O eleitor vive em estados de contradição.
O Estado de Goiás que ele quer não é o que ele tem.
O Brasil que ele não tem é o que ele gostaria de ter.
Quem ele é, quem ele pensa que é, aquele ele gostaria de ser, todos fruto da sua imaginação.
Ele jura que é real.
A realidade é outra. Menos nobre. Menos virtuosa. Mais boldo que coração.
Uma realidade que se encaixa na necessidade de sobrevivência, na urgência dos boletos e na vaidade das aparências.
Longe de ser a prescrição bíblica da perfeição. É demasiado humana e divinamente comezinha.
O eleitor quer o fim dos políticos corruptos, mas não dá corrupção em si.
Defensor do certo sobre o errado, ele vende o voto ao menor aceno de um lote, um emprego, uma nota.
Tome aqui seus cinquenta reais e tá feito o negócio.
Quem dá mais, leva.
Leva a alma e o voto às urnas. Tudo embalado com discurso moral e cívico.
Todo mundo malha a corrupção alheia. Ninguém se olha no espelho.
Malham o outro. Não há malho de orgulho próprio.
Quem não xinga o deputado que desvia o dinheiro da emenda?
Quantos recusam participar de uma corrupçãozinha básica, aqui é ali, se e quando chamados com jeitinho?
A vida é um vendaval. O cidadão não é simples. O eleitor é complicado.
O homem e a mulher de bem não aceitam dar dinheiro para pobre porque deixa o pobre preguiçoso.
Isso não é política social que se preze e faça pelo País e os pobres – dizem, convictos ideologicamente, qual seja a ideologia.
E levantam a bandeira do capitalismo, do livre mercado, da competição necessária para o engrandecimento do mercado e da vida social, da bíblia e dos padres e pastores.
Mas exigem recurso a fundo perdido para o seu negócio e, filhos diletos de Deus, para a abençoada igreja.
Se não tiverem financiamento a perder de vista, denunciam logo: governo fajuto, não ajuda, não banca a economia, só tem recurso para cultura e campanha. E não verdade?
O mesmo cidadão que defende fervorosamente o fim do aborto, não aceita pagar o custo – financeiro, moral e coletivo – da criação do filho do estupro e criança que o pariu.
Paradoxo social não lhe compete. O que lhe cabe é o conforto das lactações espirituais.
Se esse filho da puta virar bandido, o problema não terá sido seu, mas do Estado, do inimigo político, do anti-cristo.
Quem defende bandido bom é bandido morto não se vê bandido na violência doméstica, no feminicídio, no acesso de raiva no trânsito, na eclosão de fúria com o vizinho que quebrou a ponta de sua calçada, no desencontro das ideias e pensamentos.
Na Bíblia, como no Código Penal, há prova para defesa e acusação.
A vida está sujeita a interpretação. O bem e o mal, o certo e o errado, cabem aos outros.
Deste ponto de vista, na opinião posta, não há contestação.
E viva a liberdade, segundo definição de quem fala mais alto.
Você está eleito para eleger. Você é quem elege.
As urnas são um portal para novo mundo. Ou buraco sem fundo.
