O campo mais fértil para uma oposição brotar é o vácuo. Vácuo de poder. Vácuo na ocupação do poder. Vácuo na reação aos distúrbios do poder. Vácuo.
Vácuo é sinal de fragilidade. O que já é fragilidade em si.
Quando a mão é forte, os oponentes em potencial relutam. Calculam. Temem. Não sendo, todos vão pra cima. Ocupam espaço. Assumem o comando.
Ronaldo Caiado se beneficiou, nos seus dois governos em Goiás, do fim de um ciclo político que vinha de 1982, com a volta de Iris Resende ao governo pelo MDB, do clima de platitude política no cerrado goiano e do medo.
Liderou governos sem oposição em um Estado com adversário sem coragem de ser contra ele de fato e de discurso. Resultado: aprovação acima de 80%.
Puxou pela cauda vários filhotes de crise, empunhando a moralidade e uma cruzada renhida na segurança. O lema: bandido ou muda de profissão, ou muda de Goiás.
E cortou pela raiz dissidências que poderiam ameaçá-lo, cooptando ou escanteando. Reinou absoluto.
Como arauto das bem aventuranças, vendeu esperança e orgulho para os goianos. “Vou devolver Goiás aos goianos”, pregou, junto com uma ideia própria de pacificação interna.
Fez tudo enquanto preparava terreno para o salto maior: ser candidato a presidente da República. Objetivo alcançado ao trocar o União Brasil pelo PSD.
Isso era antes e enquanto Caiado. Depois de Caiado, o que temos: uma eleição com dissidências e incógnitas.
Marconi Perillo (PSDB) atrai aliados que já foram caiadistas – numa reedição do eterno retorno político: boa parte dos caiadistas de quatro costados nos últimos anos eram, na verdade, marconistas instituídos a partir de 1998 se virando pra sobreviver.
Wilder Morais (PL) é do mesmo grupo ideológico (interpretação com licença poética acadêmica) caiadista e danielista (digamos assim, dos apoiadores da reeleição e emedebistas ligados ao governador Daniel Vilela).
O danielismo, assim digamos também, é filhote do maguitismo, de Maguito Vilela, ex-governador emedebista e pai de Daniel. Longa história.
Mas do lado de Wilder há nuances. Políticos novos. Como se diz: novos players. Novos porque muitos são jovens e outros não são ligados umbilicalmente a grupos tradicionais da política goiana. Chegaram causando com o bolsonarismo.
Significa que a visão em relação a eles precisa ser outra. O que vão fazer? Como se organizarão na nova ordem política estadual que se esboça? Ficarão de que lado ou que lado serão na fila da eleição?
Importa saber por uma razão a se tornar histórica: a provável nova polarização política de Goiás passará por aí.
Marconi tem, assim como Wilder, potencial de se reorganizar, reaglutinando força suficiente para se contrapor a Daniel. Está na ativa por isso, na busca pelo renascimento das cinzas.
Mas certamente terá como um polo oposto essa direita que não é caiadista. O certamente é incerto por incerteza do cenário nacional. Que direita sobreviverá ao bolsonarismo? Ou o bolsonarismo vai continuar mandando na política toda anti-esquerda?
Vale questão idêntica a Daniel Vilela. Onde estará a oposição a ele depois de outubro, caso seja reeleito para manda no Estado pelos próximos decisivos anos – os anos-eixo da transição para a nova ordem política goiana?
A oposição estará em Marconi? Em Wilder? Em lugar (grupo) e nome incerto e não sabido ainda?
E se Daniel perder? Que configuração nascerá desse parto eleitoral de outubro próximo?
Por ora, só o PT pode ser nominado como oposição a todos. Mas o PT está apático. Não se opõe a ninguém, em Goiás, desde que nasceu. Hoje em dia, menos que tudo. Tá pra nascer a geração que mudar esta realidade. Nem que seja nascimento simbólico.
E o fato de Daniel estar no governo não quer dizer que será um polo de poder, nem que será o governista estabelecido como polo duradouro, apto a ter uma oposição no Estado que o valide em contrapartida. Reeleição é um passo, mas não o salto.
As eleições deste ano terão esse poder de apontar os caminhos, embora não consolidem a nova realidade.
A partir de outubro, um novo tempo será inaugurado oficialmente, da pra anotar, com as margens de erro conceitual necessárias em balizamentos tais no tempo histórico.
Situação é oposição como projetos em andamento a partir de um berço, como referência Objetiva.
Caiado não é a referência neste momento desse rearranjo porque está ficando à parte no jogo local. A não ser como imagem.
Imagem santa, para Daniel, imagem nem tanto, para Marconi. E imagem incerta para Wilder, já que o segundo turno será outra história.
Me conte: Flávio Bolsonaro (ou quem for o nome, depois do escândalo Daniel Vorcaro e Banco Master) e Caiado juntos? Wilder e Daniel se enfrentando em eventual segundo turno?
Cenários. Tantos cenários.
O reagrupamento político no Estado está acontecendo. Questão de tempo. O presente é didático o futuro.
Neste compasso, só na eleição de 2030 teremos um quadro real do que serão os próximos 30 ou mais anos na política goiana.
Um novo Iris vai surgir?
Um novo Maguito, Nion Albernaz, Henrique Santillo?
Quem vem lá do interior?
José Délio, Paulo Vitor Avelar, Marden Jr?, Jânio Darrot, Diego Sorgatto, Carlinhos do Mangão, Vanusa Valadares, Aleomar Rezende, Kleber Marra, Issy Quinan, Márcio Corrêa, Leandro Vilela, Renato de Castro? Os Vale? Os Carmo? Os Peixoto?
Outros, talvez. Gracinha Caiado? Alexandre Baldy? José Mário Schreiner? Vanderlan Cardoso redivivo? Gustavo Gayer? Quem mais? Quem menos? O incerto e não sabido?
Em 1998, Marconi Perillo foi eleito governador vencendo um MDB muito forte, e no poder. Mas houve antecedentes que abriram caminho.
Oposição de fato passo a passo, eleição a eleição.
Na disputa anterior, de 1994, disputaram de igual para igual: Maguito Vilela, Ronaldo Caiado e Lúcia Vânia.
Três forças, com o detalhe de que Caiado e Lúcia eram “a” oposição – dividida, no entanto bem resolvida.
Juntos, tiveram votos que, somados em uma candidatura, resultariam na derrota de Maguito no primeiro turno. No entanto, o pai de Daniel Vilela virou governador. E virou outra referência de poder no Estado.
O espaço está aí. Ocupa quem quer. Quem tem poder pra tanto. Mas atenção: se não andar logo, outro vai ocupar.
Logo – como competência. E não logo como atropelo.
