O Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), em Goiânia, sedia nesta sexta-feira, dia 10, às 9h, o relançamento do livro “Nova China”. Escrita pelo ex-senador goiano Domingos Netto de Vellasco, a obra ganha uma nova edição sob o selo da Fundação João Mangabeira (FJM). O projeto integra a Coleção Equidade é Liberdade e conta com a coordenação de Einstein Paniago, presidente da Fundação João Mangabeira em Goiás.
A iniciativa busca corrigir uma lacuna de quase seis décadas na historiografia do estado. De acordo com o editor do lançamento, Sandro Bello, a trajetória intelectual e parlamentar de Vellasco sofreu com o esquecimento devido à centralidade de outros personagens da época.
“Levei este projeto para a Fundação João Mangabeira, na pessoa do seu presidente regional, Eistein Paniago que de forma imediata a encampou porque mesmo tendo sido Vellasco um dos cinco maiores líderes políticos de Goiás no século XX sua bibliografia atualmente disponível restringe-se, majoritariamente, a poucos registros jornalísticos e acadêmicos. Entendo que esta escassez ocorre porque a historiografia da era Vargas (1930 – 1945) e do período democrático (1945 – 1964) em Goiás privilegia a liderança de Pedro Ludovico Teixeira e a superação do coronelismo via mudança da capital. Consequentemente, a relevante atuação parlamentar e intelectual de Vellasco é frequentemente relegada a uma posição periférica ou omitida dos relatos centrais. E acredito que alguém desta envergadura precisa ter seu valor reconhecido.
Nisto a Fundação João Mangabeira, regional Goiás tem reparado uma lacuna de quase seis décadas de apagamento histórico de Domingos Vellasco!”, afirma Bello.
Olhar pragmático e sem amarras ideológicas
Em “Nova China”, Vellasco relata suas impressões diretas após a Revolução de 1949 e detalha os encontros que manteve com o líder Mao Tsé-tung. Longe dos extremos que marcaram o período da Guerra Fria, o autor definiu o país asiático com uma postura ponderada: a China “não é nem o paraíso, nem o inferno”.

Na época da primeira publicação, Vellasco fez questão de esclarecer que a obra não consistia em propaganda comunista, pois ele também nutria profunda admiração pelas instituições do povo americano. O livro aborda ainda uma faceta lírica e pouco divulgada de Mao Tsé-tung na poesia, além de estudos sobre o sistema de cooperativas.
As lições da ascensão chinesa para 2026
O prefácio desta nova edição recebe a assinatura de Floriano Pesaro, diretor da ApexBrasil e vice-presidente da Fundação João Mangabeira. Para ele, o texto reveste-se de extrema atualidade e ajuda a decifrar o papel da superpotência no cenário global contemporâneo.
“Vellasco percebeu, ainda na década de 1950, elementos fundamentais para a trajetória posterior da China: planejamento de longo prazo, capacidade de mobilização da sociedade, valorização do trabalho e da educação e, principalmente, a construção de um projeto nacional. A ascensão chinesa não ocorreu de repente; é resultado de um processo histórico longo, complexo e cheio de contradições”, destaca Pesaro.
Como gestor da ApexBrasil, Pesaro indica que o livro serve de bússola para o empresariado e para os gestores públicos goianos, que têm na China o seu principal parceiro comercial. Para ele, o desafio atual exige a sofisticação dessa troca econômica.
- Além das commodities: “Precisamos ir além da exportação de produtos tradicionais e avançar em investimentos, inovação, tecnologia, transição energética e economia verde”, avalia o diretor.
- Inteligência cultural: “Não há como estabelecer relação com a China sem o esforço real de compreendê-la. Falamos de um país com história milenar e forma muito particular de pensar o Estado e o planejamento.”
A fome como problema político
Outro ponto do livro defendido por Pesaro é a forma como o autor abordou a segurança alimentar. Vellasco não tratou a fome como uma fatalidade climática ou mera escassez de alimentos, mas sim como um problema político a ser superado com a organização das forças produtoras do Estado.
“Essa reflexão continua válida. O crescimento econômico precisa produzir resultados concretos na vida das pessoas. Crescer é fundamental, mas o avanço exige a redução de desigualdades, a ampliação de oportunidades e a garantia de dignidade”, pontua o prefaciador.
Para o diretor da ApexBrasil, a postura intelectual do político goiano, pautada na observação direta e na isenção, deixa um recado importante para a atualidade. “Vellasco viajou para conhecer, não para confirmar preconceitos ou defender conclusões pré-estabelecidas. Diante de um mundo cada vez mais polarizado, precisamos recuperar a capacidade de conhecer, dialogar e compreender antes de emitir julgamentos.”
Uma vida de confrontos e diplomacia
De acordo com Sandro, as fotos em que o senador veste uniforme militar são da década de 1930, durante sua participação no movimento tenentista e no início do Estado Novo — Fotos do acervo pessoal de Ana Vellasco
Nascido em 1899 na Cidade de Goiás, Domingos Vellasco construiu uma trajetória marcada pela resiliência. Na juventude, um trote violento sofrido na Escola Militar de Realengo causou-lhe lesões graves na coluna e no joelho. O episódio o obrigou a caminhar com o auxílio de uma bengala pelo resto da vida — fatalidade que ele suportou sem nunca registrar queixas formais.
Como advogado e jornalista, atuou na imprensa fluminense e goiana, combateu as oligarquias locais e participou ativamente da Revolução de 1932. Elegeu-se deputado federal em 1934, mas acabou detido em 1936 sob a acusação de apoiar Luiz Carlos Prestes, em uma perseguição comandada por Filinto Müller a mando de Getúlio Vargas. O próprio Vellasco redigiu sua defesa jurídica e obteve a liberdade em 1937.
Com o fim do Estado Novo, em 1945, participou da fundação do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sua atuação no Senado Federal, entre 1951 e 1959, deu-lhe projeção internacional. O trânsito diplomático permitiu que ele dialogasse com o Papa Pio XII, em Roma, e com autoridades asiáticas. Em reconhecimento à sua liderança continental, recebeu uma homenagem pública no Chile com o título de “Senador das Américas”. Domingos Vellasco faleceu em 1973, no Rio de Janeiro.
Serviço

- Evento: Relançamento do livro “Nova China”, de Domingos Vellasco
- Data: Sexta-feira, dia 10
- Horário: 9h
- Local: Casa Rosada (Sede do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás – IHGG)
- Endereço: Goiânia – GO














