No seu primeiro programa eleitoral gratuito na TV, o locutor da peça de Wilder Morais (PL) diz textualmente: “Goiás não pode andar pra trás.”
O conceito na frase tem dono. É o mesmo que vem sendo usado há meses pelo governador Daniel Vilela (MDB), candidato à reeleição. Que o repetiu no seu primeiro programa eleitoral.
Não recuar. Avançar. Esta é a liga de fibra simbólica, para a óptica do eleitor, entre Daniel e o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), seu principal cabo eleitoral e base de toda a sua campanha.
O recado virou mantra massificado meses e meses pelo marketing de Daniel. Foi usado em peça publicitária institucional e está no jingle que embala a militância hoje. Assunto bem repetido aqui.
Uma característica expressiva da campanha do governador Daniel Vilela é o profissionalismo. O trabalho começou no meio do ano passado, com preparação para a troca de comando no governo e, depois, para marcar a transição.
Daniel vem também se preparando pessoalmente há anos. Segue um curso definido. Tem rumo e tem propósito nas ações. Soube esperar Caiado sair. Soube se impor para Caiado não assumir seu destino. Isso é método e é obediência a uma estratégia.
Fez isso enquanto Marconi Perillo (PSDB), Wilder Morais (PL) e o PT batiam cabeça com indecisões e imprecisões de posicionamento interno. Marconi desperdiçou a pré-campanha com ações aleatórias, mais voltando ao passado, portanto andando para trás, do que anunciando o futuro.
Fez na prática o que Wilder faz agora no discurso do marketing, reforçando o mote batido do adversário: andou para trás, ficou preso ao passado, enquanto Daniel seguia em frente.
Mais uma prova de que dificilmente a eleição mudará. Como, se os dois principais candidatos opositores estão fazendo o que é bom pra campanha do líder nas pesquisas, que ainda tem a máquina do governo nas mãos?
Há pelo menos meia dúzia de pesquisas quantitativas e qualitativas medindo cada passo e indicando cada movimento de Daniel Vilela e dos adversários.
Estrutura rica serve para isso, entre outras avenças. Estruturas amadoras que não se viram, padecem e quedam na lamentação.
As pesquisas, acompanhadas de leituras corretas, feitas por gente qualificada, não são gastos. São investimentos necessários. Fundamentais. Problema de quem não faz.
Elas são cimento para construção de narrativas e derrubada das ações e reações negativas do outro lado da trincheira.
Seguir em frente. Não voltar atrás. Manter o que está bom – e que é reconhecido pela população, na aprovação de 88% a Caiado. Não são frases soltas. São o figurino adequado a um contra os outros.
Todos os motes de Daniel são retirados do povo satisfeito e insatisfeito e reiterados para o povo se identificar e comprar. São ideais para chegar à mente das pessoas de forma liminar e subliminar. E escolhidos com ciência para encontrarem morada na emoção.
Um jingle chiclete é um recado de quermesse para aquecer o coração do eleitor.
Por que diabos, então, Wilder começa a campanha dele insistindo no que é estratégico para o principal adversário? Questão legítima.
E por que tentar provar que ele foi pobre, com depoimentos de gente que nunca falaria mal dele (mãe, amigos…), é mais importante do que simplesmente contar a história dele?
Por que reacender algo que tem sido negativo para a imagem de Wilder, que é o discurso inimigo pregando que o ex-pobre se transformou em um novo-rico bon vivant?
O que não falta nesta eleição é marqueteiro inventado de última hora. Ou marqueteiro querendo descobrir a roda.
O mais incrível é ver o destino de candidatos experientes entregues às IAs e malabarismos de quem não sabe onde o calo aperta. Iluminados que querem brilhar mais que o sol, mas não sabem onde nascem as vitórias.
O que mais tem em Goiás hoje é candidato vítima de marqueteiro craque em derrota. Majoritários e proporcionais.
Hoje, marqueteiro e técnico de futebol virou mato: todo mundo se acha. Bom que haja proliferação de profissionais no mercado. Bom que a gente se diverte. Ruim, só pra quem perde.
Que fazer, se o candidato está disposto a apostar o seu futuro na estratégia do filho adolescente do sobrinho que é bom de redes sociais porque aprendeu com o primo da namorada do amigo? E se usa pesquisa de instituto self service? Rir é o melhor remédio.
Para o governo de Goiás, Daniel Vilela age com ciência e método. Seus adversários, com amadorismo e fé, sem fazerem sua parte.
Além de acampar no passado, Marconi Perillo fez uma pré-campanha com o fígado exposto. Voltou ao povo, mas para cobrar pelas obras realizadas. Seus primeiros programas na TV mudaram o eixo. Ganhou leveza. Seu marketing está posicionado. Porém seu adversário nem é mais Daniel ou Wilder. É o tempo.
Wilder, que nada fez na pré-campanha e agora ajuda o principal adversário com mote e falta de críticas – disse que fará -, está fiado no mesmo princípio: o bolsonarismo resolverá na reta final.
Ele não precisa acertar. Basta esperar.
Não importa que, ao falar em expulsar o prefeito de Anápolis, leve à mídia mais uma mensagem de reforço a Daniel: a de que o governo está fortalecido sobre o bolsonarismo e o que aconteceu em 2024, com Fred Rodrigues, pode não se repetir em 2026.
Menos relevante ainda é a constatação de que o bolsonarismo está agora, como não estava na eleição para a Prefeitura de Goiânia, dividido.
Uma parte está com Wilder. E outra, com Gustavo Gayer, candidato a senador do PL. Gayer não está de corpo e alma com Wilder, e isso é informação de bolsonaristas.
As urnas estão chegando. E a conta não fecha para Wilder eF Marconi. E para o PT, onde o candidato a governador, Luís César Bueno, se vira sozinho como pode.
O PT trabalhou contra o PT na pré-campanha. E não está trabalhando a favor de Luís César na campanha.
Os candidatos a deputado federal e estadual estão cada um por si. Luís César que se vire.
Nem as crises políticas que surgem no horizonte da base governista criam lastro. Surgem e morrem na esteira da inabilidade oposicionista e na força da atração da perspectiva da vitória, ímã curativo e avassalador em mãos poderosas – está funcionando.
Não é dizer que a eleição está decidida. Eleição só acaba quando as urnas são abertas.
É repetir que, pelo retrato de momento, nada há que aponte mudança de rumo no que as pesquisas indicam.
Filme antigo. Todos vendo para onde a eleição está caminhando, e alimentando a esperança de que a qualquer instante vai acontecer algo para de repente alterar o curso do inevitável.
É quando acaba a expectativa de que a campanha possa ganhar, e começa o desespero da torcida para que o outro lado, que vem acertando todas, comece a errar sem parar.
É quando o sonho de vitória nasce do pesadelo da derrota. Pode acontecer. Mas vai acontecer?
Desde a pré-campanha, Daniel Vilela vence Wilder Morais, Marconi Perillo e o PT. Sem suar a camisa.
Só Deus para salvar os candidatos de oposição. Porque o povo… O povo não costuma perdoar os amadores de plantão.
Debate
O debate entre os quatro candidatos ao governo neste domingo, 30, na PUC TV foi mais do mesmo jogo jogado na propaganda eleitoral. Conversaremos sobre isso.
