chance zero.
A pesquisa Atlas mexeu no imaginário. Não mexeu na eleição.
Criou mais expectativa em cima da expectativa que existia sobre o poder do bolsonarismo.
Sacudiu militante e acendeu luz nos comitês. Estartou novas pesquisas de confirmação. Alertou.
Por enquanto, é só. Ninguém está acordando com um barulho desses.
PS.: Vem cá: e os números da Atlas para o Senado? Por que não foram divulgados?
