A Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para responder perguntas ou automatizar tarefas simples. Em empresas goianas, agentes inteligentes já assumem processos completos, integram diferentes sistemas, monitoram operações e ajudam a reduzir custos.
O resultado aparece na rotina das empresas: mais produtividade, menos retrabalho e decisões baseadas em dados.
Do chatbot à IA agêntica
A evolução dos sistemas trouxe o conceito de IA agêntica, uma tecnologia que supera os antigos “robôs de conversação” padronizados. O contador e consultor tributário Bruno Leles, destaca essa diferença com base em sua experiência prática: “Não é um chatbot. O chatbot é muito padronizado, é robotizado, a pessoa percebe. Com essa nova IA, ela veio — de certa forma — humanizada”. Segundo a avaliação de clientes, o atendimento parece ser feito realmente por uma pessoa, não um “robô”.

Diferentemente dos chatbots tradicionais, esses agentes são adaptados à rotina de cada empresa. Eles executam tarefas de ponta a ponta e se conectam diretamente a plataformas como CRM e WhatsApp.
Na prática, atividades que antes dependiam de vários programas passam a funcionar em um único ambiente. Gestão de projetos, criação de peças gráficas, agendamento de publicações e até o desenvolvimento de sites podem ser concentrados no mesmo fluxo de trabalho. Além de reduzir gastos com diferentes licenças de software, a integração evita que equipes precisem ficar alternando entre plataformas.
O trabalho por trás do sistema
A introdução dessa tecnologia com Bruno necessitou de um trabalho de arquitetura técnica e de processos, com Felipe Zanoni. O trabalho não se resume à instalação do sistema. Antes disso, é preciso entender a rotina da empresa, definir processos e configurar o sistema para atuar de acordo com essa realidade.

Zanoni explica que o ponto de partida é a criação de uma estrutura de pensamento para a máquina: “O trabalho consiste em criar um framework, que é uma forma da tecnologia pensar, guardar memória, executar as tarefas”. Esse modelo é abastecido com arquivos de treinamento e instruções detalhadas, frutos da experiência de campo com o cotidiano das empresas.
Na fase prática, o especialista analisa o cenário da organização para definir a melhor tecnologia de suporte: “A gente vê qual que é o melhor motor de IA para acoplar na ferramenta. Eu ajudo inicialmente a fazer as primeiras integrações com os sistemas da empresa, com o formato de trabalho deles”.
O objetivo final do método é a transferência de autonomia para o cliente. Após a fase inicial de acoplamento do sistema aos servidores, o foco migra para a capacitação dos colaboradores. “A partir daí, os próprios funcionários e o dono da empresa começam a entender o jogo e eles mesmos já vão desenvolvendo e melhorando aquele trabalho de forma independente”, ressalta Zanoni.
Resultados práticos

Os resultados já aparecem em empresas goianas. A Sigma Contabilidade é um dos exemplos dessa adoção. Após a adoção do agente customizado, a empresa registrou ganhos operacionais expressivos. “De tempo e eficiência, a gente fala aí de aproximadamente 10 vezes que a gente acelera”, relata Leles.
Os ganhos aparecem tanto na captação de clientes quanto nas rotinas administrativas. Bruno explica que os softwares tradicionais do mercado são padrões e resolvem apenas uma fração dos problemas. Com a IA customizada, o cenário mudou: “Eu tenho um software que busca certidões negativas, fica monitorando as pendências dos clientes. Isso existe no mercado (…), mas eu criei a minha, funciona, roda bem e eu cancelei a que eu tinha”.
A empresa também passou a acompanhar melhor o desempenho da equipe. O sistema consolida dados dispersos e gera painéis de controle detalhados. Leles aponta que a ferramenta trouxe clareza sobre a produtividade interna, o que permite visualizar o desempenho individual por setor e valorizar quem se destaca. Essa análise precisa evitou, inclusive, a sobrecarga de bons profissionais.
O consultor revela que, em uma equipe de quatro pessoas, uma delas executava metade de todo o trabalho devido à ociosidade das demais. “Eu quase perdi a melhor colaboradora que eu tenho até hoje, por causa de pessoas que se encostam”, relata. Em termos financeiros, o reflexo foi imediato: “É no mínimo 30% [de redução de custos]. Eu notei depois dessa implementação, e tem o quê? Três meses”.
Segurança da informação e estratégia
Segurança da informação e adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ainda estão entre as principais dúvidas das empresas que pretendem adotar esse tipo de tecnologia. Felipe esclarece que a adequação ocorre em uma camada compartilhada. As políticas de privacidade e a manipulação das informações dependem diretamente dos termos técnicos dos grandes provedores de motores de IA (como Claude e OpenAI), vinculados ao tipo de conta corporativa que a empresa assina.
A atuação de Zanoni concentra-se na proteção da infraestrutura local e no tráfego dessas informações. Como esses agentes se conectam a servidores em nuvem, o especialista insere travas de segurança no código de treinamento. “No início do trabalho eu identifiquei que isso poderia ser um problema (…) e eu desenvolvi com ele uma forma de deixar essa segurança o mais rígida possível”, destaca.

Segundo Zanoni, as medidas de proteção têm duas funções principais:
O primeiro está no controle de decisão. O empresário define o limite de autonomia do sistema. Em tarefas críticas, o sistema solicita confirmação, mas existe a opção de configurar a ferramenta para exigir aprovação humana prévia para cada ação isolada.
E o segundo está na vigilância contra ataques. O próprio agente atua na proteção do sistema monitorando os servidores em tempo real para identificar e barrar tentativas externas de invasão. “Como a tecnologia tem acesso à internet inteira, tudo o que está disponível, ele consegue sim ter uma habilidade sênior”, explica Zanoni, ao confrontar a capacidade do robô com a de técnicos tradicionais de mercado.
Para garantir que essa transição ocorra sem ruídos, a recomendação estratégica é centralizar a implantação no topo da empresa. “Meu conselho é: não coloque para todo mundo, pelo menos não imediatamente, porque ele precisa ser direcionado. Quem lidera a equipe vai aprender a lidar com a tecnologia e depois repassar aos outros”, recomenda Bruno Leles.
E a preocupação com os tokens?
Nos bastidores dessa tecnologia, o custo operacional é calculado por meio de tokens — pedaços de palavras ou caracteres que servem como a unidade de medida para o volume de dados processados pela máquina.
Como cada interação, leitura de arquivo ou resposta consome esses créditos, um sistema sem o devido refinamento corre o risco de executar tarefas redundantes e inflar a fatura da empresa. É justamente nesse ponto que o trabalho de arquitetura técnica e de processos ganha relevância.
A criação de um framework inteligente orienta o agente a pensar e a resgatar memórias com precisão, o que assegura a máxima eficiência operacional com o menor consumo de dados possível.
“Caminho sem volta”
O cenário atual aponta para uma divisão clara entre as corporações que se adaptam e as que ficam inertes à evolução digital. A capacidade de produzir mais com estruturas enxutas redefine os custos competitivos de diversos setores.
Zanoni alerta para a necessidade imediata de atualização: “A empresa que não se prepararem, não vão conseguir competir (…). As possibilidades elas se multiplicam muito, e aí as pessoas que não tiverem acesso a isso, elas vão sentir realmente aquela pressão”. Leles é ainda mais enfático sobre a realidade do mercado goiano e a velocidade das mudanças: “Faça, comece a usar os agentes o quanto antes, porque você já está para trás (…). Ou usa ou sai do mercado. É impossível competir com um escritório de contabilidade que usa IA”.
