Flávio Bolsonaro vive um daqueles momentos em que a política deixa de ser palco e se transforma em espelho. O senador subiu hoje à tribuna do Senado em tom de indignação, cobrando a instalação da CPMI do Banco Master, discursando como guardião da moral pública, quase como um homem sem passado recente. Mas havia um detalhe
impossível de ignorar: em nenhum momento falou sobre si mesmo, sobre os áudios vazados, sobre Daniel Vorcaro, sobre os repasses milionários, sobre as dúvidas que pairam sobre sua própria conduta política.
A movimentação parece menos um gesto de coragem e mais uma estratégia de sobrevivência. Flávio tenta inverter o foco, transformar-se de personagem central do escândalo em fiscal da crise. É uma velha tática de Brasília: atacar antes de ser atingido, ocupar o microfone antes que a narrativa o engula. O problema é que os fatos seguem ali,
imóveis, pesados, desconfortáveis.
Nos bastidores do Congresso, poucos acreditam realmente na instalação da CPMI. E entre os que menos parecem desejar que ela saia do papel estão justamente setores ligados ao próprio senador. Uma investigação ampla demais pode fugir do controle, abrir portas imprevisíveis e atingir muita gente além do alvo inicial. O Senado trava,
Alcolumbre segura, líderes hesitam. Todos parecem conhecer os riscos do subsolo que uma CPI costuma abrir.
Flávio adota agora o personagem do homem perseguido, indignado, injustiçado. Mas sua fala carrega um vazio perceptível: a ausência completa de autocrítica. Age como se o escândalo estivesse ao redor dele, nunca sobre ele. Como se as perguntas servissem apenas aos outros.
Até sua viagem aos Estados Unidos parece ganhar contornos simbólicos. Busca em Donald Trump uma espécie de fotografia política capaz de reanimar a própria narrativa. Um líder em busca de outro líder para tentar reconstruir a imagem de força que o desgaste corroeu em Brasília.
Mas há algo melancólico em tudo isso. Flávio parece entrar na chamada “balada do homem perdido”: fala alto para esconder o silêncio das próprias explicações. Quanto mais endurece o discurso, mais evidente fica o desconforto. E, na política, quando alguém precisa representar indignação o tempo inteiro, é porque teme profundamente o julgamento que vem pela frente.
